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abril 13, 2005

DOIS CRAQUES LEONINOS

Como o prometido é devido, junto agora, ao texto do Fernando Venâncio, dois poemas de José do Carmo Francisco, o tal «autor dos mais impressionantes poemas desportivos que possuímos». Fui buscá-los ao último livro do autor («Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos», Padrões Culturais), uma obra que, como o título indica, é uma espécie de ode ao sportinguismo, onde cabe tudo: evocações de grandes futebolistas (Peyroteu, Manuel Fernandes, Cherbakov), as noites de glória e os domingos da infância, mas também momentos só ao alcance de um adepto que vai a todas — cf. os poemas «Fábio Paim em Barroca de Alva», «Hugo Viana em Mortágua», «A solidão de Miguel Garcia (24-10-1999)» ou «Equipa de Juniores - 1996/7 (na área de serviços da auto-estrada)». Há também lamentos («Balada do Caso Very Light») e elegias para Carlos Lopes e Joaquim Agostinho, além de uma série de textos dedicados aos "heróis invisíveis": Eugénia Martins (empregada do balcão onde se pagam as quotas do SCP), Lúcia Paula (funcionária da limpeza do museu do Sporting) ou Fátima Costa (responsável pela conservação do relvado, no Estádio de Alvalade).
Enfim, passemos ao retrato poético de dois jogadores do actual plantel, no estilo inconfundível de José do Carmo Francisco:


PEDRO BARBOSA (COM O NÚMERO 8)

Desenhas o teu jogo com um compasso
Com desprezo do esforço e do excesso
Onde não há, tu inventas novo espaço
Levando a bola até onde já não a meço

Tão veloz que não permanece na retina
E apenas surge no golo em conclusão
Afagas a bola numa ternura repentina
Como se de repente o pé tivesse mão

«Feito num oito» fica quem tu enganas
No drible mais inesperado e imprevisto
Em vez de dias tu permaneces semanas
Na memória de quem fez o seu registo

Tu não és o altivo artista mas o artesão
E se jogas sempre de cabeça levantada
É porque a distância da bola ao coração
É tão pequena como um grão de nada


CARLOS MARTINS

Pegas na bola como quem pegasse numa ideia
Desenhada aos poucos na superfície do relvado
Tu sabes: a equipa é como se fosse uma aldeia
E tu podes ajudar a dar vida e ritmo ao povoado

Levas com a bola os teus sonhos em rebanhos
És o pastor que os guarda dos animais ferozes
A tua idade é um campo aberto aos estranhos
E o teu tempo o da grande confusão das vozes

A equipa respira melhor pelos teus pulmões
Quando és livre de fazer truques tão vários
Dentro do campo esperam de ti as soluções
Atravessando todas as linhas dos adversários

Não há palavras para explicar o que procuro
Uma espécie de sinal vermelho para te avisar
Que os perigos nos caminhos do teu futuro
Só tu dentro de ti podes destruir e derrubar

Publicado por José Mário Silva às abril 13, 2005 01:57 PM

Comentários

Melhor que isto só mesmo as críticas do José Mário Silva.

Publicado por: Peyro teu em abril 13, 2005 03:22 PM

parece que vou ter que começar a publicar as odes benfiquistas do saudoso antónio matias.
aqui fica um exemplo:

"por mais que a maioria enraivecida,
desdenhe do BENFICA toda a vida,
a nossa indiferença é permanente;
que fiquem remoendo a sua dor,
porquanto, a nossa glória superior
nos manda caminhar à sua frente.

P'ra além de circunscrito regional,
BENFICA, és um padrão de PORTUGAL,
e estás no coração de toda a gente;
tu és a cor do sangue e da bandeira,
abraço de grandeza pioneira,
no rastro duma glória permanente."

isto sim, é poesia!

Publicado por: móveis correia, aRQUItECtOS em abril 13, 2005 06:22 PM

onde é que se compra este livro magnífico, só comparável à Bíblia Sagrada e à Ilíada?

Publicado por: francisco curate em abril 13, 2005 07:17 PM

onde é que se compra este livro magnífico, só comparável à Bíblia Sagrada e à Ilíada? [e talvez ao Rei Édipo...] ;-)

Publicado por: francisco curate em abril 13, 2005 07:18 PM

O sitio é muito rico e estes poemas mostrados estão com a bola toda. Parabéns.

Publicado por: Leônidas Arruda em abril 18, 2005 10:16 PM