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abril 13, 2005

GOLOS E LENÇÓIS

Aqui vai, puxado para itálico desde o calabouço dos comentários a posts antigos, um texto do Fernando Venâncio sobre futebol, de 1996, incluído no volume de crónicas «Maquinações e Bons Sentimentos» (Campo das Letras):

UM DRIBLE NA CAMA

Guardo da meninice bastantes recordações, algumas boas, mas raramente lhes associo o dia da semana. Grande excepção: o domingo. Seis, sete anos tenho eu, e as manhãs dos domingos são sempre esplendorosas. O sol brilha, há os pachorrentos petroleiros do Tejo, há também ali (nem é preciso sorte) golfinhos aos saltos. E há as mãos do meu pai, que me penteiam com exactidão e demoras. É que vamos sair, ao Estádio Nacional, onde tenho certa uma Canadá Dry. Quando não há jogo (e quase sempre não há jogo), assiste-se aos treinos. Já de tarde, escutam-se os relatos País fora. E é aí que uma frase me vibra ainda, mais incisiva que os raios do sol, esses uma vez ou outra agora inventados. Vem ela na voz, mas não juro, de Artur Agostinho, e diz só isto: «Sai um cruzamento para a grande área.» Ainda hoje não tenho a certeza de a que gestos, ou feitos, a formulação corresponde. Mas ela está-me, para sempre, na tarde dum domingo de infância.
Nunca o futebol me conquistou. Por vezes, tendo-me prometido os «últimos vinte minutos» dum Portugal-Qualquer Coisa, acabo por ver toda a segunda parte, e em dias de doidice vejo tudo. No fim, não há noção de tempo perdido (bastantes vezes foi certo perdê-lo), e fica-me até um nadita de emoção, no que vislumbro aquilo a que chamam os meus semelhantes «a paixão do futebol». Isto traz vantagens de convivência social. Passaram-me os assomos de sobranceria por colegas ou amigos que apareciam, por motivos lá deles, a mudar encontros à quarta à noite. Hoje sei que até um intelectual amante de futebol é digno de consideração. Mesmo que à tangente. Porque é a literatura, não é o futebol, o mais complexo e sublime dos jogos. Repito: «o mais complexo e sublime dos jogos». Faço fé a Américo Guerreiro de Sousa, em recente entrevista ao Suplemento Açoriano de Cultura, no
Correio dos Açores.
Dá gosto saber um romancista com paixões extra-literárias. Américo conheceu várias, desde uma (prestigiante) pelo xadrez a outras (inauditas) pela arquitectura de processadores e pelo código de honra dos duelistas. A paixão do futebol, essa, já não é de ontem, e isso tornou-a suportável: «Fico um pouco triste quando Portugal perde, mas isso passa logo com a leitura de um bom poema.» A modalidade é-lhe agora objecto de reflexões, preocupando-o o destino dos «craques» desempregados. «Não serão os jogadores», pergunta, «escravos de uma prática muito curta e aleatória que nada mais lhes dá senão algum dinheiro (em casos raros, muito dinheiro mesmo, mas o dinheiro gasta-se depressa), homens que dedicam a sua juventude ao gáudio passageiro da sociedade, sem retribuição duradoira e digna?» Um dia, e mais cedo do que todos sonham, hão-de achar-se entregues a si mesmos, e custa a crer que isso os apanhe preparados, e com alguma «formação cultural». Mas as preocupações de Guerreiro de Sousa deitam mais longe. O futebol é actualmente «o único escape para as frustrações de uma sociedade estupidamente competitiva, onde os homens, à falta de melhor, procuram num simples desafio aquilo que não encontram no emprego, na família e na sua cabeça vazia.» Os homens? Exacto, eles. Porque do vazio feminino outra coisa se encarrega. Em termos simples: «O futebol para os homens, as telenovelas para as mulheres.»
Que as mulheres dispensam a bola, sabemo-lo de ciência certa desde uma crónica da portuguesíssima Isabel Stilwell, num
Diário de Notícias de Junho último, estava o Europeu no auge. Dispensam a bola, e não menos os futebolistas. Explica Isabel: «Aquilo que o sexo feminino gosta neles» não é exactamente o que eles «ouviram dizer a outros homens no balneário». A um físico encharcado em suor, a um cabelo desalinhado, a uns pêlos no peito, tudo isso que os homens calculavam «sexy», preferem elas a face escanhoada, o fato e gravata à James Bond. Só por momentos, e momentos de paixão pelo maluquinho, elas se disporiam a seguir um jogo, e isso através das «expressões» que vai dando na cara dele. Não, parvas não são, e a coisa mete até lados imprevistos, com a jornalista, «sem querer levantar falsos testemunhos», a interrogar: «Acham sinceramente que mesmo as mais ingénuas não desconfiam de sujeitos que se abraçam tão efusivamente e não perdem uma oportunidade de tropeçar uns nos outros?»

Um dia, até o ponderado JL dedicou um dossier ao Futebol. Foi isso há dez anos, ia-se jogar ao México. José Cardoso Pires chamava, aí, à Bola «um dos raros jornais de qualidade». Mário Zambujal descobria valores culturais na actividade («E a medicina? Alguém falava em menisco se não fosse o futebol?»). Augusto Abelaira inventaria o jogo se não existisse, mais a televisão para segui-lo em casa. Para Clara Pinto Correia há nos estádios «muitos irmãos, muitos inimigos, muito calor». Mas logo vem o lado sombrio: «Quando o Benfica perde, saímos no meio da multidão a pensar que agora estes vão todos para casa bater nas mulheres e nos filhos.» Preocupações que não ocorrem a Mário de Carvalho. Que logo nos sossega: não será de um «indiferente pela bola», como ele, que hão-de vir desdenhos e agressões. «Conformo-me. O pagode gosta de bola, quer bola? Pois dêem-lhe bola!»
Já muitos anos antes, e numa revista mais circunspecta ainda, um poeta dedicava à modalidade um longo ensaio. Era «A Magia do Futebol», era António Osório, era a
Seara Nova de Outubro de 1964. O texto ainda hoje tem validade, se procedermos à actualização dos proventos (Coluna ganhava 16.500$00 por mês, Eusébio 15.805$60, admire-se este rigor na informação). Quanto ao resto, a «bisbilhotice pacóvia» sobre a intimidade das vedetas mantém-se, com igual tratamento discreto, que «não vai com o escandaloso». Exacto, «os Ases não têm vícios menores: não fumam, não bebem. A própria vida sexual, é sabido, está-lhes bastante coarctada». Na prática, «o lar dos jogadores representa uma forma de vida conventual, onde as vocações se refinam e preservam». Depois, a «parte coral» dos encontros (Baptista-Bastos há-de, noutro JL, chamar ao futebol «uma arte sónica») prova, também ela, actualidade. António Osório fala dos sons do estádio, repleto «do uivo multitudinário pelo golo, dos assobios e aplausos febris, das toadas incitantes das claques, todo um libertar de pulsões desenfreadas, um ódio absurdo ao que não é da mesma pinta». E surge, eterna, a síndroma da manhã seguinte: «Dentro dos eléctricos, dos autocarros, pelas ruas, por toda a parte se ingere a pílula dos jornais desportivos, que surgem diariamente para manter o fogo sagrado, curtidos com as notícias cintilantes da bola, onde tudo é grandioso, excitante, pleno de acção.»
Um poeta a libertar-se de um tema? Um outro haverá de insistir nele. José do Carmo Francisco é autor dos mais impressionantes poemas desportivos que possuímos (não há muitos mais, mas não é culpa dele). Em
Universário (Moraes, 1983), damos com as senhoras «à volta do estádio», atidas «a fazer tricot mas contrariadas», enquanto, lá dentro, «mesmo quando chove aqui nunca chove / é só na relva que a chuva cai». Terminada a partida, não é ainda o fim. Porque «há um drible que nunca esquecemos / e sonhamos tudo às voltas na cama». Um drible às voltas na cama? António Mega Ferreira escreveu uma vez, no Expresso: «Qualquer mulher sensível pressente que um homem que gosta de futebol é um amante incerto.» Nisso estamos, agora, todos de acordo.

Publicado por José Mário Silva às abril 13, 2005 01:29 PM

Comentários

Poema (Série Von Verbatim)


Ó Fernando,

Há poesia no teu ensinar
A mim e ao resto dos manos
Porque é que o Salazar
Durou tantos anos.


Sei.
Era a história do ome,
Que andava com fome,
Mas gostava da bola
Da gente rica do Benfica.
E era também a distracção
Da puta de letras
Que fazia punhetas
Na Oposição.


Não faz mal:
Em Portugal
Ainda é tudo
Exactamente igual.
E não fiques à espera
Que te rogue
Para me embalares
Doucement
Envolto na lã
Deste blogue.
Trás a tua harpa
A tua espiga,
O teu ai, ai
De Cristo de centeio,
Um pentezinho
De pai,
E faz-me
O risco ao meio


Publicado por: Madalena em abril 14, 2005 09:06 AM

OK, "traz". Anything else?

Publicado por: Madalena em abril 14, 2005 01:21 PM

Ó Madalena. Mas eu provoquei poesia? Sinto-me nas nuvens.

Publicado por: fernando venâncio em abril 14, 2005 05:25 PM