« O MELHOR QUADRO DE TODOS OS TEMPOS | Entrada | MARIA METE OS PUTOS NA BARRACA »

março 29, 2005

GHASP! OUTRA VEZ OS BLOGUES

Quando o Carlos Andrade diz no DN (edição escrita) que nos blogs “são frequentes os casos em que rumores encontram aí a luz do dia”, será que só leu o RIAPA e nunca leu “O crime”?
É no que dão estes “dossiers” sobre O “tema”.
Faz confusão que há tanto tempo ande tanta a gente a discutir a matéria e ainda não se perceba que os blogs são um meio de comunicação FORA dos media tradicionais, veja-se o que acontece aos blogs que ganham uma certa notoriedade... passam a livros, a programas de televisão, a crónicas nos jornais sem um décimo da graça anterior quando a tinham. E normalmente acaba o blog ou perde força.
Os blogs são um meio de comunicação diferente para o melhor e para o pior .
Por um lado são feitos a custos irrisórios e na sua maioria com paixão, muitos deles para “nada” que não sejam motivos que uma certa caretice travestizada de “racionalidade” descreve como “fúteis”.
Destas coisas em que as teorias económicas coitadas... ficam um bocado à porta a conjecturar conceitos para classificar rancorosamente a liberdade.
Não mete lucro assim logo directamente, ficam a patinar. Onde está a escolha racional? Mesmo os blogs ultra-liberais se contradizem neste aspecto (para o bem de todos, é “bonito” notar) ao existirem.
Por outro lado, o lado negro, vá, o sujeito que denunciou o repórter da CNN não é exactamente um blogger, é pouco mais do que um delator. Com certeza que teria coisas muito mais interessantes para contar das conversas a que assistiu no fórum mas a sua intenção ao “expôr” o repórter, não era “informar” a opinião pública era queimá-lo, despedi-lo por delito de opinião. O que conseguiu de resto... os tais “checks and balances” é democracia ou não é? Igual para todos. Dan Rather incluído. O que é preciso é cheirar a "dissidente".
Espanta-me que este tipo de situações sejam apresentadas como “informação produzida nos blogs”. Eu chamar-lhe-ia “espírito de bufo”. Do género dos honrados cidadãos que queriam processar o advogado que conseguiu o embargo do túnel do Marquês. Por ter sido eficaz no protesto. Processar os responsáveis pelo erro? Nuncaaaa! Respeitamos muito a lei meu amigo.
Claro que se chama de “informação” e não é por acaso, é que quem de direito, mais comprometido, a “grande imprensa”, pega no tema, revolve-o e ala mais um gajo fora do baralho para a rua.
É a pura liberdade de informação em acção.
Os bloggers não são jornalistas. São testemunhas.

Mas não existe um blog de testemunhas, é a blogosfera que funcionará no seu todo e no futuro como mais uma pool de “fontes” onde a imprensa se poderá basear .
Note-se que eu digo "poderá". Nada obriga nem a blogosfera, nem a imprensa.
É como a televisão comprar o filme ao turista que estava da varanda do hotel a filmar o tsunami.
É a disseminação dos electrodomésticos um novo meio de comunicação a "competir" com os media tradicionais?
Um debate vão portanto. Tudo acontecerá normalmente.
De resto o papel mais importante e insubstituível dos blogs que ultrapassa já e de longe os meios tradicionais é o debate político, público e alargado a opinion makers e anónimos, especialistas, sumidades e azelhas, cidadãos em suma.
A Ágora sem limites de tempo espaço ou sensibilidades editoriais.
Recorde-se que os meios de informação, pelo menos aqueles designados como “de referência” fidelizam leitores e ocupam uma parte significativa do seu espaço com as colunas de opinião e não pela “notícia comezinha”, do tempo, do trânsito, do principal acontecimento do dia, do resultado desportivo, no fundo a noticia que já não é bem noticia mas “reacção”, sector que corre o risco de vir a ser ocupado por “folhas” gratuítas distribuidas no metro ou na rua como o “destake" e o "opinião".
Os blogs “reagem” às colunas de opinião mas diversificam, generalizam e por vezes aprofundam o debate, desmitificam-no. O feitiço vira-se contra o feiticeiro. O jornal que foi a fonte, a crónica de partida e torna-se muitas vezes irrelevante no debate depois de canibalizado. Foi apenas um catalisador, um pretexto.
Como meio de intervenção cívica os blogs são no entanto um bocado coxos.
Não há manifestações nos blogs.
Não há sindicatos nem lutas sociais.
Não há gente a viver na extrema pobreza. Não há tomadas de decisão.
É um universo abstracto em cuja circunscrição a discussão não tem fim porque apenas necessita de um simulacro da realidade para se balizar. Pode-se falar em “despedir quarenta mil funcionários públicos”, e nos “bombardeamentos cirúrgicos em Fallujah” como se falasse de um comando num jogo de computador, sem a carga emocional que isso acarreta.
Nesse aspecto a discussão está inquinada na blogosfera.
Estaline poderia escrever pacificamente num blog que um milhão de mortos é uma estatística, e a discussão manter-se-ia na justificação ou não do Gulag do ponto de vista dos objectivos do Plano. Tal como os estropiados e mortos do Iraque... é fácil ver quanto tem ganho aquela gente.
Onde os blogs não têm capacidade de competir, é também, no grande jornalismo de investigação que requer meios, tempo coragem, obstinação e alto grau de profissionalismo.
Mas onde anda a grande imprensa nesta matéria em Portugal?
Episódios como a “cobertura” do caso Casa Pia deveriam dar que pensar.

Publicado por tchernignobyl às março 29, 2005 10:49 PM

Comentários

(Vozes): Muito bem!

Publicado por: Gabriel Silva em março 29, 2005 11:49 PM

boa lembrança gabriel. ainda não perdeste os hábitos de reportagem da Câmara Corporativa

Publicado por: tchernignobyl em março 30, 2005 12:02 AM

"veja-se o que acontece aos blogs que ganham uma certa notoriedade... passam a livros, a programas de televisão, a crónicas nos jornais sem um décimo da graça anterior quando a tinham." Isto é ridículo, purista e, em certa medida, parece ser baseado - lamento - na inveja. Por exemplo, o blog que "passou" (ponho entre aspas porque considero que é discutível dizer que foi isso que aconteceu) a programa de televisão. O Gato Fedorento (TV) não tem um décimo da graça anterior? Sendo que é o maior fenómeno humorístico dos últimos anos, o blog tinha que ter mesmo muita graça, para o programa não ter sequer um décimo...
Parece-me que se trata de um texto igual ao de Carlos Andrade, só que de sinal inverso. Por exemplo: as crónicas de jornal do Mexia, do Pereira Coutinho, da Charlotte, da Rititi e do Daniel Oliveira têm menos graça no jornal que no blog? Que sortilégio se dá na altura de afixar o texto no blogger que o torna mais engraçado do que se estivesse a ser publicado num jornal?
Esta cega apologia do blog gera mitos como o da "blogosfera que funcionar no seu todo". Não há, evidentemente, uma blogosfera que possa funcionar no seu todo, porque o seu todo é impossível de abarcar. Só no sapo existem 37 mil blogs activos. E não há nada que una estes milhares de bloggers (tirando a circunstância, manifestamente insuficiente para criar uma "comunidade", de todos terem um blog) e os transforme num grupo definido e com um significado, seja ele qual for. Há, como é óbvio, uma mão cheia de bons blogs e bloggers - e quase todos esses têm vindo a ser convocados para os media tradicionais. E isso, ao contrário do que se sugere aqui, é positivo.

Publicado por: Sousa em março 30, 2005 12:14 AM

um sousa tinha de ser "original".
dou a minha opinião? é prática a resposta, tenho "inveja"... não achas um argumento assim um bocado Margarida Rebelo Pinto?
O sousa não concorda e acha que esses bloggers/blogs estão no seu melhor : será ele um graxista? se é esse o nível de discussão, é-o sem dúvida.
uma coisa é certa... as crónicas do PM , do JPC, do DO nos jornais, serão posts em blogs? Tu o saberás.
Para mim um blog é um site simples e interactivo.
Que permite comentários.
Não é "melhor" do que uma crónica. É diferente.
Sinto mais afinidade com a blogosfera. Pudera, aqui ninguém me coibe de escrever o que me apetecer. Nem a ti. Com talento ou sem talento.
Ver nisto "corporativismo" é ridículo.
Não entendeste - enfim o contrário seria talvez pedir muito...- ou não quiseste entender, para justificar o comentário em que já ias embalado, o sentido da frase "Mas não existe um blog de testemunhas, é a blogosfera que funcionará no seu todo e no futuro como mais uma pool de “fontes” onde a imprensa se poderá basear ". NÃO É o que lhe atribuis, blogosfera significa aqui meramente o conjunto dos blogs e não um "organismo", uma "comunidade" ou "um grupo definido e com um significado".

Publicado por: tchernignobyl em março 30, 2005 12:41 AM

Não, acho um argumento assim um bocado José Gil. Parece-me até bastante válido. Mais ainda agora, que além de não conseguires justificar o purismo inicial ("veja-se o que acontece aos blogs que ganham uma certa notoriedade... passam a livros, a programas de televisão, a crónicas nos jornais sem um décimo da graça anterior quando a tinham"), começaste a torcê-lo. Afinal, agora, o que passa do blog para outros sítios já não fica pior. Fica "diferente", e tu gostas mais quando está no blog. Porque o blog é um "site simples e interactivo. Que permite comentários." (Outro purismo. Há excelentes blogs que não permitem comentários.) Afinal, não há nenhum exemplo de blogs que passaram a ter um décimo da graça quando passaram para TV, livro, jornal, disco ou cassette pirata. O Pipi, o Barnabé e o Parapeito passaram a livro e ninguém lhes tirou graça por isso. Só o Pipi vai com 50 mil exemplares vendidos e foi considerado um dos três melhores livros do ano em que saiu pela revista LER. O Mexia deu-lhe 5 estrelas no DN. Imagina o que os críticos teriam dito se estivessem a fazer a recensão daqueles mesmos textos enquanto estavam no no blog, sítio em que tinha mais 90% de piada...
Que chatice, eu ter de ser original por ser Sousa. Ah, ah, ah! "Sousa". Que nome tão esquisito! Não é, tchernignobyl?

Publicado por: Sousa em março 30, 2005 12:57 AM

ao sucesso dos blogs não deve ser alheia a falta de qualidade geral que encontramos nos nossos media, com destaque para a imprensa escrita por lhe ser mais semelhante. nos blogs encontramos com qualidade - leia-se diversidade de abordagens, de assuntos, de temas, ligeireza de escrita, rapidez, etc - todos os assuntos mundanamente tocados pelos jornais e revistas.

na medida em que excedem onde os outros falham, os blogs ameaçam o "apodrecido" status quo e, se tivermos sorte, podem ser o impulso para transformações bem interessantes. talvez no futuro próximo volte a valer a pena comprar um jornal.

Publicado por: oscar em março 30, 2005 06:35 AM

com que então josé gil... presunção e água benta...
é o problema da carneirada em Portugal. o filósofo arranjou um argumento de peso e logo qualquer compulsivo comprador do best seller se autoriza a usar às garfadas a proposta mais profunda ( e logicamente a mais badalada) nele contida.
como neste país se tem de explicar tudo às crianças, volto então a uma análise mais detalhada:
Dicionário do Diabo - publicou-se o livro, acabou o blog certo? não há aqui uma crítica à suposta perda de graça. O que está escrito é uma mera constatação. A constatação de que são duas coisas diferentes o livro que se vende na livraria e cuja publicação poderá até envolver acordos editoriais de exclusividade relativamente ao seu conteúdo.
O Meu PiPi- Publicou-se o livro, acabou o blog, certo? O conteúdo do livro continua a ter piada mas perdeu-se a interactividade, os comentários obscenos etc.
os livros normalmente - nem o Pipi nem Barnabé segundo julgo publicam comentários. E não só forçosamente por "sede de protagonismo" dos autores do blog. Quando são envolvidos meios de publicação convencionais, entra a "economia" em acção, os royalties, os sousas que acham que também têm direito a algum porque foi o comentário deles transcrito abusivamente que deu chama ao livro.
Blogs sem comentários... podem ser brilhantes mas normalmente não me interessam por aí além, culpa minha? Paciência. O Barnabé talvez por coincidência mas mais ou menos por altura do lançamento do livro ou pouco depois passou a utilizar um processo de registo de comentadores por causa de caluniadores obsessivos etc.., não interessa, é pena mas para muim perdeu um bocado de força.
Rapaz as bibliotecas estão cheias de obras de referência de altíssima qualidade, os tesouros da nossa cultura. Isso tem o seu lugar. Os blogs é outra coisa. O Capital dificilmente será publicado num blog, nem a Odisseia, ou até pode sê-lo num blog obscuro sem visitantes, mas quanto a mim, posso estar errado, estou a dar a minha opinião e não a matraquear um curso de ciências da comunicação, o interesse dos blogs está na simplicidade, no dinamismo, na discussão.
O que me faz um bocado de impressão, é uma certa "ânsia" que as pessoas têm em racionalizar o fenómeno, e isso na imprensa é normalmente feito por pessoas que não frequentam ou não gostam ou não têm pescoço a ver com os blogs.
Os meios de comunicação tradicionais terão de alterar-se e adaptar-se às novas condições. No limite desaparecerão as edições em papel, pelo menos tal como as conhecemos. Mas não é pelo facto de o le monde ou outros criarem um blog que isso contribui para fundir a imprensa tradicional com os blogs. o blog do lemonde é um artigo em continuação, é com certeza controlado por alguém, não admite comentários ou se os admite será numa lógica controladora do tipo foruns que nada tem a ver com a ética bloguísta de liberdade.

Publicado por: tchernignobyl em março 30, 2005 11:00 AM