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março 26, 2005

ENSINO SUPERIOR (POLITÉCNICO E NÃO SÓ)

A ler: Ensino superior politécnico: crise de identidade, por Armando Vieira.

«Este estigma é caracterizado por um modus operandi quase decalcado de uma escola secundária, onde as tarefas dos docentes se resumem a ensinar e corrigir exames, e a dos alunos a passar nesses exames.

Quando a investigação científica, a experimentação e a inovação são secundarizadas, o ensino fica refém de um modelo onde se lecciona apenas teoria, muitas vezes desactualizada. Alguém poderá ensinar aquilo que não faz?

Porém, aquele que considero ser o aspecto mais chocante é a forma como se processa o recrutamento de docentes nos politécnicos. Embora haja actualmente uma grande oferta de doutorados e de profissionais com vasta experiência empresarial, os concursos, sobretudo, os da categoria de professor adjunto, são quase sempre talhados à medida de "pessoas da casa" ou "conhecidos".

Este corporativismo descarado chega a ser divulgado publicamente, sem qualquer pudor, em editais do Diário da República onde se estabelece que só são aceites a concurso candidatos com licenciatura em X, mestrado em Y e doutoramento em Z. Tais argumentos até podiam ser defensáveis se as temáticas científicas X, Y e Z não fossem totalmente desconexas da área para a qual é aberto o concurso.

Abundam situações onde candidatos doutorados e com excelente currículo, tanto a nível pedagógico, científico e até profissional, são colocados no final da lista de seriação encabeçadas por licenciados com habilitações modestas.»

Publicado por Filipe Moura às março 26, 2005 12:07 PM

Comentários

"um modus operandi quase decalcado de uma escola secundária, onde as tarefas dos docentes se resumem a ensinar e corrigir exames, e a dos alunos a passar nesses exames" olha, se não fosse o título, até achava que estava a falar da minha universidadezinha.
:-(

Publicado por: Animal em março 26, 2005 07:15 PM

«Porém, aquele que considero ser o aspecto mais chocante é a forma como se processa o recrutamento de docentes nos politécnicos. Embora haja actualmente uma grande oferta de doutorados e de profissionais com vasta experiência empresarial, os concursos, sobretudo, os da categoria de professor adjunto, são quase sempre talhados à medida de "pessoas da casa" ou "conhecidos".»

Segundo consta (e consta muito bem) o recrutamento de Professores para o Ensino Superior funciona assim e por esta ordem:

um fulano quer tirar o doutoramento, então pede uma bolsa Prodep para se pôr a mexer!
Fica a vaga para leccionar as cadeiras dele;
Ó diabo, quem vai agora dar estas aulitas?
Passam-se os gabinetes a fio: «Ó fulano tal, tu por acaso não conheces ninguém que perceba um bocadito desta treta?»
Ao que o outro responde: «É pá, por acaso até conheço! Uma prima minha tem outra prima que não ficou colocada e que não se importa nada em vir dar aqui uma perninha!»
«olha fixe, então chama-a lá!»
E é assim que funciona!

Crente na suficiência das minhas habilitações, mandei o meu curriculum para várias Instituições de Ensino Superior de Viseu.
A Escola Superior de Educação respondeu-me com um atestado de burrice. Qualquer coisa do género: «V.a Exª deve saber que isto se processa por concurso público. blá, blá, blá»

Este ano, um colega deixou o lugar na mesma instituição. Telefonou-me logo: «Então, queres ir para lá?»
Ferido no orgulho respondi-lhe que não.

Então, chamaram uma aluna que acabou de tirar o curso para dar cadeiras de linguística aos colegas de 4º ano.

Mas não vamos agora desconfiar da qualidade de ensino! Era só o que mais faltava!

Isto é a noção portuguesa de Concurso Público e de Ensino Inferior (ai desculpem Superior)!

Publicado por: blackmarrow em março 27, 2005 01:21 PM

E depois ainda se perguntam porque andam os investigadores e estudantes de doutoramento e pós-doc tão desmotivados e sem vontade de prosseguir... ;)

Publicado por: Nelson em março 28, 2005 11:16 AM

Sim, infelizmente o que eu falei no artigo nao se aplica so aos politécnicos...

Armando Vieira

Publicado por: armando em março 28, 2005 07:59 PM