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abril 14, 2005

SPORTING - 4; NEWCASTLE - 1

Agora que as pulsações já voltaram ao normal e a Alice recuperou do susto de ver o pai a saltar como um louco no meio da sala, quero deixar aqui (ainda a quente) algumas impressões sobre esta noite histórica, épica, genial, gloriosa, etc.:

- O Sporting mereceu ganhar a eliminatória. É claramente uma equipa superior à do Newcastle, tanto em termos individuais como colectivos. Perder diante da equipa inglesa teria sido um desperdício de talento e uma facada nas costas dos adeptos que acreditaram, sempre, na possibilidade de conquistarmos a Taça UEFA no nosso estádio.

- Esta noite, provou-se mais uma vez que João Moutinho é um jogador fenomenal. O resto da equipa também esteve muito bem (excepto a defesa, de uma instabilidade sempre à beira do desastre) e até Pinilla mostrou que pode ser mais do que um segundo Tello. Além disso, a famosa dependência de Liedson não se fez sentir.

- Quem falhou em toda a linha, apesar do resultado e da consagração, foi José Peseiro. Falhou em Inglaterra, ao não arriscar o suficiente na procura do empate. E falhou em Alvalade, ao apostar num sistema de jogo suicida. Com a obrigação de marcar dois golos, Peseiro apostou num ataque reforçado (Sá Pinto, Douala e Niculae) mas pôs a defesa a jogar em linha, contra um Newcastle que sabe contra-atacar e tem jogadores rapidíssimos (como Dyer) que só não fizeram três ou quatro golos por mero acaso.

- Apesar da estratégia no fio da navalha e dos desequilíbrios introduzidos na equipa, houve um aspecto positivo: Peseiro demonstrou que queria ganhar. E ganhou. Um pouco à maneira de Mourinho, quando foi vencer à Grécia depois de ter perdido em casa, na campanha portista que levou à conquista da Taça UEFA em Sevilha. A diferença é que Mourinho ganhou porque foi melhor, mais esperto e mais audaz, enquanto Peseiro colocou a cabeça no cepo e limitou-se a ter muita, mas mesmo muita sorte. No sucesso do FCP em 2003, o mérito foi quase todo do treinador. Na vitória do Sporting esta noite, o mérito foi exclusivamente dos atletas e da sua capacidade de se transcenderem.

- Noutras épocas, houve muitas noites em que os deuses do futebol estiveram contra nós (lembram-se daqueles remates ao poste no Santiago Barnabéu, há uns anos?), mas hoje esses mesmos deuses mexeram todos os cordelinhos a nosso favor. Além dos lances de perigo do Newcastle salvos in extremis, os ingleses tiveram lesões, quebras físicas e erros defensivos que foram aproveitados, com rara eficácia, pelo Sporting. A noite foi bela e emocionante e inesquecível, mas é bom termos consciência de que o resultado poderia ter sido precisamente o inverso: 1-4.

- Dito isto, é óbvio que daqui a uns anos só nos vamos lembrar dos cabeceamentos do Niculae e do Beto, da rapidez de reflexos do Sá Pinto e da obra-prima que é o golo do Rochembach (a forma como ele passou a bola por cima do defesa e a colocou, devagarinho, junto ao poste direito da baliza merecia um tratado escrito pelo Valdano ou pelo maradona).

- O tempo é de euforia. Mais do que justificada. Mais do que merecida. A final em Alvalade e a conquista da Taça continuam a estar, como sempre defendi, perfeitamente ao nosso alcance. Só que já agora convém não esquecermos os riscos e os calafrios porque passámos esta noite. Peseiro está sempre na corda bamba, entre a desmesura e o descalabro, mas um dia pode estatelar-se de vez cá em baixo. O que lhe vale (isto é, o que nos vale a nós, adeptos) é que não há equívoco táctico que impeça estes jogadores de fazerem do futebol uma experiência inebriante. E — lá está — épica, genial, gloriosa, etc...

- E agora venham os holandeses, para que o futuro treinador do FCP se vá habituando, desde já, ao sabor da derrota infligida por demónios vestidos de verde e branco.

Publicado por José Mário Silva às abril 14, 2005 11:46 PM

Comentários

E eu benfiquista fiquei muito contente - apesar da tremideira geral que houve em determinadas alturas, como bem descreves. Começo a achar que o DN tem perdido um bom jornalista/comentador de futebol... ;)

Publicado por: Marujo em abril 15, 2005 02:22 AM

Estive lá. E quero reclamar o título de profeta, pois finalmente o meu optimismo teórico foi confirmado, pese embora o pessimismo prático que resultou de ver o Polga a ser comido, e a dar a comer, durante toda a primeira parte. Sempre que os ingleses iam até à nossa baliza (e faziam-no sistematicamente pelo lado direito) era meio golo. Acabaram os 45 comigo a pensar que não merecíamos passar, mesmo que se ganhasse o jogo, até porque a seguir ao golo do Newcastle ficámos aparvalhados.

E depois... Pedro Barbosa! - que tu ignoras Zé, na que é a maior injustiça da noite. Foi ele que ganhou a eliminatória, a partir do primeiro toque na bola. E aqui talvez Peseiro tenha sido sábio, pois o Barbosa entrou no campo na altura certa, e deu-se a felicidade de ter entrado, também, no jogo.

Esta época tivemos sempre uma defesa periclitante (onde o Ricardo também falha e poucas vezes salva), o que justifica em grande parte não estarmos isolados por muitos pontos no 1º lugar. É assim. Se formos à final, não vai ser diferente.

Publicado por: Valupi em abril 15, 2005 03:51 AM

"Histórica, épica, genial, gloriosa". Não digas mais. Nem no tempo da pneumónica se faziam discursos destes. Depois não me venhas dizer merdas do PSD e do papa à espera que eu acredite.

Publicado por: Madalena em abril 15, 2005 08:47 AM

Esqueces o etc. que vinha depois desses adjectivos, Madalena. E no etc. estava o travão irónico, o filtro dos exageros retóricos a que nos pode levar um grande jogo de futebol. Pena que não tenhas compreendido isso, como não compreendes geralmente muitas outras coisas. Aliás, só compreendes o que queres compreender e estás no teu direito. Mas depois não venhas para aqui a pensar que eu espero de ti seja o que for.
E o que raio tem isto a ver com o PSD ou com o Papa?

Publicado por: José Mário Silva em abril 15, 2005 09:25 AM

Valupi,
Tens toda a razão. O Pedro Barbosa foi enorme, precioso, determinante. Deu, literalmente, a volta ao jogo. Ou como diria o José do Carmo Francisco, «afagou a bola numa ternura repentina».
Não o referir é de facto uma injustiça, mas, por outro lado, se fosse escrever tudo o que me passou pela cabeça ainda não tinha acabado o post.

Publicado por: José Mário Silva em abril 15, 2005 09:29 AM

Eu torci pelo newcastle e perdi... Não sou sportinguista nem nacionalista.

Publicado por: zangalamanga em abril 15, 2005 09:32 AM

Não vejo de onde pode vir tanta alegria, cá para mim era melhor terem sido eliminados pelo Newcastle do que pelo AZ Altomar ou lá como é que isso se chama

Publicado por: Real em abril 15, 2005 10:24 AM

Excelente análise JMS.

Publicado por: Rui MCB em abril 15, 2005 10:45 AM

Por um benfiquista: desliguei o rádio (ou neste caso a ligação à TSF pela internet) quando o Newcastle marcou o golo. Voltei a ligá-lo mais tarde, com pouca crença, quando vi n'A Bola online que o resultado já estava em 2-1 e quando o liguei a primeira coisa que ouvi foi algo do género "Alvalade em festa com o resultado de 3-1 a dar a qualificação ao Sporting". Temi pela tremideira final e suspirei de alívio quando o melhor gordo do futebol português acalmou tudo.

Agora, e se conseguir, lá vou eu viajar cerca de duas horas e meia para ver em Alkmaar, ali ao lado de Amesterdão, o Sporting a carimbar a passagem à "sua" final. Será um benfiquista ali no meio, mas garanto que torcerei pelo Sporting como se fosse da Juve Leo.

Publicado por: João André em abril 15, 2005 10:46 AM

Grande João André. És a prova de que se pode ser benfiquista e bom desportista.
;)

Publicado por: José Mário Silva em abril 15, 2005 11:56 AM

Ah pode, pode... é raro mas pode...

Eu gostava era de conseguir ver sportinguistas a fazer o mesmo quando quem está na berlinda é o Benfica.

};-)

Publicado por: Jorge em abril 15, 2005 12:59 PM

Jorge, também eu gostava, mas há um grande problema para se conseguir isso: o Benfica, infelizmente, há muito tempo que não está na berlinda e a última vez que o esteve foi mesmo à custa do Sporting (o muito estafado 6-3 em Alvalade).

Ainda ssim, para falar nesse longínquo tempo, relembro uma outra noite gloriosa do futebol português, quando o Benfica foi empatar 4-4 a Leverkusen. lembro-me que estava eu no meu primeiro ano de faculdade, em casa, com os meus vários colegas, a ver este jogo. Entre eles estavam benfiquistas e sportinguistas. E estes, que algum tempo mais tarde, aquando do tal 6-3- quase se atiravam aos benfiquistas que lhes relembravam o resultado, foram os primeiros a saltar da cadeira com o golo - o engano? - do Abel Xavier - que fez o 2-1 e abriu caminho para um jogo de doidos - e proclamaram de imediato que "agora é que vais ser, vão ser umas atrás das outras...".

Esse momento - na véspera de uma frequência, nunca me esqueço - foi fantástico, até porque, meia hora mais tarde, foram os próprios sportiniguistas que me foram reclamar aos livros com um definitivo "Hoja já não vais aprender mais nada!" e que me puxaram para beber uns copinhos de bom vinho - Vila Nova de Tazém, garrafão de cinco litros a 750$00, um verdadeiro achado na altura - para celebrar a conquista.

É possível que fosse - tal como agora na situação oposta - uma espécie de adopção do sucesso alheio por parte de quem nada ganhava há bastos anos, mas por outro lado poderia ser apenas a felicidade de bons adeptos de futebol que souberam reconhecer o prazer de um bom jogo.

Publicado por: João André em abril 15, 2005 03:05 PM

Só para que conste, João André, eu também vibrei imenso com esse jogo.
;)

Publicado por: José Mário Silva em abril 15, 2005 04:53 PM

Grande jogo, bom espectáculo, excelente resultado, e belo texto!
Mas, «malhas» no Peseiro… Provavelmente com razão. Não percebo nada de futebol embora goste de ver, às vezes.
Ao ler os teus comentários sobre o treinador, que já constatei serem partilhados por outros, lembrei-me que ele poderá ser vítima de um «mal» que é uma injustiça da natureza: a falta de «carisma», ou da secreta essência que nos faz admirar pessoas pela «forma», muitas vezes em detrimento do «conteúdo».
É verdade… Olhamos de modo diferente para certas pessoas, digam eles o que disserem, façam o que fizerem.
O Peseiro que tem mantido o SCP com bons resultados – e são estes que contam – é, sem dúvida, desajeitado, nervoso, espelha insegurança. Parece aquele «puto» feio que pertencia a uma qualquer turma da nossa adolescência.
Existem outros «feios» famosos: o «pequeno» Marques Mendes (que ainda vai dar muito que falar…), o Príncipe Carlos e respectiva Duquesa da Cornualha, etc. No caso do Carlos é flagrante o raciocínio que expus: se ele e a Camilinha fossem lindos de morrer e a malograda Diana uma grande mastronça, certamente que os veríamos como os seres mais belos do planeta, a vitória intemporal do amor, a redenção da alma romântica. Mas somos assim… Os seres humanos emprenham pelos olhos. Este comentário não visa criticar o teu texto, é apenas uma reflexão interior partilhada com quem por aqui passa.

Publicado por: Rafael em abril 15, 2005 05:13 PM

Ó águia real agoirenta, e se fizesses alguma coisa útil, uma vez que fosse, e comentasses o post de baixo? Disso foges tu como o Diabo da cruz, não é?

Publicado por: Filipe Moura em abril 15, 2005 06:06 PM

Passei por aqui e gostei deste blogue.

Publicado por: fv em abril 15, 2005 06:08 PM

Ah Coimbra, Coimbra, João...
Pelos meus amigos benfiquistas, pelos benfiquistas que conheço que são excelentes pessoas, como tu, e até mesmo pela águia real agoirenta, eu gostaria de ser capaz de apoiar o Benfica. Até hoje, só uma vez o fiz: na meia final contra o Marselha do Tapie (o Vata marcou o golo com a mão). Lembras-te: o Tapie disse que se o Benfica ganhasse poderiam chamar-lhe Bernardette...
Se o Sporting for campeão, pode ser que esteja por vocês na final da Taça, se for contra o Boavista.

Publicado por: Filipe Moura em abril 15, 2005 06:17 PM

Nota que eu disse "apoiar o Benfica", i.e. festejar por o Benfica ganhar.

Publicado por: Filipe Moura em abril 15, 2005 06:20 PM

Filipe, não me lembrava dessa da "Bernardette", mas lembro-me bem dessa mão. Vi o jogo em directo em casa de um tio do meu pai, que tinha satélite e pudemos ver o jogo sem comentários, porque era a emissão que estava a ser transmitida para França, onde os jornalistas em estúdio faziam os comentários. Foi uma noite memorável. Lembro-me ainda que quando o Valdo foi marcar o canto fiquei com a sensação que ia ser golo - uma daquelas sensações que se tem sempre mas que às vezes até acabam por coincidir com a verdade.

E já agora: boa pessoa? Eh pá, eu nunca me chateei com ninguém mesmo a sério pela blogosfera, mas se começares a espalhar boatos aí chateamo-nos mesmo :).

Zé Mário, só alguém que fosse insensível ao futebol poderia ficar indiferente a esse jogo, independentemente de quem ganhasse :)

Publicado por: João André em abril 15, 2005 08:22 PM

Zé Mário esqueceste-te na tua brilhante análise (todavia, eu até simpatizo com o Peseiro... ) do D. Policarpo e do Durão, sportinguistas ferrenhos a mexerem os cordelinhos ao mais alto nível das hierarquias política e religiosa, daí a menção da Madalena ao psd e ao Pope, né? ;-)

Publicado por: Francisco Curate em abril 15, 2005 09:22 PM

Eu, no 4-4, também estava na faculdade (é das tais coisas que nos datam, parece). Fui ver o jogo a um apartamento alugado por colegas de turma, eu e aí metade da turma. A meio do jogo, os vizinhos vieram bater à porta:

- Eh pá! Podemos ver o jogo com vocês? Não conseguimos ficar aqui em casa!

Publicado por: Jorge em abril 16, 2005 08:08 PM