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março 24, 2005

KARMA LAGARTO

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- Quando vires a nova equipa de futebol hás-de lembrar-te dos bons tempos e dirás que não há nada como o futebol. O clube está irreconhecível. Nunca tivemos, juro-te pela minha mãezinha, que me deu esta medalhinha, uma linha de ataque que se lhe compare. Viste o Potenzone?
- Não.
- Então não fales de futebol. Tens de fechar essa boca, em poucas palavras, calar-te. Potenzone é o novo avançado-centro. Um mago com a bola, fuçanguice pura e floreados, mas quando chega à baliza, o homem perde impulso, falta-lhe fibra e o golo mais certo acaba em nada, se me faço entender. E Perrone, também não o viste?
- Também não.
- Mas pá, o que é que andas a fazer? Estás a perder o melhor da vida. Perrone é o extremo mais rápido que alguma vez tivemos. Um caso diferente. Corre como uma flecha, chega à zona da baliza, parece meio confuso, chuta para diante. E o Negrone, viste?
- Esse no meu tempo já era meio veterano.
Enquanto Pegoraro, fazendo as orelhas moucas, explicava os defeitos daquele jogador, Gauna pensava que um desses domingos tinha de inventar uma boa desculpa e voltar ao clube.
...»

Adolfo Bioy Casares
O Sonho dos heróis, 1954
Ed. Cavalo de Ferro,
tradução de Sofia Castro Henriques e Rui Lagartinho

Publicado por tchernignobyl às março 24, 2005 01:10 PM

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