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abril 08, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Depois de antologias sobre girassóis ou sobre o amor, o poeta Jorge Sousa Braga resolveu oferecer-nos um bestiário bestial (bestial, entenda-se, no sentido de muito bom, impecável, do caraças). A edição é da Assírio & Alvim. O título é apropriadamente pleonástico: «Animal Animal».
Deixo-vos dois exemplos.


A GAZELA

Que encanto! Como podem duas palavras
atingir a harmonia da rima,
que pulsa em ti a cada movimento.
Folhas e lira crescem por cima

de ti, pura metáfora em canções
de amor, cujas palavras leves como
pétalas de rosa, repousam sobre o rosto
de alguém que cerra os olhos, para assim

te poder ver. Como se cada perna fosse
uma arma carregada de saltos, pronta
a disparar, esticas o pescoço, os olhos vigilantes,
como uma rapariga que ao tomar banho
no bosque, ao ser interrompida, de súbito
voltasse a cabeça, na lagoa reflectida.

Rainer Maria Rilke (trad. de Jorge Sousa Braga)


MEDUSAS

Como vós oh infelizes cabeças
de roxas cabeleiras
não há coisa que mais me agrade
do que dançar no meio da tempestade

Guillaume Apollinaire (trad. de Jorge Sousa Braga)

Publicado por José Mário Silva às abril 8, 2005 01:37 PM

Comentários

Méduses, malheureuses têtes
Aux chevelures violettes
Vous vous plaisez dans les tempêtes,
Et je m'y plais comme vous faites.

Prefiro, ainda assim, o Jorge Sousa Braga. Há casos assim. Também poemas de Pessoa em neerlandês soam ainda melhor. Aí está uma coisa que podia ser estudada.

Publicado por: fernando venâncio em abril 8, 2005 05:38 PM

Explica lá essa do neerlandês, Fernando.

Publicado por: Valupi em abril 8, 2005 06:30 PM

Valupi,

Antes que se me entenda mal. Eu NÃO escrevi: «Os poemas de Pessoa soam melhor em neerlandês». Isso é que seria pelo menos muito misterioso... Afirmei outra coisa. Que há poemas de Pessoa que, em neerlandês, soam ainda melhor. Repare-se no «ainda».

É necessário começar por dizer que o principal tradutor da poesia de Pessoa em neerlandês, August Willemsen, é uma fenomenal estilista. O que ele faz é, sempre profundamente fiel ao original, recriar o poema - como se o intensíssimo original fosse aquele.

(Diga-se, ainda, que a - para poesia - caríssima publicação, uns 35€, teve já, desde 1978, doze edições. E influenciou alguma importante poesia local).

Essa tradução feita por um grande artista no seu idioma (aqui entro no especulativo) permite aqui e ali escolhas - de sonoridades, de sugestões conceptuais - que Pessoa muito provavelmente não teria desprezado.

Pude ver, por várias vezes, e em diferentes encenações, a «Ode Marítima» em palcos holandeses. Não posso comparar com uma 'encenação' portuguesa, que ignoro se houve. Sei vagamente de uma 'récita', que (ajuda-me, Valupi) suponho datar já de Manuela Porto, se não estou confundindo. O nosso amigo Google fala-me em certa Germana Tânger. Posso sim, confessar, que as encenações em neerlandês foram, todas, de causar calafrios.

Mas o que tenho em mente é, muito em particular, o Álvaro de Campos de outros poemas, e o já muito despojado, e portanto re-vestível, Alberto Caeiro.

Não sei se respondi ao que quer que seja.

Publicado por: fernando venâncio em abril 8, 2005 09:30 PM

Corrijo: UM fenomenal estilista

Publicado por: fv em abril 8, 2005 09:33 PM

Fernando,
Houve uma encenação da «Ode Marítima» (muito boa, intensa, aqui e ali arrepiante) feita pelo actor João Grosso, para aí há uma década, mais coisa menos coisa.

Publicado por: José Mário Silva em abril 9, 2005 06:10 PM

Pois houve, em 1988 (o tempo passa, impõe-se o chavão, Zé). Foi histórica.

Tudo bem respondido, Fernando, como sempre. Muito obrigado.

Publicado por: Valupi em abril 9, 2005 08:35 PM