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abril 09, 2005

FAÇAM O CULTO DA PERSONALIDADE A VER SE EU ME RALO

Conforme já aqui contei, presenciei cenas de verdadeiro culto aos U2 quando em 2001 me preparava para comprar bilhetes para o concerto. Em Portugal viveu-se algo semelhante recentemente: pessoas a pernoitarem ao relento para comprarem um bilhete. Conseguiram-no. Foram felizes. Não tenham pena delas, que não é isso que elas pedem. Será isto um culto da personalidade aos U2, bem como a muitas estrelas rock? É possível que sim. Será que eu participei no culto da personalidade aos U2? Aceito que me digam que sim. E nem queiram saber do que eu seria capaz pelo Caetano ou pelo Chico. Ou, na literatura, por um autógrafo do Rubem Fonseca ou do Vargas Llosa.
Não estou em Roma e nem tenho visto televisão (nestes últimos dias tem sido sempre o mesmo tema). O maior fenómeno de massas que eu vi de perto associado a um funeral foi o da cantora e dissidente cubana Célia Cruz, ainda eu estava nos EUA. Célia fora proibida por Castro de entrar em Cuba, e desafiou-o regressando à ilha (não ao país) para um concerto na Base de Guantanamo, perto dos muros que marcavam a fronteira, e que causou uma concentração maciça de cubanos do outro lado do muro só para a ouvirem. Estariam estes cubanos a fazer o "culto da personalidade" para ver Célia?
Aquando da sua morte, durante uma semana, todo o dia, os canais de televisão hispânicos praticamente não falavam de outra coisa. Célia teve direito não a um, mas a dois funerais: um em Miami, outro em Nova Iorque, na Catedral de St. Patrick. O seu corpo repousava numa agência funerária, e havia filas de quilómetros (não exagero) de fãs que se queriam despedir dela uma última vez. Será isto um culto de personalidade a Célia Cruz? É provável que sim. Mas agora não se pode ter carisma?
Finalmente, este gajo não consegue compreender os milhões de pessoas que vão a Roma ver o Papa. Acha que ficariam melhor em casa. Será que ele não sabe o que é uma manifestação colectiva? Pelos vistos ele não se lembra de uma conferência internacional em que participámos, durante o Euro 2004, e em que ele durante todo o tempo andou orgulhosamente com um cachecol de Portugal. Não se deve lembrar de como queria sempre ir ver os jogos para a rua, em ecrã gigante, para o meio do povo. Nem se deve lembrar de como festejava a seguir a cada vitória de Portugal. Se o Benfica por acaso vier a ser campeão, então é que ninguém o cala.
Neste caso não me parece apropriado falar-se de um "culto da personalidade".
Mas a pergunta fica no ar, para o Zé Mário, o Nelson e quem a quiser responder: desde que os participantes o sejam de livre vontade, o que há de errado com um culto da personalidade? Acima de tudo, terá sempre de haver uma explicação para um comportamento humano? Eu julgo que não.

Publicado por Filipe Moura às abril 9, 2005 06:29 PM

Comentários

Gosto deste pluralismo no BdE.

Publicado por: Valupi em abril 9, 2005 08:51 PM

Excelente, Filipe! Faltava um post destes.

Publicado por: Nuno Morais em abril 10, 2005 12:26 AM

Completamente de acordo.

Ainda me lembro dos U2 pré-culto,passeando em Vilar de Mouros pelo meio dos jovens como eu que se banhavam no Coura.Foi em 82.

Publicado por: fvaz em abril 10, 2005 12:34 AM

Bom ponto de reflexão!
Associar directamente grandes concentrações de pessoas com «culto de personalidade» é muito redutor. Não faz sentido, obviamente!
Acontece porém, como acabas por salientar na referência ao «Euro2004» que muitos dos que apontam o dedo ao «caso papal», fazem-no numa visão simplista, diria mesmo, objectivamente facciosa.
Alguns criticam as motivações dos outros, denegrindo-as, ou salientando-lhes causas moralmente negativas, mas adoptam atitude contrária nos «seus» casos. É perigoso. Faz-me lembrar multidões alinhadas desfilando com bandeiras coloridas em Berlim ou Moscovo quando nas ruelas estreitas da vida os ajuntamentos são proibidos.
Liberdade implica aceitar que os outros se mostrem. Tem esse direito. Nós também.
Por outro lado é importante distinguir «culto da personalidade» quando veiculado artificialmente (através dos mecanismos da propaganda e do «perigoso» marketing politico dos nossos tempos) com manifestações de carinho, reconhecimento e dedicação. Há humanos tão «bons» que o merecem. Ou não?

Publicado por: Rafael em abril 10, 2005 02:09 AM

F.M.


Já deves ter começado a ficar triste com um “turnout” tão fraco. E já vais por ai abaixo em direcção à obscuridade morcegal. Mas ainda é cedo para lágrimas. Daqui a pouco começam a chegar mais genovevas tardias com os habituais “concordo, no entanto...” e depois é um ver-se-te-avias de entusiasmo que só acaba no Samouco, envolvendo o padre andré e o rabino amilcar que andam a fingir que não se amam com a ajuda dos embaixadores extraordinários do cyberdúvidas sempre atentos aos interesses do Vaz de Camões nestas conversas.. Mas, irmão, o que é que te levou a ultrapassar a barreira de som da decência política em vigor e na moda e largares uma bojarda destas: “O que há de errado com um culto da personalidade?”. Por amor do Papa, Filipe! Será isto vontade de te matares, ou parte de plano bem arquitectado? Uma opinião: o culto do futebol não tem nada a ver com o culto da personalidade.Ou será que pretendes justificar o teu amor pela bola? Tens a certeza que não farias melhor dedicares-te a artes diferentes - homeopatia , por exemplo, que é uma coisa que me fascina apesar de ter sido tornada famosa por um homem da maçonaria? Também reparo que as tuas reminiscências da vida atribulada que levaste nos USA não param de vir à baila a propósito de tudo e de nada. Mas nem tu nem ninguém deste blog teve a coragem tomateira, ou amor à actualidade, para falar da matança duma mulher por decreto nesse país há uns dias. Priorities, not ignorance, I guess.

Publicado por: Madalena em abril 10, 2005 09:19 AM

Penso que 200 mil pessoas num concerto ou 5 mil a ver um jogo do Euro, mesmo 20 mil no Marquês se o Benfica for campeão não se podem comparar com 4 milhões de peregrinos em Roma para o funeral do Papa. Roma passou muito além da capacidade de acolhimento de que dispunha e a situação poderia ser grave se alguma coisa corresse mal. Como geralmente ocorre em Meca (e muita gente comenta a enormidade do culto de Meca sempre que por um caso de pânico generalizado morrem dezenas ou centenas de pessoas). 4 mil pessoas a ver o Portugal-Inglaterra ao pé dos Clérigos, entre os quais eu e o Filipe, dificilmente colocam a sua integridade física em risco. Mas 2 noites antes, no S. João, quando cheguei à Ribeira a multidão era tal que a primeria coisa que me passou pela cabeça foi sair de lá para fora. Há limites para o desconforto a que me sujeito por causa de multidões.

E se estivessem 35 graus em Roma e começassem a desmaiar peregrinos por falta de água, por falta de espaço, por falta de um sítio para descansar? O funeral do Papa apanhou-me a fazer as malas para voltar para Lisboa, por isso não sei se correu bem ou mal, do ponto de vista de controlo de multidões. O que eu não compreendo não é o culto da personalidade de João Paulo II. É o facto de tantos milhões de pessoas sentirem a necessidade de IR LÁ. Se o Benfica for campeão, devo ir para a rua comemorar. Mas se houver demasiada gente na rua, rapidamente volto para casa. E não faria sequer 50 km para ir a Lisboa comemorar o título do Benfica. Tal como não faria 3 mil para ir a um funeral de uma personalidade pública que eu nem sequer conheço pessoalmente. Mas isso sou eu.

Publicado por: Nelson em abril 10, 2005 08:58 PM

Que confusão deplorável. Misturas vontade de ver um grupo a tocar com alegrias clubísticas, com "culto da personalidade" e com... o Papa?
Nesta redacção juvenil, revelas a tua incultura, a tua deprimente falta de informação sobre tudo e mais alguma coisa e ainda uma falta de tino absoluta.
E diz-nos lá: como é que viste "de perto" algo que ocorreu em Guantánamo?

Publicado por: Pensativo em abril 11, 2005 11:01 AM