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abril 07, 2005

NEWCASTLE - 1; SPORTING - 0

Contra uma equipa compacta, pressionante e muito brutinha, o Sporting não conseguiu jogar ao seu nível. Manteve quase sempre o controlo do jogo mas a circulação de bola, segredo do excelente futebol da era Peseiro, desta vez não resultou. Houve demasiados passes falhados, demasiada precipitação, pouca lucidez na hora de atacar. Rochembach esteve muito previsível (além de lento), Liedson provocou um amarelo desnecessário (que o impedirá de jogar na segunda mão) e o resto da equipa foi intermitente, alternando grandes jogadas com períodos de pontapé para a frente. Salvou-se Polga, com uma exibição simplesmente irrepreensível.
O resultado, não sendo mau, é muitíssimo traiçoeiro. Dentro de uma semana, em Alvalade, terá que subir ao campo o melhor Sporting desta época (o que jogou no Bessa), caso contrário ficaremos a ver a final da Taça UEFA por um canudo.

Publicado por José Mário Silva às abril 7, 2005 11:50 PM

Comentários

O Rogério também esteve bem.

Publicado por: Marco Oliveira em abril 8, 2005 09:15 AM

É verdade, sim senhor.

Publicado por: José Mário Silva em abril 8, 2005 09:44 AM

acho indecente que tenhas deixado de falar de Sua Santidade para vires agora para aqui desviar as atenções para o futebol! Shame on you :)

Publicado por: gibel em abril 8, 2005 10:01 AM

Caramba, aos dois referidos juntem o João Moutinho, por favor!

Aquela de tirar o Carlos Martins num jogo onde esteve uns furos acima do Rochemback, fazendo boa dupla com o Rogério, para pôr o Mota também não percebi. Ou melhor, tal como Souness, Peseiro tem fé no jogo em Alvalade.

Publicado por: Rui MCB em abril 8, 2005 10:37 AM

deve ser tudo uma questão de fé!
essa de toda a gente estar à espera que a lagartagem ganhe a uefa é a jóia da coroa do disparate futeboleiro!

Publicado por: móveis correia, aRQUItECtOS em abril 8, 2005 01:57 PM

João Moutinho, claro...

Publicado por: Tulius Detritus em abril 8, 2005 02:18 PM

O João Moutinho também esteve muito bem, é certo, como quase sempre.

Publicado por: José Mário Silva em abril 8, 2005 02:40 PM

Perder por 1-0 e não ter o Liedson para a 2ª mão é estranhamente animador. Embora a capacidade do Newcastle para marcar golos em Alvalade seja maior do que a do Sporting para marcar em Newcastle, é com estas dificuldades que se fazem grandes jogos.

Ao menos isso, que seja um jogo que nos orgulhe. Se fosse eu a mandar no clube, teria sempre como 1º objectivo a vitória moral. O resto, num certo sentido, nem importa.

Publicado por: Valupi em abril 8, 2005 05:28 PM

Se bem entendo, abrem-se épicas páginas da história universal. Não te fantasiava, Valupi, na primeira fila.

Publicado por: fv em abril 9, 2005 11:40 AM

Ah, Fernando, o futebol... A actualização dos genes tribais... A psicologia das massas (sim, o psicodrama das transferências, a terapia dos ordenados, a psicanálise das fugas ao fisco)...

E tu, ligas ou desligas?

Publicado por: Valupi em abril 9, 2005 08:58 PM

Valupi, sobre o futebol escrevi uma vez uma coisita distanciada. Chamava-se «Um drible na cama». Como já só estamos aqui os dois, e há precedentes de abusos talvez piores, facilito-te os textozinho, de 1996. Diverte-te.

UM DRIBLE NA CAMA

Guardo da meninice bastantes recordações, algumas boas, mas raramente lhes associo o dia da semana. Grande excepção: o domingo. Seis, sete anos tenho eu, e as manhãs dos domingos são sempre esplendorosas. O sol brilha, há os pachorrentos petroleiros do Tejo, há também ali (nem é preciso sorte) golfinhos aos saltos. E há as mãos do meu pai, que me penteiam com exactidão e demoras. É que vamos sair, ao Estádio Nacional, onde tenho certa uma Canadá Dry. Quando não há jogo (e quase sempre não há jogo), assiste-se aos treinos. Já de tarde, escutam-se os relatos País fora. E é aí que uma frase me vibra ainda, mais incisiva que os raios do sol, esses uma vez ou outra agora inventados. Vem ela na voz, mas não juro, de Artur Agostinho, e diz só isto: «Sai um cruzamento para a grande área.» Ainda hoje não tenho a certeza de a que gestos, ou feitos, a formulação corresponde. Mas ela está-me, para sempre, na tarde dum domingo de infância.
Nunca o futebol me conquistou. Por vezes, tendo-me prometido os «últimos vinte minutos» dum Portugal-Qualquer Coisa, acabo por ver toda a segunda parte, e em dias de doidice vejo tudo. No fim, não há noção de tempo perdido (bastantes vezes foi certo perdê-lo), e fica-me até um nadita de emoção, no que vislumbro aquilo a que chamam os meus semelhantes «a paixão do futebol». Isto traz vantagens de convivência social. Passaram-me os assomos de sobranceria por colegas ou amigos que apareciam, por motivos lá deles, a mudar encontros à quarta à noite. Hoje sei que até um intelectual amante de futebol é digno de consideração. Mesmo que à tangente. Porque é a literatura, não é o futebol, o mais complexo e sublime dos jogos. Repito: «o mais complexo e sublime dos jogos». Faço fé a Américo Guerreiro de Sousa, em recente entrevista ao Suplemento Açoriano de Cultura, no Correio dos Açores.

Dá gosto saber um romancista com paixões extra-literárias. Américo conheceu várias, desde uma (prestigiante) pelo xadrez a outras (inauditas) pela arquitectura de processadores e pelo código de honra dos duelistas. A paixão do futebol, essa, já não é de ontem, e isso tornou-a suportável: «Fico um pouco triste quando Portugal perde, mas isso passa logo com a leitura de um bom poema.» A modalidade é-lhe agora objecto de reflexões, preocupando-o o destino dos «craques» desempregados. «Não serão os jogadores», pergunta, «escravos de uma prática muito curta e aleatória que nada mais lhes dá senão algum dinheiro (em casos raros, muito dinheiro mesmo, mas o dinheiro gasta-se depressa), homens que dedicam a sua juventude ao gáudio passageiro da sociedade, sem retribuição duradoira e digna?» Um dia, e mais cedo do que todos sonham, hão-de achar-se entregues a si mesmos, e custa a crer que isso os apanhe preparados, e com alguma «formação cultural». Mas as preocupações de Guerreiro de Sousa deitam mais longe. O futebol é actualmente «o único escape para as frustrações de uma sociedade estupidamente competitiva, onde os homens, à falta de melhor, procuram num simples desafio aquilo que não encontram no emprego, na família e na sua cabeça vazia.» Os homens? Exacto, eles. Porque do vazio feminino outra coisa se encarrega. Em termos simples: «O futebol para os homens, as telenovelas para as mulheres.»
Que as mulheres dispensam a bola, sabemo-lo de ciência certa desde uma crónica da portuguesíssima Isabel Stilwell, num Diário de Notícias de Junho último, estava o Europeu no auge. Dispensam a bola, e não menos os futebolistas. Explica Isabel: «Aquilo que o sexo feminino gosta neles» não é exactamente o que eles «ouviram dizer a outros homens no balneário». A um físico encharcado em suor, a um cabelo desalinhado, a uns pêlos no peito, tudo isso que os homens calculavam «sexy», preferem elas a face escanhoada, o fato e gravata à James Bond. Só por momentos, e momentos de paixão pelo maluquinho, elas se disporiam a seguir um jogo, e isso através das «expressões» que vai dando na cara dele. Não, parvas não são, e a coisa mete até lados imprevistos, com a jornalista, «sem querer levantar falsos testemunhos», a interrogar: «Acham sinceramente que mesmo as mais ingénuas não desconfiam de sujeitos que se abraçam tão efusivamente e não perdem uma oportunidade de tropeçar uns nos outros?»

Um dia, até o ponderado JL dedicou um dossier ao Futebol. Foi isso há dez anos, ia-se jogar ao México. José Cardoso Pires chamava, aí, à Bola «um dos raros jornais de qualidade». Mário Zambujal descobria valores culturais na actividade («E a medicina? Alguém falava em menisco se não fosse o futebol?»). Augusto Abelaira inventaria o jogo se não existisse, mais a televisão para segui-lo em casa. Para Clara Pinto Correia há nos estádios «muitos irmãos, muitos inimigos, muito calor». Mas logo vem o lado sombrio: «Quando o Benfica perde, saímos no meio da multidão a pensar que agora estes vão todos para casa bater nas mulheres e nos filhos.» Preocupações que não ocorrem a Mário de Carvalho. Que logo nos sossega: não será de um «indiferente pela bola», como ele, que hão-de vir desdenhos e agressões. «Conformo-me. O pagode gosta de bola, quer bola? Pois dêem-lhe bola!»
Já muitos anos antes, e numa revista mais circunspecta ainda, um poeta dedicava à modalidade um longo ensaio. Era «A Magia do Futebol», era António Osório, era a Seara Nova de Outubro de 1964. O texto ainda hoje tem validade, se procedermos à actualização dos proventos (Coluna ganhava 16.500$00 por mês, Eusébio 15.805$60, admire-se este rigor na informação). Quanto ao resto, a «bisbilhotice pacóvia» sobre a intimidade das vedetas mantém-se, com igual tratamento discreto, que «não vai com o escandaloso». Exacto, «os Ases não têm vícios menores: não fumam, não bebem. A própria vida sexual, é sabido, está-lhes bastante coarctada». Na prática, «o lar dos jogadores representa uma forma de vida conventual, onde as vocações se refinam e preservam». Depois, a «parte coral» dos encontros (Baptista-Bastos há-de, noutro JL, chamar ao futebol «uma arte sónica») prova, também ela, actualidade. António Osório fala dos sons do estádio, repleto «do uivo multitudinário pelo golo, dos assobios e aplausos febris, das toadas incitantes das claques, todo um libertar de pulsões desenfreadas, um ódio absurdo ao que não é da mesma pinta». E surge, eterna, a síndroma da manhã seguinte: «Dentro dos eléctricos, dos autocarros, pelas ruas, por toda a parte se ingere a pílula dos jornais desportivos, que surgem diariamente para manter o fogo sagrado, curtidos com as notícias cintilantes da bola, onde tudo é grandioso, excitante, pleno de acção.»
Um poeta a libertar-se de um tema? Um outro haverá de insistir nele. José do Carmo Francisco é autor dos mais impressionantes poemas desportivos que possuímos (não há muitos mais, mas não é culpa dele). Em Universário (Moraes, 1983), damos com as senhoras «à volta do estádio», atidas «a fazer tricot mas contrariadas», enquanto, lá dentro, «mesmo quando chove aqui nunca chove / é só na relva que a chuva cai». Terminada a partida, não é ainda o fim. Porque «há um drible que nunca esquecemos / e sonhamos tudo às voltas na cama». Um drible às voltas na cama? António Mega Ferreira escreveu uma vez, no Expresso: «Qualquer mulher sensível pressente que um homem que gosta de futebol é um amante incerto.» Nisso estamos, agora, todos de acordo.


Publicado por: fernando venâncio em abril 9, 2005 09:31 PM

Brilhante, Fernando. Como é teu timbre e deleite para os teus leitores. Viajei até ao Estádio Nacional, a esses domingos de rádio nas orelhas dos lentos velhos e dos pais de família com bigode e barriga dupla. Era o tempo em que todos os jogos começavam às 3 da tarde. Um universo bem ordenado, pois.

Entretanto, entre os meados de 90 e os meados desta coisa, deu-se uma piccola revolução sexual. As cachopas começaram a gostar da bola. As razões serão as mesmas, o cimento da socialização, e são outras, a iconofilia promovida pelo marketing. A bola trocou a tasca e o táxi pela discoteca e a passerele. Há dias, para meu espanto serôdio, até vi uma fiscal-de-linha num jogo da rapaziada; antecâmara de uma fantasia pré-erótica que alimento a soro, a de se permitir a prática desportiva mista em alta competição. Já para não falar no fenómeno que é o futebol nos EUA, primeiro a crescer nas universidades, depois com os filhotes desses universitários apoiados por mães fanáticas, finalmente com as miúdas norte-americanas, que são craques mundiais.

Homens e mulheres unidos por uma bandeira, um sonho que sempre comoveu o mais empedernido dos racionalistas.

Publicado por: Valupi em abril 10, 2005 06:30 PM

Muito bom o texto, Fernando, e "italizável", apesar de não ser inédito. Aceitarias uma republicação "lá em cima"? Se aceitares, levas como brinde uns poemas recentes do José do Carmo Francisco, sobre futebolistas do seu (e nosso, meu e do Valupi) Sporting.

Publicado por: José Mário Silva em abril 11, 2005 12:06 AM

ZM,

Italize-se, pois. Já agora, com algum esclarecimento. O texto está incluído no volume de crónicas «Maquinações e Bons Sentimentos», edição da Campo das Letras.

E venha o Zé do Carmo, também.

Publicado por: fernando venâncio em abril 11, 2005 07:25 AM