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abril 01, 2005

O NOME DA ROSA

Se eu utilizasse um certo tipo de raciocínio jesuítico quase que poderia classificar todo este espectáculo em torno da morte anunciada do Papa como “soberba”.
Este drama de choque que se arrasta há vários meses perante a opinião pública num crescendo de auto-exibição da dor com o avolumar de detalhes mórbidos de sabor medieval nas últimas horas como a chegada do “anunciador oficial de morte de papas”, parece agora aproximar-se do climax final, desdobrando-se um pouco por todo o lado a actividade de jornalistas frenéticos à cata de “reacções” das “personalidades” institucionais.
Em tempos normais parece certamente irrelevante a tomada de posição de pessoas fora do universo católico sobre a eventual oportunidade ou não da sua substituição por aparente perda de faculdades. É claramente um assunto interno da Igreja e dos crentes.
Mas a invasão do espaço mediático nas últimas horas, torna impossível ignorar o que se passa neste momento no Vaticano e um pouco por todo o mundo.
E quase em todo o lado se fala em "recolhimento" e "oração" mas assiste-se a um frenesi macabro .
Na minha opinião deve reconher-se que Karol Wojtyla é um exemplo raro de político coerente com as suas convicções até ao fim. Por muito estranhas que algumas nos pareçam.
Quando os ayatollahs muçulmanos ou heróicos lideres revolucionarios terceiro mundistas abalam para os melhores hospitais do Grande Satãn ao menor sinal de alarme vindo da próstata indiferentes à populaça que morre à fome, tem de respeitar-se a força interior de alguém capaz de gerir lucidamente o “espectáculo mediático” nos limites do intolerável montado em torno da sua própria degenerescência, usando a exibição da proximidade do estertor da morte como bandeira e incentivo para os seus seguidores e respectivas causas assim fundamentando o papel que pensa ser o seu de representante de “Deus”.
Talvez fosse bom também assinalar neste momento que se o Papa abraçou causas retrógradas como a oposição ao aborto e aos métodos anticoncepcionais, teve apesar de tudo, ao contrário de uma vasta parcela dos seus seguidores pretensamente mais “realistas”, a coerência de criticar o absurdo da operação iraquiana.
Muitos dos hipócritas “pró-vida” que vão agora enaltecer o “Santo Padre” pela sua coragem desde há dois anos que fazem um sorrisinho beato ao ouvir as críticas do Papa à guerra “compreendendo-as” com bonomia como exageros de um ancião cheio de sagesse mas já a Leste das “realidades” do Mundo.

Publicado por tchernignobyl às abril 1, 2005 07:26 PM

Comentários

Muito bom post. É mesmo isso!

Publicado por: vanessa a. em abril 1, 2005 07:53 PM

Excelente, tchern.

Publicado por: Filipe Moura em abril 1, 2005 08:15 PM

Faz de facto muita impressão esta morte "em público". Se calhar, sou mesmo muito antiquada, mas para mim a morte é algo de muito privado. Transformá-la em espectáculo para mim é chocante. Mesmo que sirva os interesses que o próprio defende e mesmo que se saiba que ele aprovaria. Choca-me.

Publicado por: Emiéle em abril 1, 2005 08:16 PM

Só mesmo o Filipe Moura para achar este post excelente, excelente porquê ? trata-se apenas de um texto revisionista sobre o papel do Papa na história social e nos costumes, melífluo quanto baste para assinalar que para além da esquerda festiva também ele criticou a intervenção iraquiana. Pobres albardeiros do Entroncamento, alguma vez um Papa deixou de criticar uma guerra

Publicado por: Real em abril 1, 2005 09:02 PM

De facto este tche é apenas mais um dos que se rendeu ao espectáculo que está a ser a agonia do Papa e a participar à sua maneira...

Publicado por: The Studio em abril 1, 2005 10:19 PM

Deprimente espectáculo!

Como baratas, padrame, bispos, cardeais, irrompem de todo o canto a ajudar ao espectáclo das televisões, das rádios, numa algazarra de sexta-feira-santa deprimente e medieval.

Para que se sentiam sós e tristes com medo da morte, aleluia, diz a Icar que de ora avante mais ninguém morrerá sem o seu espectáculo finalíssimo,óh ridículo, porque julgam que se está a sair muito bem, o papa, a icar, cardeais, bispos e a televisão.
E assim o baratame está aí.

Publicado por: digeu em abril 1, 2005 10:26 PM

Como era de prever, o estertor dum papa velho, doente e indefeso vem acordar nestes amadores da observação politica sem incenso as azias do café com leite que beberam na tal manhã em que acordaram para as para revoluções e endireitamentos do mundo. A Vanessa, coitada, mais não sabe que vir a este blogue e proceder à necessidade fisiológica de vomitar encómios e engraxadelas sensaboronas a todos os enfornadores de posts sem excepção - mas só nos dias em que não perde tempo a expremer as borbulhas da “juventude” que revela ou da velhice que finge. Uma e outro (outro que neste caso só pode ser o homem que adora o Central Park da terra do Grande Satã e o seu estúdio de Paris com ligação independente à Internet e também matar-nos sem piedade com postos longos e tediosos sobre a Maria Cachucha) fariam melhor acender uma ou duas velas, porem-se de joelhos e repetirem algumas mantras para limparem as cassetes ou esquecerem as ordens que receberam das máquinas automáticas.Para completar esta “ménage à trois” temos o autor do post propriamente dito que certamente não se importa que o tratemos de ignorante, pois decerto não se teria estendido ao comprido de maneira tão espalhafatosa. A este fundista, de bom coração se não andasse metido em políticas modernas armado de argumentos antigos, apenas se faz uma pergunta simples: quantas vezes é que ele abordou ao de leve neste blogue o facto de George Bush (um fulano de quem ele pelos vistos não gosta) ser membro da maçonaria - dessa mesma maçonaria discretamente representada no Vaticano e em Portugal e discretamente preparada para bater palmas e beber um copo ao seu “editorial” cheio de buracos?

Publicado por: Madalena em abril 1, 2005 10:30 PM

Se se critica um post que critica os críticos do Papa, isso também nos torna parte do circo mediático que espera, como abutres, a sua morte? E o meu comentário, que é uma crítica àqueles que criticam os criticos das opções do Papa que, neste momento de sofrimento terminal, se transformaram em admiradores influenciados apenas pela oposição de Sua Santidade à guerra, também pertence ao circo de que falo acima? Mas afinal, tudo é conversável, ou não? De qualquer modo, interessante texto sobre aquilo a que assistimos.

Publicado por: Sérgio em abril 1, 2005 11:23 PM

Milagre!!

Papa recupera..e já anda!!

Viva o 1 de Abril!!

Publicado por: Ardentia em abril 1, 2005 11:36 PM

Há algo de profundamente pedagógico na exibição mediática da morte do Papa. Morte? Não, vida. É a vida do homem Karol que está a ser dada à contemplação. Nesta atenção inevitável, que alguns néscios atribuem a interesses propagandísticos – quando a Igreja, mesmo que o quisesse, nada poderia fazer para impedir a voragem predadora que é o modo próprio dos meios de comunicação – temos a rara oportunidade de nos confrontarmos com uma vida que é fonte de sentido até ao fim. Sim, tal como no mais íntimo de nós ambicionamos e para os nossos esperamos.

A morte e a velhice tornaram-se escândalo e doença. Consequência das alterações nos modelos de produção – a sociedade industrial e pós-industrial a reduzirem o humano à sua dimensão económica – acrescentou-se ao antropológico absurdo existencial a violência suprema da exclusão social. Substituímos quem diminui os índices de eficácia produtiva e castigamos a longevidade. Somos bestiais.

Não se pede catolicismo, cristianismo ou religiosidade para admirar a dignidade de uma pessoa, qualquer pessoa. Apenas amor-próprio.

Publicado por: Valupi em abril 2, 2005 12:29 AM

gRANDE LUCIDEz NA LEITURA DO ESPECTÁCULO BIG-BROTHERIANO MONTANTO EM TORNO DA MORTE DO PAPA.
APENAS DISCORDO QUE ELE ESTEJA LÚCIDO.
ESTA MORTE ÀS PRESTAÇÕES INTERESSA... MAS JÁ NÃO A WOJTYLA.
SÃO OS SEUS ANCIÃOS QUE A ALIMENTAM

Publicado por: Nuno em abril 2, 2005 01:44 AM

Aponta-se o dedo à mediatização da sua morte. Não me lembro de estarmos a ver em qualquer canal uma câmara no seu quarto... De Féher, sim, lembro-me de ter morrido em directo. E há quem se lembre de JFK, morto em directo na TV americana. E lembro-me dos milhares que morreram em directo nas torres gémeas... Poucos se ofenderam com essas mortes em directo.
[A Emiéle: um pouco de História faz bem, nestas coisas. A "morte privada" é um conceito muito recente, de uma sociedade cada vez mais egoísta e receosa da degradação, que prefere a morte - e a dor - como coisa(s) escondida(s). Antes destas últimas dezenas de anos, a morte era coisa pública (e não falo de rituais bárbaros de execução, muitos infelizmente instigados/patrocinados por uma Igreja, que já não existe). Uma das coisas que me lembro de aprender na História de um longínquo 12º ano foi «a arte de bem morrer», "Ars Moriendi", que na segunda metade do século XV ensinava as pessoas a morrer. Hoje, julgo que é importante reflectir se a doença e a morte não podem ser vistas assim - como nos aparece João Paulo II, como o Papa se tem exposto. Contra a lógica deste século, em que os corpos se querem bonitos e saudáveis. E em que as reformas antecipadas são "normais" aos 40 anos. Ou «de modo a impedir que se repita o que está a suceder com este Papa».

Publicado por: Marujo em abril 2, 2005 04:11 AM

O comentário da Madalena (10.30 pm) é :) :) :) hilariante. Un piccolo cáustico, mas julgo que não chega a ser ofensivo.
Acho que merecemos mais umas linhas que nos esclareçam sobre as ligações maçónicas do George W.(?) Bush.

Publicado por: caznocrat em abril 2, 2005 04:46 AM

Marujo: JFK não foi morto em directo. O filme que existe com a sua morte foi filmado por uma pessoa para a sua colecção pessoal... (isto se bem me lembro).

Publicado por: João André em abril 2, 2005 09:46 AM

A Era não acaba aqui, já há muito que o Papa não decide nada, os cardeais da cúria donde sairá o próximo e que tem exibido e feito o aproveitamento do seu sofrimento é que vão continuar a comandar os destinos do Vaticano. A oposição à despenalização do aborto e aos métodos anticoncepcionais vão continuar a ter a oposição da Cúria. Quando muito muda o estilo, mas a Igreja vai continuar a reboque da sociedade. estrelinha ajuizada

Publicado por: vermelhofaial em abril 2, 2005 03:07 PM

Caro Caznocrat,

Tu és um bronco (ou um testa di cazzo, se preferires italiano). Com é que queres que te PROVE que esse “warmonger” que citei acima é irmão de avental das forças regulares da Maçonaria? Com confissão assinada, retrato ridículo num piquenique in Minesotta? Uma pessoa tem de ser realista. Repara no número de anos que os nossos pobres juizes em Portugal precisam para PROVAR as acusações no escândalo da Casa Pia. Esta Madalena não é milagreira, rapaz. No entanto, entretem-te a dar volta ao miolo com a noção oficial e pública de que o nosso homem é membro do famoso Skull and Bones “Club” que funciona a partir da Universidade de Yale e prepara homens escolhidos a dedo para poderosos postos na política dos Estados Unidos. O facto de os rituais praticados nos encontros desta gente serem semelhantes aos que se praticam nas horas de festa e reunião da Maçonaria de todo o lado pode não te dizer nada, mas a mim (e a muitos milhões como eu) sempre de pé atrás, diz-me muito. Alem disso a maçonaria ( pelo menos no que respeita a mais de 90 por cento dos seus irmãos) não passa duma ferramenta. E se precisares duma analogia para encontrares pontos de contacto e de desenho entre as “duas” irmandades, aproveita quando de te fores deitar esta noite pensando que és uma criança que acredita em tudo o que lhe dizem. Pede à mulher, ou namorada, para colocar o indicador mesmo acima do teu orificio anal e depois percorrer esse dedo muito devagar, esquecendo o aspecto erótico, evidentemente, sobre a coluna, contando as vértebras. Quando o dedo dela atingir o atlas, deve ter passado sobre trinta e três vértebras ou vestígios delas. São os graus da hierarquia maçónica. Depois, tu mesmo mete as mãos na cabeça e desce-as pela cara palpando todas as saliências e rachas e conta-me quantos ossos encontraste nessa caveira da coroa à mandíbula. Vinte dois, não foi? É o número favorito do Skull and Bones.
WAKE UP, FUNNY FACE, I CAN´T WASTE MY PRECIOUS TIME WITH YOU.

Publicado por: Madalena em abril 2, 2005 04:20 PM

Obrigado, muito honrado pela resposta, cara Madalena.

Publicado por: caznocrat em abril 2, 2005 06:49 PM

Até pode ser verdade, até pode ter toda a razão, até pode ser pertinente mas se o senhor não tentasse exibir dotes literato-filosófico-culturais, o seu texto seria muito mais eficaz.
A fórmula que encontrou para passar a mensagem anula-a completamente.O seu texto não cumpre os objectivos e por isso a nota é:medíocre-

Publicado por: Patrícia H. em abril 2, 2005 08:47 PM

Pronto, o homem lá morreu. Pode ser que assim o deixem em paz.

Publicado por: ggg em abril 2, 2005 09:02 PM

Creio que agora haveria algo de profundamente pedagógico na exibição mediática do apodrecimento do cadáver do Papa. Morte? Não, vida. É a vitalidade do homem Karol que estaria a ser dada à contemplação, através do seu inverso: a putrefacção do corpo. Nesta atenção inevitável, que alguns néscios atribuem a interesses propagandísticos – quando a Igreja, mesmo que o quisesse, nada poderia fazer para impedir a voragem predadora que é o modo próprio dos meios de comunicação – temos a rara oportunidade de nos confrontarmos com uma vida que é fonte de sentido até ao fim - e mesmo depois do seu fim. Sim, tal como no mais íntimo de nós ambicionamos e para os nossos esperamos.

A morte, a velhice e o rigor mortis tornaram-se escândalo e doença. Consequência das alterações nos modelos de produção – a sociedade industrial e pós-industrial a reduzirem o humano à sua dimensão económica – acrescentou-se ao antropológico absurdo existencial a violência suprema da exclusão social. Substituímos quem diminui os índices de eficácia produtiva e castigamos a longevidade. O cadáver, como não produz, não seduz. Ai o cérebro já não mexe? O coração não palpita? Deita-se fora. Somos bestiais.

Não se pede catolicismo, cristianismo ou religiosidade para admirar a dignidade de uma pessoa, qualquer pessoa. E não há nada mais digno do que apontar câmaras de televisão a um corpo até que ele esteja reduzido a pó.

Publicado por: Zé em abril 2, 2005 09:16 PM

Ai, zezito... Estás apanhado de todo, filho... :)

Publicado por: Valupi em abril 3, 2005 12:18 AM

Valupi, isso são lirismos. Eu estava lá, diante da televisão, o tempo suficiente para ver que havia circo (máquina prpagandística), e organizada com eficácia (como sempre) pelos exímios encenadores do Vaticano. O melhor termo que encontrei por aí, nos comentários vários e nos posts: medieval. Sim, um excelente espectáculo de cariz medieval.

Publicado por: jm em abril 3, 2005 10:32 AM

bingo, tchernobyl! por tudo o que nos separa e tudo o que nos une

Publicado por: móveis correia, aRQUItECtOS em abril 3, 2005 05:23 PM

A prosa fácil e fresca da Madalena, escatológica, cheia de “necessidades fisiológicas”, “vótimos”, “testas di cazzo”, um pouco a exposição pública do que uma certa noção porventura antiquada de “dignidade” pensava o mais “intimo” da condição humana, dá-nos também o cheirinho a “Teoria da Conspiração” que já estava a faltar nesta discussão. Dispara em todas as direcções mas na ânsia de insultar tudo ( exceptuando talvez por momentâneo acesso de maternalismo o meu “bom”(????) coração) acaba por não se perceber se tem alguma ideia sobre o assunto do post.
A novidade e interesse do comentário dela é sugerir a minha cumplicidade com a Maçonaria uma vez que eu nunca refiro o aspecto capital de uma hipotética pertença do Bush à maçonaria ( e isto aonda por cima quando é patente que eu no suporto o homem), de resto também presente no Vaticano e em Portugal (assinale-se outra descoberta inédita) e pronta a acorrer, num momento de auto-punição, aqui a “beber um copo” e a “aplaudir” este enfadonho “editorial”.
Agradeço-lhe. Receber aqui “a Maçonaria “, a beber e a aplaudir é proeza a que a minha já de si elevada auto-estima ainda não estava preparada para interiorizar.

Publicado por: tchernignobyl em abril 3, 2005 05:52 PM

Já o Real continua com as habituais dificuldades para dizer qualquer coisa que tenha a ver com o que se discute.
Revisionista, o meu post… ok, porque não? Está aí a palavra revisionista à disposição, porque não chutá-la? Apenas desejo que depois desta enfatuação pelo termo, vás a um dicionário meditar bem sobre o seu significado.
Picou-te a referência aos apoiantes da Guerra. Ao afirmares ( o que suponho é historicamente falso, basta lembrar-nos das “cruzadas” medievais e a agitada história do “Bispo de Roma” ) que “qualquer papa é contra qualquer Guerra”, confirmas a atitude que eu atribuo no post à tua família política reaccionária.
Muito respeito, muita admiração, mas na prática qualquer tomada de posição “política” do Papa é irrelevante. A não ser nos casos em que um Papa calhe concordar com algum Real.

Publicado por: Tchernignobyl em abril 3, 2005 05:54 PM

Seria bom que certas pessoas, a começar pela Madalena e pelo Difeu, fizessem os comentários em português. é que sinceramente não percebi de todo o que é que eles queriam.

Publicado por: João Pedro em abril 3, 2005 05:59 PM

Se por um lado o Real manifesta a persistência da dificuldade “genética” para dizer alguma coisa em que “bata a bota com a perdigota”, remniscência de uma outra mania, a de por qualquer mecanismo obscuro da vontade insistir em reinvindicar-se da área do “socialismo democrático” quando de forma persistente defende posições da direita neoconservadora, o nosso inteligente “deformador” Valupi remete-nos no seu comentário inicial a este post para a expressão “dar a volta ao texto” consagrada por um programa histórico da televisão portuguesa, a Vaca Cornélia, e que se converteu nas mãos inábeis da ralé numa das mais irritantes manifestações de um certo espertismo nacional.
A alusão ao espectáculo da exibição da degenerescência física como forma de propaganda que até é apresentada com alguma contenção, reconhecendo-a como decorrente da firmeza de convicções de um líder é scannerizada pela visão em tons de cinzento do Valupi como crítica à exibição da morte. E aí, contra todas as evidências, onde todos vêem a presença da Morte, o Valupi “dá a volta ao texto” e anuncia que não, trata-se de um espectáculo “de Vida” e "pedagógico" num sentido que extravasa os limites da respeitável coerência política do Papa. Será com efeito tudo isto, a proximidade da morte, também parte da vida, enquanto o sr. Wojtyla não morreu ( as já célebres três marteladas com o martelo de prata..) estava vivo, como diria La Palisse.
No entanto esquece o Valupi que o mundo da velhice, da doença e dos estádios terminais da vida continuou anonimamente “invisível” em milhões de casas, lares e hospitais e em toda a solidão enquanto o espectáculo mediático e os piedosos crentes se concentravam em praças e Igrejas, a meditar não nos significados da vida e da morte e nessa solidão dos excluidos da vida) mas fixos apenas e só numa pessoa, num homem, que por acaso é (era) Papa.
Como diz a Emiéle, numa visão conservadora(?) que partilho, há certas coisas que deveriam passar-se numa certa intimidade. Defendermos que seja prestada às pessoas a devida assistência independentemente da sua condição social, participarmos nisso individualmente quando isso acontece com os que nos estão próximos ou quando por qualquer outra razão isso se revela necessário nada tem a ver com a pretensão ridícula de que o arrastar pelas ruas de anciãos agonizantes contribuiria para nos aligeirar uma grama da consciência de um “destino” ( relativamente à morte não há grandes hipóteses de livre arbítrio) inevitável.
Por acaso até já assisti num canal por cabo a um documentário acerca dos últimos momentos de um homem que pôs termo à vida voluntariamente . No entanto, o documentário a cujo desenlace não consegui assistir apresentava um homem perfeitamente consciente, andando pelo seu próprio pé, nada do espectáculo de um homem a arrastar-se no limite das suas forças.
Argumentações do tipo “ A morte e a velhice tornaram-se escândalo e doença. Consequência das alterações nos modelos de produção – a sociedade industrial e pós-industrial a reduzirem o humano à sua dimensão económica – acrescentou-se ao antropológico absurdo existencial a violência suprema da exclusão social. Substituímos quem diminui os índices de eficácia produtiva e castigamos a longevidade. Somos bestiais. “ são certamente válidas numa discussão genérica sobre o que é a vida e o que nos espera mas apresentá-las como argumento para justificar a posição da Igreja e do Papa em toda esta história é apenas uma charada de gosto duvidoso.
Um aparte para o Marujo.
As câmaras da televisão que filmaram a morte do Feher e o filme ou filmes que apanharam a morte do Kennedy, não estavam lá ao que se sabe para filmar a morte. Limitaram-se a apanhar um acontecimento que colheu todos de surpresa.
Lembro ainda que na altura foi elogiado o realizador de uma cadeia de televisão que acompanhava o jogo precisamente por ter tido o pudor de resistir à tentação sensacionalista de transmitir grandes planos do rosto do moribundo Feher.
Como na história do velho do rapaz e do burro, parece agora o Valupi sugerir que não, dever-se-ia ter aproveitado mais uma oportunidade de luxo para contemplarmos em todo o seu esplendor a chegada da morte. Ou da Vida, como ele quiser.
Há ainda um outro equívoco em que labora o Valupi. É quando afirma que “alguns néscios” atribuem a toda esta parada “interesses propagandísticos”.
Parafraseando-o eu diria que só nos tomando de facto por néscios pode o Valupi “excluir” a existência de interesses propagandisticos. E que necessitamos de um certo esforço de auto estupidificação para acreditarmos que nos encontramos perante uma espécie de limitação de danos por parte de uma estrutura de “paredes de vidro”, impotente para deter as arremetidas de uma imprensa ávida de historietas.

Publicado por: tchernignobyl em abril 3, 2005 06:19 PM

Porra pá, escusavas de me responder logo em dois comentários. Olha se eu fosse um gajo envergonhado.
Da próxima vez avisa como é que queres os comentários, ok ? de todo o modo acho que nem assim vou tomar tino, é genético sabes...

Ah, mas do que eu gostei mesmo, camarada José, foi neoconservador ;)

Publicado por: Real em abril 4, 2005 08:45 PM

até pode ser a forma de tirar este blog do buraco financeiro a que o levou o serviço público.
uma vez que são necessários sacrifícios fazia-se assim:
enviavas o comentário, mais ou menos uma mancha que desse para se entender um pouco aonde pretendias chegar e a troco de módica quantia, recorrendo ao outsorcing do valete frates ou do sinédrio, malta mais ao menos da tua confiança politica, passava-se para um português que fizesse um bocado sentido e depois publicava-se, apenas em teu nome por uma pequena taxa adicional com comissão de desagravo para os "ghost writers" e custos de gestão para o blog. Todos benificiariamos.

Publicado por: tchernignobyl em abril 5, 2005 01:04 AM

Caro jm, tu que consomes livros de boa qualidade autoral e a bom ritmo, ainda tropeças no termo "medieval"?!... But I digress.

Confesso, não entendo a tua censura. Tudo na Igreja é, de alguma forma, encenado. É, foi e será. A palavra "cena" vem do grego e remete para uma qualquer construção que sirva de abrigo – uma casa, em sentido lato. Há "cena" onde há habitação confinada por uma arquitectura, a qual pode acabar por ser natural na sua envolvente. Daqui se salta para o teatro. Este passo carrega a cena com actores, cenários, papéis, máscaras, representações, artificialidade, ficção. O destino ficou traçado, se é encenado é falso.

Mas não. É o cinismo a embotar a sensibilidade. Desçamos à antropologia e constatemos como a dimensão humana é – por definição, em tudo e sempre – uma forma de encenação. O natural apresenta-se, o cultural representa-se. O natural é imediato, o cultural é assíncrono. O natural é sinal, o cultural é signo.

Demasiado amplo este horizonte? Vamos circunscrever. Pelo lado da liturgia, do ritual, do simbolismo, os Evangelhos são o relato das sucessivas cenas – momentos, actos, palavras e gestos – fundantes do cristianismo. Para a teologia da Igreja, os Evangelhos são a suprema encenação do divino. Esta característica não perverte a sua "verdade", antes será o modo mais original – por ser origem – da comunicação da fé. A Presença nunca é obs-cena.

Estamos num tema demasiado vasto para estas arenas, vou cortar cerce. A Igreja limitou-se a fazer o que sempre fez, não foi ela a chamar os Media, e muito menos a elaborar o plano da doença do Papa e consequente desfecho volitivo por parte do próprio; coisa que espero (para bem da respectiva sanidade mental) ninguém sequer considere como hipótese. Aliás, o Concílio Vaticano II muito reduziu a ganga litúrgica e o fausto cerimonial.

Reagir contra as encenações da Igreja, sejam elas quais forem, mas em particular nos momentos solenes, será quixotesco ou displicente. What's your poison?

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Caro Tchern, começo por dizer ter apreciado o naco de bom senso que o teu poste iluminou. Claro que depois também disparatas, com a velha e relha acusação de a Igreja ser retrógrada, como se a temporalidade da dimensão espiritual fosse igual à laica, como se o religioso se tivesse de ordenar ao secular, como se as "verdades de fé" tivessem de ser actualizadas segundo a avidez de consumo e flutuações egocêntricas da opinião pública. Delírios da unidimensionalidade.

De seguida, esclarecer que não vi no teu texto um especial enfoque na tese conspirativa ou somente maldosa da propalada propaganda propagandista. Apenas aproveitei a ocasião do teu texto para enviar o meu – quando critico alguém chamo-lhe nomes, os nomes que assinam.


E posto isto, partamos para a refrega.

Vou usar as tuas palavras contra ti. Dizes que enquanto durou o transe do passamento do Papa, duração elástica que teve entre 3 dias a 3 semanas, ninguém se preocupou com os velhinhos nos asilos, etc. Ousas mais, anuncias saber que a multidão estava era fixa numa só pessoa (por contraste escandaloso com as centenas de milhões de pessoas debilitadas pelo mundo fora que não tiveram tratamento igual nem parecido) e tens o delicioso apontamento de referir que só devido a uma acaso tal atenção recaiu sobre um Papa. [sick]

Crias-me, assim, um problema intelectual de monta – como te demonstrar o absurdo do que escreveste sem pensar? Obviamente, tendo a elegância de não o demonstrar.

Há um ponto nesta história que te escapa, como escapa a quase todos, e sem a compreensão do qual não há lição a ser colhida, desculpa-me agora este acesso de arrogância. É o aspecto irredutivelmente individual dos acontecimentos que se tornaram públicos. Para a Igreja, teria sido preferível que o homem Karol tivesse tido um comportamento consentâneo com o previsível, que se tivesse fechado no quarto do hospital. Talvez não saibas, ou tenhas esquecido por não dares atenção, mas vários foram os católicos que manifestaram o seu mal-estar com a exibição da debilidade. E se vários foram os que falaram, diz-nos a estatística que muitos mais foram os que calaram o mesmo mal-estar. De facto, é tudo menos agradável assistir à impotência de alguém, seja lá para quem for. Durante umas semanas, existiu a Igreja do Embaraço Universal.

O homem não foi por aí, como agora sabemos e podemos julgar finalmente. Durava já há muitos anos o seu estado de fragilidade final, onde cada nova viagem era uma aparente aventura insensata. E nos seus últimos dias essa lógica atingiu o paroxismo, com a "fuga" do hospital e, contra toda a sensatez dos que não têm fé, o cumprimento da entrega total ao seu Deus, tal qual como ele a entendia e veio a ser causa de espanto e admiração. Sob qualquer ponto de vista, assistimos a um acontecimento extra-ordinário. E não espanta, antes se entende demasiadamente bem, como esse testemunho de fé pessoal seja brutal demais e provoque o automático levantar das defesas psicológicas que o procuram esvaziar de sentido místico e encher de estratégia política manobrada por um colectivo obscuro e maligno.

Não tem mal alimentares as tuas teses nascidas de uma visão circunscrita pela ideologia. Nem bem.

Publicado por: Valupi em abril 5, 2005 02:41 AM

As coisas que tu sabes da maltosa neo-con. Quem é o sinédrio ?

Olha cherne também fiquei chateado de só me considerares da área do "socialismo-democrático" pois se até o daniel Oliveira se considera "social-democrata"

Publicado por: Real em abril 5, 2005 11:46 AM

Quando ler a posta do DO em que assume como social democrata respondo-te com mais tempo. Mas se isso é verdade, tira-te um peso de cima. É que se tais "trotskistas" extremistas são já social democratas, o ps está confortavelmente no centro o que te permitirá sem grandes engulhos assumir para já um lugar à direita do centro.

Publicado por: tchernignobyl em abril 5, 2005 01:28 PM

Valupi
confesso que estava com alguma expectativa quanto ao teu desenvolvimento da discussão e por isso fiquei com alguma sensação de desapontamento.
É que a primeira parte da tua resposta ficou truncada pela tua impossibilidade de apreender, certamente devido ao adiantado da hora a que a escreveste, o sentido irónico da expressão "por acaso" na minha frase.
Sê franco, mesmo que o estilo te mereça um franzir crítico do sobrolho, coisa que não te posso levar a mal, não te pareceu demasiado fácil a conclusão de que se tratava ( como efectivamente o seria se a tua interpretação fizesse algum sentido) de um absurdo?
Para ser franco, deparo-me agora eu próprio com o dilema que tu evitaste com a passagem sobre o “...delicioso apontamento de referir que só devido a uma acaso tal atenção recaiu...”.
E o dilema que me tolhe agora é este, “Mas será que depois de ler o que está para trás na frase o gajo percebeu mesmo que o “acaso” ali significava que a tal fixação da atenção tanto se poderia destinar naquele momento ao Papa como a um velhinho moribundo abandonado num buraco insalubre num qualquer albergue marroquino infestado de moscas com iguais probabilidades? Assim como o totomilhões?
Agradeço-te que quando assim suceder e na impossibilidade de encontrares outro sentido menos estapafúrdio a uma frase minha, chama-me logo o 112 em vez de perderes tempo a argumentar com o que não está lá escrito. Poderei estar a ter um AVC.

Publicado por: tchernignobyl em abril 5, 2005 01:51 PM

Que refrega estimulante! Aposto tudo no tchern, este gajo é lindo!!

Publicado por: Teresa Brito em abril 5, 2005 02:56 PM

Não acredito!...
Mandaste a fotografia à Teresa?

Publicado por: jsm em abril 5, 2005 10:07 PM

Eu digo-te a fotografia.

Publicado por: tchernignobyl em abril 5, 2005 11:11 PM

Caro Tchern, desta é que me conseguiste baralhar. Aparentemente, estás chateado com a minha incapacidade para detectar as tuas minas de ironia. Acontece que eu penso estares a sofrer de um ataque de "ilusão da ironia retrospectiva", pois não a encontro no que escreveste. A não ser que tenhas, no segredo deste blogue, alterado a definição do termo, a ironia continua a ser a figura em que se diz o contrário do que se quer dizer. Ora, o que tu escreves nesse trecho é, pelo contexto posto que não sou telepata, precisamente o que tu queres dizer. O que me leva a ter de te explicar o que andas dizer, dado estares com dificuldade em entender o que dizes. Cá vai:

"No entanto esquece o Valupi que o mundo da velhice, da doença e dos estádios terminais da vida continuou anonimamente “invisível” em milhões de casas, lares e hospitais e em toda a solidão [...]" --> Aqui dizes que a exibição pública do estado sofredor do Papa em nada contribui para a atenção aos milhentos de outros casos em que também se sofre por causas análogas.

"[...] enquanto o espectáculo mediático e os piedosos crentes se concentravam em praças e Igrejas, a meditar não nos significados da vida e da morte e nessa solidão dos excluidos da vida) mas fixos apenas e só numa pessoa, num homem, [...]" --> Aqui dizes que a comoção provocada pela cobertura mediática e pelos sentimentos, emoções e afectos da multidão em nada se relacionaram com as temáticas nobres e universais da vida e da morte, nem com a sorte dos excluídos, mas apenas com o destino individual de uma pessoa, e não mais do que uma pessoa.

"[...] que por acaso é (era) Papa." --> E aqui dizes que essa pessoa não é superior às outras (em dignidade, em mérito, em direitos), as anónimas, as "invisíveis", as que estão em milhões de casas e lares a sofrer desamparadamente. Apenas se deu o caso, acaso, de ser Papa, e por aí – nesse estatuto de superstar mediática e global – recolher um investimento de atenção que, caso não o fosse, nunca iria conhecer, pois não passaria de mais um anónimo, um não-Papa.

Capice, now?

Publicado por: Valupi em abril 6, 2005 03:38 AM

espero que esse chateado aí seja apenas uma "figura de estilo".
apenas lamentei porque te fez perder tempo a esgrimir para o ar.
Agora congratulo-me porque afinal sempre se percebia quase tudo o que lá estava escrito e não tinha nada a ver com o absurdo que foste desencantar para fazeres o comentário anterior.
o detalhe que falta - pouco importante até concordo - é a ironia.
quando acrescento o "por acaso" neste contexto subentendo também que uma leitura medianamente lúcida lê que o pessoal apinhado nas praças nunca estaria ali se não fosse para homenagear um personagem mediático.
Os velhos, os doentes, os pobres e os anónimos não contam um caracol para estas coisas.

Publicado por: tchernignobyl em abril 6, 2005 09:49 AM

Caro Tchern, nutro por ti uma simpatia quase paternal (mesmo que sejamos da mesma idade ou eu até mais novo) e por isso vou manter o compromisso de não te demonstrar o absurdo (a não ser que tu me peças, claro). No entanto, a bem do serviço pedagógico que por aqui fazemos uns aos outros (sim, mais uns do que outros e mais a outros do que a uns), sempre te digo que o "por acaso", e não por acaso, não é uma ironia. É mesmo um juízo que se deve interpretar literalmente, coerente com o sentido da frase e conclusivo do seu raciocínio.


E posto isto, boa sorte com a Teresa. ;)

Publicado por: Valupi em abril 7, 2005 03:34 AM

Valupi, que nenhum compromisso e em particular qualquer um em que eu não tenha sido havido nem achado impeça o teu talento bem nutrido, em paternalismo e não só, de se exprimir livremente mesmo que para “demonstrar absurdos”, tarefa árdua se interpretada literalmente como é evidente.
Quanto à ironia, pressupõe apenas cumplicidade entre o emissor e o receptor. O resto...

Publicado por: tchernignobyl em abril 7, 2005 12:29 PM