« NEWCASTLE - 1; SPORTING - 0 | Entrada | VERSOS QUE NOS SALVAM »

abril 08, 2005

TV RENASCENÇA

Eu já nem falo das horas e horas de emissão a partir de Roma, dos serviços informativos que já devem ter levado à saturação Papal o mais empedernido dos católicos, do entusiasmo febril com que se contabilizam os fiéis espalhados pelas praças do Vaticano, dos exageros de linguagem levados ao paroxismo («o Mundo chora por João Paulo II», etc), das biografias acríticas que nos são servidas non-stop em todos os canais televisivos. Não é isso que me choca. As estações privadas podem fazer o que quiserem em busca de audiências. É lá com elas. Eu tenho a liberdade de não ver (e não vejo). Agora a televisão pública devia agir de outra maneira. A RTP é a televisão «de todos os portugueses», é a televisão do Estado português. E que eu saiba o Estado português é laico.
Assim sendo, como justificar a verdadeira "lavagem ao cérebro" que tem sido esta semana de programação da RTP? Desde a morte do Papa que se sucedem os programas apologéticos sobre a figura de Karol Wojtyla: documentários, filmes, séries, debates, entrevistas com padres (para não falar da repescagem, em horas mortas, de películas bíblicas tipo «Arca de Noé»). De um momento para o outro, a RTP transformou-se no sucedâneo visual da Rádio Renascença. Ainda ontem, por exemplo, vi o Nuno Santos a moderar um debate com jovens, sobre o Papa e o seu legado, intitulado «Totus tuus» (a divisa de João Paulo II, que significa «Todo Teu [de Maria]», mas que pode ser entendido, neste caso, como «Todos Teus»). No chão do estúdio, dentro de uma elipse de dimensões consideráveis, estava desenhada a bandeira do Vaticano.
Relembro que a RTP é paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, cidadãos de um país laico que às vezes se esquece da sua laicidade.
Serei só eu a ficar chocado com tudo isto?

Publicado por José Mário Silva às abril 8, 2005 09:11 AM

Comentários

Não és. Mas, quando se faz alguma critica, é-se logo apelidado de esquerdista. Por mim, tudo bem. Eu compreendo que se faça a cobertura jornalística, mas isto já não são reportagens, isto está a ser verdadeiramente, o ópio do povo.

Publicado por: vanessa a. em abril 8, 2005 09:50 AM

Não.

Publicado por: Zangalamanga em abril 8, 2005 10:03 AM

RTP nestes tempos quer dizer Rádio e Televisão Papal, não é?

Publicado por: Santa Cita em abril 8, 2005 10:23 AM

seguramente que não Zé Mário mas o politicamente correcto prevalece, à sombra da comoção geral e das multidões que compram medalhinhas, postais e livros, empurrado pela dita "relação especial" do papa com Portugal, muitos laços de fé com a prisioeira Lúcia, jornalistas da RTP que dizem nas peças "nós católicos ficamos chocados", por aí fora. Tudo isto me faz pensar no pesadelo, misto de euforia euro 2004 com verdade absoluta cristã, que se materializaria no caso de se vir a escolher o Policarpo para o trono. Aí sim é caso para dizer, Deus nos livre.

Publicado por: Pedro Vieira em abril 8, 2005 10:25 AM

Não, não é. E tem razão no que se refere aos exageros na cobertura e na linguagem que acompanha estas emissões, bem como nas "boleia de audiências" que este canal está a apanhar da morte do papa e da dor dos católicos.
Apenas não lhe dou razão na última afirmação. Sendo evidente e desejável que Portugal é um estado laico, não é menos evidente que os portugueses não o são e um canal público de televisão não pode esquecer a sua não laicidade.
Portugal também não é um estádio de futebol e a RTP transmitiu o desinteressante jogo Newcastle-Sporting em horário nobre.

Publicado por: Miguel Nascimento em abril 8, 2005 10:27 AM

José Mário,

modera essa costela anti-clerical que te dá para fazeres comparações absurdas que, a posteriori, apodas de provocações. É claro que tudo isto é demais. Horas sem fim de programação beata dá cabo da paciência do mais santo. A questão neste caso, ao contrário do que tu sublinhas, não é a natureza laica do estado e, consequentemente, da televisão estatal mas a pobreza das opções editoriais das nossas televisões, em particular da televisão pública. Já te esqueceste do massacre televisivo que se seguiu à morte de Diana de Gales? O que é que dizias nessa altura: "uma república não pode dar tanto tempo de antena à monarquia"? A morte de Féher é outro dos exemplos. O Madaíl a falar meia hora na abertura dos telejornais. Sabes muito bem que não se trata de uma questão religiosa e que a laicidade do Estado é o que conta menos. Basta leres algumas coisas de Ignacio Ramonet sobre o tratamento mediático destes não acontecimentos para perceberes o que está em causa. Eu até penso que tu percebes, só que agora não te dá jeito.

Grande Abraço.

Publicado por: Bruno Vieira em abril 8, 2005 10:39 AM

Do circo montado em Roma pela RTP deduzo que o canal tuga deve ter mais funcionário em Roma do que qualquer canal global. Eu já vi pelo menos umas sete/oito caras diferentes a fazer directos e existem ainda os que estão por detrás da câmara. Posso estar engando mas decerteza que a CNN despacha aquilo com duas ou três pessoas... mas posso estar enganado.

Publicado por: Bruno em abril 8, 2005 10:39 AM

Vamos estar um ano a ouvir coisas sobre o papa!!!

www.panteraforum.web.pt

Publicado por: Pantera em abril 8, 2005 10:47 AM

Caro Bruno,

Eu também achei exageradas as reacções dos media nos casos que apontas (Diana, Féher), mas parece-me que o "excesso mediático" tem neste caso outro tipo de implicações. A dramatização emocional das mortes referidas (uma princesa e um jogador de futebol) foi, apesar de tudo, neutra. O mesmo não podemos dizer do que se tem passado nestes sufocantes dias de evangelização forçada.

Publicado por: José Mário Silva em abril 8, 2005 11:42 AM

O que se está a passar é efectivamente uma vergonha. É proselitismo com dinheiros públicos.

Publicado por: Ricardo Alves em abril 8, 2005 12:12 PM

Por alguma razão o director de informação da RTP (e da RDP...) é um tipo enleado com a Igreja Católica. Aliás, as recentes nomeações efectuadas no "grupo" indiciam o reforço desse bando de lealdades divididas...

Publicado por: marujo em abril 8, 2005 12:14 PM

Concordo com o Bruno Vieira. E a RTP está a ter um comportamento igual à da maioria das estações estatais de todo o mundo. A mim choca-me mais os disparates que se dizem, na ânsia de comunicar a toda a hora. De resto, que mal faz? Estás chateado por não dar a Praça da Alegria?

Publicado por: p em abril 8, 2005 12:16 PM

Portugal país católico?!

Eu vivo na «católica» Braga, «A Roma portuguesa», e para que vossas excelencias saibam, está-se tudo a marimbar para o Papa e furioso pelas intermináveis transmissões da exéquias do dito cujo.

O mito do Portugal católico assemelha-se ao dos 9 milhões de benfiquistas, só não vê quem não quer ver.

D Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz de Braga, pessoa de mente desempoeirada é o primeiro a constactar que existe (Graças a Deus) uma laicização real na sociedade portuguesa.

Saúde

Publicado por: ARDENTÍA em abril 8, 2005 12:36 PM

Eu também me sinto chocado. O melhor é nem ligar a TV.

Publicado por: alexandre andrade em abril 8, 2005 12:40 PM

Mito? Um bracarense que não é benfiquista não tem autoridade para falar sobre a sua terra!

Publicado por: Miguel Nascimento em abril 8, 2005 12:42 PM

Penso que o post e muitos dos comentários são um pouco levianos. Sou ateu de gema mas acho que quem critica as horas perdidas da TV poderia aproveitá-las para ler um pouco acerca da importância da Igreja na nossa civilização. As pessoas de esquerda aproveitem para se debruçar sobre toda a vasta obra de serviço social. Os outros vasculhem um pouco para além do sentimento anti-inquisição primário.

Publicado por: João Nazaré em abril 8, 2005 01:09 PM

Proponho que no rescaldo desta inenarrável (porque indescritível)"programação",passe a ser obrigatória a despedida de qualquer apresentador/jornalista com o tradicional"até amanhã,se Deus quiser".Outra hipótese mais pluralista pode ser:"...se o seu deus quiser".

Publicado por: Teresa B. em abril 8, 2005 01:22 PM

Zé Mário desculpa lá mas desta vez está completamente fora de razão... A RTP é a televisão de todos os portugueses, assim como José Socrates é o 1º Ministro de todos os portugueses e Jorge Sampaio o Presidente da Republica de todos os portugueses... Assim como Durão Barroso foi o 1º Ministro de todos os portugueses... Quando assim foi tu eras de direita? Durão Barroso esteve lá porque a maior parte dos portugueses queria que ele lá estivesse, no entanto eu não... Portugal quer se queira quer não é um país na sua "maioria" católico, e a RTP como serviço público está a levar até às pessoas algo que se calhar lhes toca...

Olha faz como eu ouve um cd, vê um DVD... simplesmente desliga a TV... queres que eu inumere aqui a quantidade de programas que eu acho que a RTP n devia transmitir?

Um Abraço

Farpas --> http://www.ai-o-camandro.blogspot.com/

Publicado por: Farpas em abril 8, 2005 01:37 PM

Em relacao ao comentario do Joao Nazare, proponho as pessoas que leiam sobretudo sobre o Concilio de Trento: filosofos queimados na praca publica, intelectuais e mercadores perseguidos, a cadeira de matematica extinta em Coimbra, etc. As perseguicoes comecaram em 1550 e em 1580 ja nao havia nem Portugal...

Publicado por: Filipe Castro em abril 8, 2005 01:38 PM

este debate encerra outro: o dos critérios editoriais do "serviço público".
não esquecer também o inferno que foi o euro2004, a "joana desaparecida", etc, ect. isto só tem que ver com o "abutrismo" mediático. mais nada.
sou católico, não sou cego, e se este "beatismo" é suposto envangelizar... pobre da palavra de cristo.
não vamos aqui confundir a história (da igreja, de um homem que foi papa), com o absurdo em que vive a comunicação social.

Publicado por: móveis correia, aRQUItECtOS em abril 8, 2005 01:55 PM

Hoje o Papa vai a enterrar. Mas não se pense por isso que poderemos finalmente descansar da "telemediaevangelização" dos últimos dias. As semanas que faltam até que os "ilustres" cardeais escolham o novo “superstar” católico servirão de pretexto para que a a “missa” continue. Haja paciência.

Pelos menos agora, enebriados que estão, esqueceram-se de disfarçar neutralidade. Muita coisa fica mais clara.

Publicado por: Sacha em abril 8, 2005 02:33 PM

Pelo menos parece que nos proximos dias os cardeais vao estar a pao e agua (embora me pareca que os paes vem duma padaria especial: chausson aux pommes, pain au chocolat, etc.). De qualquer forma era optimo se eles pensassem, so por uma vez, nos pobres da America do Sul, que nao tem nem pao nem agua, e cuja voz eles silenciaram com tanta energia e fervor.

Publicado por: Filipe Castro em abril 8, 2005 03:28 PM

Eh!Eh! Eu gostei daquela do jogo Newcastle-sporting! Realmente... Onde é que isto irá chegar?! Vamos todos para a rua protestar e deitar fogo a umas montras e uns caixotes do lixo! E imitando a criatividade dos sindicatos, gritar as seguintes palavras de ordem: "RTP sim! Papa não!" Ou então: "Estado sim! Igreja não!"

Publicado por: Zangalamaga em abril 8, 2005 03:37 PM

Não, não estás só.
E quando penso no que aí vem de Conclave.
As fitas que vamos ter que aturar, de informação milimetraicamente vertida, a fazer de conta uma escolha dificil...
Com a nossa RTP á frente, e os seus 37 repórteres a chafurdarem informação que não existe
Vamos todos ficar mais cheios... ne nada

Publicado por: Nuno em abril 8, 2005 03:50 PM

Já agora
http://criticocritico.blogspot.com/

Publicado por: Nuno em abril 8, 2005 03:51 PM

É verdade, o Estado é laico, mas a maioria do público não é. Por isso cumpre serviço público mostrando uma informação que interessa à maioria da população. Os outros têm a Sport TV, os Lusomundo ou mesmo o botão off da televisão. Quanto ao ópio do povo, cada um toma o que quer. >>> http://claramente.blogs.sapo.pt

Publicado por: Gabriel Canhoto em abril 8, 2005 06:03 PM

Concordo muito com o Bruno Vieira. E dou mais um passo. O tratamento da morte e do funeral do Papa obedece a uma lógica exclusivamente mediática, seguindo um modelo que se aplica seja lá qual for o acontecimento de interesse público. Podemos questionar os critérios do que seja o "interesse público", mas para uma situação que reúne 150 chefes de Estado e que tem um fortíssimo capital melodramático para todos os segmentos da audiência (porque uns querem ver, outros não se importam de ver e os restantes gostam de não gostar do que estão a ver), nem há discussão possível. Ficar chocado com a situação apenas revela desconforto pelo tema, não pela gestão do tempo de emissão; como já aqui foi dito, e bem.

É também relevante constatar que o meio continua a ser a mensagem, e que a Igreja não é bem tratada na televisão. A linguagem televisiva uniformiza os conteúdos, reduz a realidade a uma superfície paralisada, separada e anestesiante. O oposto de evangelização.


Publicado por: Valupi em abril 8, 2005 07:05 PM

dou razão ao Zé Mário e ao Bruno ao mesmo tempo. Não é serviço público a cobertura da morte do papa (e nesse caso o comprtamento da RTP está claramente errado)como não o eram as da morte de Diana, Feher, irmã lucia, and so on (e o comportamento foi o mesmo, errado). Critérios como "é disto que o meu povo gosta" não deviam ser válidos, mas são, e neste ponto o Zé Ma´rio perde a razão, ao fazer-se de novas com o que agora acontece.

O que me choca neste caso, como já foi no caso da irmã lucia, é a assumpção de que "isto é mesmo importante porque em Portugal somos todos católicos". Vejam-se as discussões (cheias de saúde) que este tema tem gerado no barnabé, a propósito das cruzes nas ecolas.

Parece ser este um país de 9 ou 10 milhões de católicos, mais uns porcentos de minorias. Desta maioria muitos consideram-se não praticantes(whatever it means), ou ajuntam a ressalva de que "nem concordo com tudo o que a Igreja diz mas respeito" e quase todos afirmam ser tementes a Deus....é o país do respeitinho é muito bonito (faz-me lembrar o melhor cartoon do N. Markl, no IP, sobre a morte :)

Publicado por: joanaes em abril 8, 2005 07:16 PM