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março 17, 2005

HISTÓRIAS DO ELEVADOR

Quando entrei no elevador do Lavra hoje, por volta da hora do almoço, apenas se encontrava presente a guarda-freio, uma bonita rapariga loira que respondeu com um sorriso ao meu cumprimento e me avisou que só desceria dali a dez minutos.
A visão agradável da rapariga a ler “a Bola” na outra ponta da carruagem, a pacatez do local e o calor da seca lembraram-me os preparativos de um piquenique numa tarde de Verão calmosa pelo que resolvi aproveitar o tempo até à próxima descida embrenhado na leitura de The dying animal, a minha introdução à obra do celebrado Philip Roth, em vez de descer logo as escadas a correr como acontece quando a presença de um guarda-freio “normal” desmobiliza a ”rêverie” e retira potencial evocativo ao momento.
Com o passar dos minutos foram chegando mais alguns passageiros, quatro ao todo: uma mulher com os seus trinta anos, cabelo loiro pintado e penteado liso e três homens de idade, um com ar de ex-aventureiro, cabelo e bigodes grisalhos, pele bronzeada e vestindo um “blusão de jeans”, os outros obedecendo mais ao modelo do reformado do bairro, desgastados, olhares tristes, roupas coçadas e anacrónicas, todos dando as boas tardes enquanto validavam os bilhetes.
Para que fosse completo o ambiente de aldeia no meio da cidade faltou apenas o canto das cigarras e uma sugestão de odor a esteva transportado numa brisa.
Tara civilizacional, na plataforma de cimento cá fora ouvia-se um homem a falar longamente ao telemóvel, dando ordens... contra-ordens, daqueles gajos que estão permanentemente a resolver “assuntos”... nhónhó, nhónhó, nhónhó... a versão moderna do alcatruz talvez, não sei se pelo chiar da roda se pelo zurrar do burro.
Finalmente ouviu-se um compressor, uma luz acendeu-se sobre o volante, a guarda-freio gritou com ar autoritário: “Ó senhor, afinal quer entrar ou não?” e o rapaz, obediente , acabou a conversa tele-móvel, entrou corado no elevador e a descida começou...

Publicado por tchernignobyl às março 17, 2005 06:32 PM

Comentários

Obrigado pelo retrato da minha "aldeia". Aqueles são os meus companheiros diários de viagem. A guarda-freio loura, é a minha guarda-freio.Também há um barrigudo e simpático e um esticadinho e um bocadito mal-humorado.
E garanto-te que, um bocadinho mais tarde, se em vez do elevador, desceres as escadinhas, lá mais para a Primavera, chegas mesmo a ouvir as cigarras.
E se vieres ao pôr do Sol, vais ouvir as gaitas de foles na Casa da Galiza.
Hoje estiveste na minha "aldeia". Volta sempre. Bem vindo.

PS: Isto é uma declaração de amor ao meu sítio. Parece-me que não o trocava por nada..

Publicado por: isabel em março 17, 2005 08:35 PM

Que história fascinante. Às vezes, na imprensa, lemos umas crónicas sem interesse nenhum. Nada que se compare com isto. Tenho pena que não haja mais pormenores sobre a mulher com os seus trinta anos que tinha o cabelo loiro pintado e penteado liso. Era comprido ou curto, o cabelo? E era daqueles cabelos pintados em que se vê a raíz preta ou topava-se só que era pintado por a cor ser muito artificial? Ah, inquietação...

Publicado por: Hélder Mântua em março 17, 2005 10:02 PM

ò meu chincila de merda e quem era a loira?

Publicado por: carapaudecorrida em março 17, 2005 10:08 PM

Hélder, é o que eu vinha pensando. Uma bela crónica de jornal, em suporte inesperado. E com final feliz. Para uma crónica.

Publicado por: fv em março 18, 2005 06:13 PM