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março 22, 2005

PRIORIDADES

O ubíquo e omnisciente Grande Pai Branco de Washington deve ter ficado ontem reconhecido pela galhardia com que os representantes do Partido Republicano na Assembleia da República portuguesa defenderam a sua honra e bom nome no debate de ontem do Programa do Governo contra o sinistro esquerdista, passe o pleonasmo, que sem pudor comparou as acções do simpático potentado com as de alguns ditadores.
Freitas ainda se deu ao trabalho de lhes falar em Guantanamo e Abu Ghraib, nomes incómodos que apenas representam uma leve evocação do estado de coisas, a face visível do iceberg, mas eles coitadinhos disso não sabem ou nem querem saber; "gente de bem", preocupa-os apenas o acessório que é o eventual exagero da comparação, mesmo tendo em conta que foi feita num momento histórico em que se banalizaram as declarações mais desbocadas dos partidários da guerra contra a ONU e contra a "Velha Europa"...
É por outro lado notável que todo este charivari inútil seja provocado pelos partidos que representam as "elites", num momento em que todos admitem que a situação do país é grave e que o que interessa é discutir coisas importantes...

Publicado por tchernignobyl às março 22, 2005 11:30 AM

Comentários

E o mais fantástico, de facto, foi o tempo que essa discussão "fulcral" ocupou. Com citações do próprio autor (neste caso o Freitas), com piadas elaboradas sobre se não tiver o seu livro eu tiro uma cópia, enfim...
Aliás, a meu ver o Freitas perdeu-se quando tentou justificar apelando à contextualização. Não era necessário. A comparação pareceu-me mais que correcta.
Sinceramente só acho que discutir o "carneirismo" em relação aos EUA, e ao seu presidente, não deveria ser o problema central a merecer honras no debate.
Ingenuidade a minha. Enquanto se discutirem faits-divers como este, não se perde tempo com as questões verdadeiramente importantes.

Publicado por: vanessa a. em março 22, 2005 02:25 PM

Sim, Vanessa, coisas importantes, como por exemplo, a despenalização do aborto. Mas não te preocupes, porque ninguém se esqueceu disso. Até me está a parecer que vai ser o primeiro «reality check» para o «povo de esquerda»...

Publicado por: Pedro Oliveira em março 22, 2005 02:55 PM

Pedro,
Sobre a despenalização do aborto. POis é. Mas, aí, eu temo que o resultado não seja bem aquele porque estamos à espera. A meu ver, a maioria de esquerda na AR (e refiro-me ao PS, PCP, BE, Verdes), não é um espelho das mentalidades deste país. Vai arriscar-se fazer um referendo quando se corre o risco de se ter um resultado semelhante ao anterior. Porque não legislar sobre o assunto na AR?De certeza que passava. Eu sei que o referendo foi um dos pontos de honra mas, entre manter este «ponto de honra» e impedir, acabar de vez com a situação miserável a que as mulheres portuguesas são sujeitas...para mim não é muito difícil de optar!

Publicado por: vanessa a. em março 22, 2005 03:03 PM

As «elites»?
Todos os partidos, (com excepção, talvez, do «velho» PC) representam as elites. O mal de Portugal, e de uma forma geral da Europa (apeteceu-me chamar-lhe «velha» mas fica para a próxima...rsrs) é a perpetuação das elites, independentemente da polaridade política que ocupam!
Se virmos bem, os «desígnios nacionais» – políticos, económicos, etc. – estão confinados a um conjunto de «apelidos» que se perpetuam no «poder» (de dirigir ou de se opor) há décadas, séculos…
As mesmas famílias, detém o capital, o poder, e a contestação através dos filhos-ovelha-negra, que engrossam o folclore hippie-chic burguês que sempre enfeitou a panóplia urbana (vale a pena ver uma caricatura desta forma de «ser» n’“O aviador”).
Eu sei que sou um exagerado… Mas lembrei-me agora de um exemplo paradigmático: o apelido «Portas». Não faço juízos de valor acerca de qualquer um deles, agora… O que está em causa neste momento é apenas a bi-polaridade dos nomes e a essência das elites.

Publicado por: Rafael em março 22, 2005 03:14 PM

felizmente que há países logo ali ao lado, a seguir ao oceano atlântico que não, que recusam a perpetuação das elites...

Publicado por: tchernignobyl em março 22, 2005 03:51 PM

... precisamente!! Estou convencido que o papel da América, como farol de desenvolvimento e padrinho (detestado mas real) do progresso mundial, resulta da ruptura que fez com as elites europeias.
É evidente que o tempo começará a fazer das suas... A natureza humana é universal, e a fossilização também terá tendencia a aparecer por lá.
Mas não haja dúvidas, não existe comparação entre o respirar informal, livre, e genuinamente democrático do «novo mundo» relativamente ao cinzentismo formalista de condes, doutores e engenheiros da europazinha a que Portugal pertence.
Está-se sempre a tempo de evoluir, e reconheça-se que tal tem acontecido. O audiovisual americano tem dado uma ajudinha! (bom, hoje pareço mesmo reaccionário... rsrsr... mas não sou! Antes pelo contrário).

Publicado por: Rafael em março 22, 2005 04:01 PM

É por outro lado notável que…… num momento em que todos admitem que a situação do país é grave e que o que interessa é discutir coisas importantes... como a IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez), para de seguida irmos à AOP (Abolição Obrigatória da Paneleirice), duas matérias que em pleno SÉC. XXI fazem sofrer terráqueos de ambos os sexos…INADMISSIVEL!
No último campeonato a esquerda perdeu para a direita, agora, e sem ressentimentos, vamos ver quem ganha… a desforra é a única questão de consciência de alguns políticos, como se tudo fosse um jogo sério…
Quanto à AOP, bem, penso ser um assunto muito sério, pois o nosso espírito latino é muito intempestivo (até pode haver mortes…), e não me parece justo admitir que em pleno séc. XXI ainda hajam gajos com vontade de apalpar os “ditos” de outros “men´s”, é demasiada safadeza…
É indecente que numa altura em que quase todos os povos do mundo já largaram a tanga, ainda haja uns quantos a suspirarem por esses tempos em que éramos todos “gorilas”…
A pré-associação para a AOP, faz um apelo aos portugueses e amantes dos bons costumes, para lutar por um referendo sobre a AOP, e estes que vão paneleirar para o estrangeiro ou em barcos acostados…

Publicado por: Xico em março 22, 2005 04:26 PM

Vanessa,

Só quem não quer ver é que não vê que o PS não pode votar a despenalização do aborto na AR. A ficção de Mario Soares de um «povo de esquerda» não passa disso mesmo, de uma ficção.

O PS não pode fazer uma desfeita dessas à igreja, teria demasiadas consequências eleitorais. A única forma de fazer com que a igreja aceite a despenalização do aborto, mesmo contrariada, é com um referendo. O Guterres, que tem tantas convicções como o Sócrates ou o Freitas (nenhumas), apercebeu-se muito bem do verdadeiro equilibrio de poderes no país quando do último referendo, há uns 6 anos.

Publicado por: Pedro Oliveira em março 22, 2005 07:29 PM

Pedro,
Concordo em parte contigo, que muita gente do PS não quer ver passar a questão da despenalização do aborto na AR. Acrescento o BE. POrque foi o BE, pela voz do Louçã que, na noite de 20 de Fevereiro, voltou a agitar a bandeira do referendo, como se esse fosse o problema de mais difícil resolução em Portugal...
Sobre o assunto, falemos claro: o Jerónimo de Sousa foi quem se portou melhor!

Publicado por: vanessa a. em março 22, 2005 08:05 PM

parece incrível que uma questão tão grave possa ser colocada em termos "formais" numa matéria acerca da qual existe um consenso tão amplo.
não haverá medidas que se possam ir adoptando na AR para acabar com uma situação tão iníqua?

Publicado por: tchernignobyl em março 23, 2005 10:15 AM

Consenso tão amplo? Se existe um consenso assim tão amplo, porque é que a AR não vota o assunto?

Até o Anacleto percebeu que não existe outra via que não passe por um referendo. Só o PC, que não tem nada a esperar dos lados da igreja é que insiste na solução voluntarista/vanguardista, aliás bem consequente com o seu leninismo de pacotilha.

De qualquer forma, mesmo em caso de aprovação da despenalização do aborto por referendo, perguntava outro dia um amigo meu, católico convicto e seguidor da doutrina da igreja neste assunto: «E então, se aprovarem a despenalização no referendo, faz-se outro daqui a seis anos, para saber se as pessoas não mudaram de opinião entretanto?»

Publicado por: Pedro Oliveira em março 23, 2005 11:06 AM

com efeito, talvez eu me engane quanto à amplitude do consenso, mas acredito que só uma questão formal impede que esse assunto seja tratado exclusivamente na AR.
Acredito que muita gente do PSD que até agora andou a engolir sapos em nome da coesão da "coligação" esteja agora mais livre para resolver o assunto.
De resto, o teu amigo católico tem toda a razão. E podes tranquilizá-lo que se a direita achar que tem condições políticas para voltar a trás através fá-lo-á de qualquer maneira, incluindo se necessário através de um referendo.

Publicado por: tchernignobyl em março 23, 2005 03:42 PM

Hum, consenso na assembleia, sem dúvida que existe. A dúvida é se o mesmo consenso existe na sociedade portuguesa...

Relativamente à tua divisão esquerda pró/direita contra a despenalização, penso que é simplista. Eu digo-me de direita e a favor da despenalização. Outros dir-se-ão de esquerda e contra a despenalização. Lembras-te do Tonecas?

Agora, fazer referendos cada seis anos...

Publicado por: Pedro Oliveira em março 23, 2005 06:56 PM

com certeza que a divisão é simplista.
é-o sempre.
mas penso que não se pode negar que "tendencialmente", a despenalização, não sendo daqueles assuntos fundamentais por onde à partida se suspeitaria que se fizesse a clivagem direita/esquerda, na prática funciona como tal.
a despenalização fará praticamente o pleno dos eleitores do bloco e do pc.
não acredito que a percentagem de votantes do ps que estará contra ( e fizeste bem em lembrar o tal tonecas ) seja tão significativa como isso, mas repara que essa percentagem deverá ser contrabalançada por igual percentagem de apoiantes do psd que estão a favor.
de resto convém sempre lembrar as circunstâncias particulares do anterior referendo.
Parece-me que aconteceu num pico de desmobilização política ( o pessoal estava descansado, era um período de crescimento e euforia consumista, entre as populações urbanas era tão consensual a realidade da despenalização que o pessoal foi para a praia deixando aos "outros" a tarefa de ir votar..., o ps liderado por guterres praticamente alheou-se do problema, o psd liderado por marcelo fez uma campanha activa contra...) que dificilmente se repetirá.

Publicado por: tchernignobyl em março 24, 2005 09:31 AM

Na minha opinião, nem devia haver referendo. O PS deixava-se de medos, passava a aprovação na AR e depois pagava a factura eleitoral. Isto era o que acontecia se existissem politicos a sério em Portugal, em vez de dinossauros leninistas (PCP), demagogos rasteiros (BE e PP)e oportunistas baratos (o resto).

Publicado por: Pedro Oliveira em março 24, 2005 10:56 AM

aí sim, excepto alguns detalhes de adjectivação até conseguia estar de acordo contigo

Publicado por: tchernignobyl em março 24, 2005 02:34 PM