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março 31, 2005

O PREÇO DA ARTE

Interessante matéria esta do Público, a propósito de os museus estarem abertos na quadra da Páscoa.
Que sistema defender para o acesso aos museus? Deve ser gratuito, como na Grã-Bretanha (uma medida do governo de Tony Blair)? Devem ser pagos? Ou ainda um sistema misto, na Grécia: quem lá pague impostos tem direito a visitar os museus de graça; os turistas devem pagar entrada (pelo menos era assim há poucos anos, segundo me contaram gregos). Vamos por partes.
O sistema discriminatório grego parece-me muito pouco hospitaleiro e acolhedor para com os turistas.
O sistema britânico introduzido pelo governo trabalhista tem dado os resultados esperados: os museus britânicos têm mais visitantes, sobretudo das classes sociais mais desfavorecidas. Deve ser sobretudo este o objectivo que se deve tentar obter.
Mas sendo os museus pagos integralmente pelos contribuintes, têm menos autonomia financeira e mais constrangimentos, sendo mais difícil entrarem na competição pelas grandes exposições temporárias temáticas que percorrem o mundo. É claro que em princípio pode sempre recorrer-se a patrocínios especiais para esse efeito: é factor de prestígio estar associado a um evento deste tipo. Mas a questão principal que eu quero pôr é válida: devem os utentes dos museus pagar pelas suas visitas?
Tal como é referido no Público, nos EUA os grandes museus funcionam como um "clube" do qual os utentes se podem tornar "sócios": pagando uma quota anual, uma espécie de game-box do futebol, têm acesso ilimitado. Em França há "passes" anuais que funcionam de uma forma semelhante.
Em ambos os países (tal como em Portugal) está ainda em vigor na maioria dos museus um procedimento que, não sendo referido na matéria, me parece bastante acertado. Uma vez por semana, durante um dia em Portugal ou por determinadas horas nos EUA, o acesso aos museus é totalmente livre e gratuito, para todas as pessoas, residentes ou não. Em França tal também é válido nos museus nacionais, um dia por mês. A medida permite que os "locais" visitem todos os museus de graça, se quiserem. Se não se quiserem sujeitar às multidões ou se estiverem só de passagem e quiserem visitar os museus (não podendo esperar uma semana ou um mês), pagam um ingresso. A medida permite assim reestabelecer uma certa "justiça fiscal" com quem sustenta os museus através dos seus impostos, de uma forma subtil, sem a discriminação explícita grega. É ainda o sistema que me parece mais justo.
Muito pouco do que discuti se aplicaria ao caso português, no entanto: há que ser realista. Não faria sentido introduzir os "passes" anuais: quem é que, em Portugal, vai ao mesmo museu mais do que uma vez por ano? Talvez em casos de museus com programas dinâmicos de exposições temporárias, mas casos como estes em Portugal contam-se pelos dedos de um pé. A verdade é que há que atrair visitantes aos museus portugueses. Há pouco investimento, público e privado, nos museus portugueses, porque não é rentável: há poucos visitantes. Há poucos visitantes porque as exposições são pouco estimulantes. As exposições são pouco estimulantes porque há pouco investimento... É o habitual ciclo vicioso. Para solucionar este problema, basta que alguém quebre este ciclo. A meu ver, esse é o papel do Estado, pelo menos enquanto não surgirem outros parceiros: desbloquear este impasse. Na Grã-Bretanha, Tony Blair entendeu-o.

Publicado por Filipe Moura às março 31, 2005 08:49 AM

Comentários

Filipe,
existem alguns museus britânicos que funcionam na base da «contribuição voluntária»: o acesso é livre mas há uma caixinha à entrada que «convida» as pessoas a deixarem umas moedas ou mesmo uma nota. Esse sistema permite algumas receitas sem negar o acesso...

Publicado por: Ricardo Alves em março 31, 2005 09:43 AM

De acordo, Filipe.
Só que acho que um dia por mês é muito pouco para promover a ida a museus. Teria de ser um dia por semana onde a entrada fosse livre. Ou um por mês de fosse a um fim-de-semana.
É que inércia é enorme. Conheces Portugal, não conheces?

Publicado por: Emiéle em março 31, 2005 10:10 AM

Eu venho a este museu todos os dias e não pago nada...

Publicado por: Sombra em março 31, 2005 12:21 PM

Pois é, Sombra, somos uns mãos largas.

Publicado por: José Mário Silva em março 31, 2005 12:53 PM

Ricardo, isso é a típica mentalidade anglo-saxónica que só funciona com gente bonzinha, que atravessa nas passadeiras e deixa a porta de casa destrancada. Eu não sou nada bonzinho, como sabes. Mas dado que muitos turistas que nos visitam são ingleses, e visitam os museus durante o dia, antes de estarem bêbados, talvez não fosse má ideia.
Emiéle, uma vez por mês é em França. Em Portugal é uma vez por semana, ao domingo, pelo menos nos museus nacionais.

Publicado por: Filipe Moura em março 31, 2005 07:59 PM