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março 31, 2005

NAUFRÁGIO NO ATLÂNTICO

Hoje chega às bancas uma nova revista de direita, pela mão do grande patrono das publicações do género - o Público - que já deu um empurrãozinho à Nova Cidadania e anda a sustentar há anos a inenarrável Xis.
Como se pode ver pelo nome, pela fonte tipográfica, pelo conteúdo, pelas rubricas e pelo estilo, a Atlântico é um plágio da The Atlantic; mas uma Atlantic à portuguesa: isto é, em comparação, parece feita por amadores subfinanciados.

A revista optou por substituir as fotos por ilustrações, o que fez subir uns quantos pontos a minha consideração pela publicação. E ilustrações de boa qualidade, tendo inclusivamente recorrido a excelentes desenhadores que andavam arredados destas coisas, como o Pedro Nora.
Infelizmente, esses pontos perderam-se todos com a pirosíssima primeira página, onde a redacção se entretém a inventar adjectivos começados por cada letra do nome da revista - não sei se estão recordados de fazer este género de coisas na primária?

Os colaboradores parecem ter sido todos recrutados na blogosfera dextra portuguesa, nomeadamente no Acidental, o que a mim gera uma pequena perplexidade. É que se diz no editorial: "Os textos que publicamos reflectem(...) a nossa determinação de fazer uma revista que rompa com o unanimismo reinante. Unanimismo esse que nos permite quase antecipar o que vamos ler, ver e ouvir em grande parte dos nossos jornais, televisões e rádios." Ora eu, só pelos títulos, mas ainda mais pelos nomes, consigo antecipar todo o conteúdo dos artigos e perceber neles uma ideia unânime: A esquerda é satã e o mercado e a América são Deus.
Outra perplexidade minha é que no editorial também se diz "arriscar em novos nomes como em textos que não apresentem a dimensão tida como padrão". Eu julgava que isto, como acontece na original americana, significava textos mais longos do que o usual. Mas não só não vi nenhum artigo de extensão acima do normal, como ainda descobri uma "reportagem" (sobre um gang que assalta homossexuais no Porto) que é provavelmente a peça do género mais breve que vi em toda a minha vida (meia página e nem se dá ao trabalho de ouvir as vítimas, explorar o percurso de vida dos agressores, escutar especialistas, fazer o historial de casos semelhantes, etc.)

A revista também tem os seus momentos de tentativa de humor, que revelam, aliás, grande coragem. Por exemplo, a secção de correspondência de leitores chama-se "Correio dos Fiéis Defuntos". Acresce que, para lançar esta secção, os editores lembraram-se de inventar cartas satíricas sobre figuras de esquerda e terroristas suicidas. Uma delas, a primeira, ridiculariza o Fernando Rosas por "ganhar a vida" a publicar livros sobre o Salazar. Mais uma vez demonstrando grande coragem, esta carta é o primeiro texto que surge logo após o editorial da directora, Helena Matos, conhecida pelo seu estudo sobre Salazar em múltiplos volumes.
Outro momento de humor é um diário ficcional de uma senhora da classe média, atenta à actualidade e consumidora superficial de cultura - mais uma vez há que reconhecer os tomates de ridicularizar a principal camada de potenciais leitores e ganha-pão da revista.

Isto são apenas circunlóquios, pois o que verdadeiramente interessa é a qualidade de escrita, o rigor da informação, a clareza e frescura das ideias expressas. Isso traduz-se facilmente em várias primeiras frases de alguns artigos da publicação escolhidos aleatoriamente:

Nalguns sectores da sociedade persistem algumas infundadas crenças sobre as finanças públicas que não só dificultam o seu bom funcionamento como a acção que sustentam acaba por provocar resultados contrários aos subjacentes às intenções prosseguidas.

Desde as eleições legislativas de 20 de Fevereiro tem surgido uma tese que afirma que a colocação no "centro político" é a melhor defesa contra tentações populistas. Discordo.

A Alemanha de Hitler demonstrou que uma ideologia que de forma praticamente consciente invertera o mandamento "Não matarás" não se defrontara com resistência inultrapassável por parte das consciências treinadas na tradição ocidental.

O meu pai nasceu em 1925, numa altura em que ninguém pensava que o doutor Salazar um dia viria a ser ministro.

É tudo tão rápido. Porque é necessário. Porque é trabalho. Os manequins chegam dos dias normais. Depressa. Não parecem modelos. Sem saltos, sem maquilhagem.

Enfim, antes a "New Yorker Portuguesa" que a "Atlantic Portuguesa".

Publicado por Jorge Palinhos às março 31, 2005 09:43 AM

Comentários

É sempre bom saudar uma nova revista de politica em português.
há uns anos o independente tentou uma ideia interessante ao publicar uma selecção de artigos das melhores revistas. Não sei porque fracassou, suspeito que tenha sido por essa revista ser ilegível devido à densidade assustadora de gralhas.
a crise da direita não está nem na falta de votos, nem em problemas financeiros.
a crise da direita está no sistema educacional português.
O aproveitamento escolar é baixo, e isso reflecte-se no nível da intelectualidade de direita exclusivamente dependente de dois ou três think tanks conservadores baseados fundamentalmente nos estados unidos e em três ou quatro personalidades.
Talvez daí o nome da revista, é uma mão que se estende à procura de "seiva" para a outra margem do lago, assim como no célebre quadro da capela sistina.
pela tua descrição, apercemo-me que a revista tem dois méritos um dos quais tu referes.
O recurso à ilustração faz logo subir pontos na apreciação prévia que faço de uma revista.
O outro é de natureza mais política.
A Helena Matos fez durante algum tempo (há alguns anos ) aquela figura de pessoa de esquerda ou vagamente que até reage contra uma certa grunhice politicamente correcta.
Sobretudo nos ultimos dois, três anos percebeu-se que esse meritório trabalho a vampirizou a pontos de a ter transtornado no veículo da grunhice direitista mais... previsivel e básica (ler aquela análise de "pendor marxisante" que ela fez do resultado das últimas eleições, saudosa do "empreendedorismo" dos desgraçados que fugiam do campo para aterrar nas caves de mercearias da capital até ascenderem "a pulso" ao comando da sua própria mercearia ou roça africana).
Vê-se agora pelos vistos que toda essa intervenção não era "acidental", e é natural e positivo que isso seja agora assumido de forma mais clara.

Publicado por: tchernignobyl em março 31, 2005 11:40 AM

fala-se no sistema educacional português... e de gralhas...
é "parece-me" em vez de "apercemo-me".

Publicado por: tchernignobyl em março 31, 2005 11:43 AM

Com esta crítica só me apetece ir já a correr comprar a revista!

Publicado por: Tio Sam em março 31, 2005 04:17 PM

... tu é dizes que: «A esquerda é satã e o mercado e a América são Deus.» Mas eu acho que não vai tão longe! É simplesmente florida, irrealista, estúpida e perigosa para o Mundo. Tem apenas uma coisa (alegadamente) boa: o coração! Mas não basta...

Publicado por: Rafael em março 31, 2005 04:32 PM

Perdão, qualquer comparação daquilo com a Atlantic Monthly é um insulto a esta, que é uma excelente revista. Mas parece que havia uma revista Atlântico fascista, em Portugal.

Publicado por: Pedro em março 31, 2005 06:47 PM

Cambada de otários... e falam vocês em liberdade de expressão.
Dá logo para perceber que de democracia vocês percebem zero... grunhos!!!

Publicado por: Filipe em abril 4, 2005 01:24 AM