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março 15, 2005

EINSTEIN NA PÚBLICA E EM PORTUGAL

No Ano Internacional da Física, a Pública deste fim de semana traz-nos uma excelente evocação de Einstein (que nasceu passaram ontem 126 anos), a não perder. Destaco um pequeno apontamento biográfico com dados e histórias menos conhecidos, uma colecção de citações, a história da famosa foto de língua de fora e um relato de uma brevíssima passagem por Lisboa, fez na sexta-feira passada oitenta anos. Na altura já era uma celebridade mundial, depois de a sua Teoria da Relatividade ter sido confirmada. Compare-se no entanto a recepção que Einstein teve em Lisboa com a que teve no Brasil e em Nova Iorque:

«Nos anos 20, Einstein já era muito famoso. Por onde quer que andasse, esperavam-no multidões. Da primeira vez que visitou os EUA, em 1921, foi cercado mal o navio chegou a Nova Iorque. "Foi recebido com uma torrente de perguntas sobre o seu trabalho por parte dos jornalistas que queriam descrições instantâneas, empacotadas e fáceis de compreender do que queria dizer, exactamente, a relatividade", descrevem Michael White e John Gribbin no livro "Einstein".
Na ida ao Brasil, o criador da teoria da relatividade também fez furor. A 21 de Março, "O Jornal" punha em título: "Passa hoje, no Rio de Janeiro, Albert Einstein, o maior génio que a humanidade produziu depois de Newton." No dia seguinte dizia: "Um génio com uma parcela de divindade."
Na segunda passagem pelo Brasil, "O Jornal" relatava, a 12 de Maio, tudo o que o físico fazia. "Einstein comeu, ontem, vatapá com pimenta", lê-se no título. Era lembrado o facto de a relatividade ter sido confirmada em território brasileiro, com a observação de um eclipse solar em 1919.
A passagem pelo Brasil não podia contrastar mais com a recepção em Lisboa. Tanto quanto se sabe, não foi recebido por ninguém, nem no dia da visita nem depois os jornais publicaram uma linha.
Talvez a forma como a visita foi ignorada pela imprensa reflectisse o desenvolvimento da ciência em Portugal e o interesse pela sua divulgação, apesar de a teoria da relatividade também ter sido confirmada em território português na época - na roça Sundi, na ilha do Príncipe.
Em 1919, só "O Século" terá noticiado a observação do eclipse, descobriu Elsa Mota, aluna de mestrado no Centro de História das Ciências da Faculdade de Ciências de Lisboa. Mas os astrónomos portugueses não acompanharam a expedição, ao contrário dos brasileiros. (...)
As ideias da relatividade tardaram a chegar a Portugal, um sinal da debilidade da ciência no país. (...)
Quando cá chegou, a relatividade teve entre os seus adversários o almirante Gago Coutinho que, com Sacadura Cabral, fez a primeira travessia área do Atlântico Sul, em 1922. Gago Coutinho assistiu à primeira conferência de Einstein no Brasil, a 6 de Maio de 1925, no Clube de Engenharia, e nesse mesmo dia publicou n" "O Jornal" um artigo de ataque à relatividade. Estava errada, achava ele.»

Um qualquer almirante aviador de boas famílias, mas sem nenhuma autoridade na matéria, "acha" que a relatividade está errada, e tem logo acesso a um jornal para publicar as suas sentenças. Assim, não admira que ninguém prestasse atenção a Einstein, tal como hoje não se dá o devido valor à ciência. Não há melhor retrato de Portugal (e da herança colonial portuguesa no Brasil, onde isto se passou) do que este. Foi a isto que séculos de governação efectiva por uma coligação entre oligarquias pouco esclarecidas e sem visão e uma Igreja Católica retrógrada nos condenaram. É o espírito da Inquisição que ainda prevalece.

Publicado por Filipe Moura às março 15, 2005 08:28 AM

Comentários

É espantoso como um qualquer professor Pardal emigrado, mas sem nenhuma autoridade na matéria, "acha" que a Igreja Católica é retrógrada e oposta à ciência, e tem logo acesso a um Blog para publicar as suas sentenças.

Se o Einstein ou Gago Coutinho estavam no Brasil, como poderiam ter estado na Índia, no Japão ou na China foi porque os Portugueses lá chegaram movidos pela Fé e força evangelizadora da Igreja Católica e do exemplo de HOMENS como Francisco Xavier e João de Brito.

Se há coisa que, de facto, pervalece, não é o espírito da Inquisição, mas a capacidade da Igreja católica de estar serena e discernidamente ao lado da ciência. Específicamente no nosso país onde a grande autoridade na Genética é um padre Jesuíta.

É a isto que um século de intolerância e anti-clericalismo primário e sem visão e uma esquerda caviar minoritária nos condenaram!

Publicado por: Miguel Nascimento em março 15, 2005 09:57 AM

ó Miguel Nascimento... essa "capacidade da Igreja católica de estar serena e discernidamente ao lado da ciência" não lembraria nem ao pároco aqui da aldeia! já ouviu falar dum rapaz particularmente teimoso chamado Galileu Galilei?... (talvez o exemplo mais conhecido dessa serenidade e descernimento)

Publicado por: JotaVê em março 15, 2005 11:00 AM

Meu caro senhor, Galileu Galilei viveu no século XVI e eu não vou perder tempo com alguém que resume as relacções da Igreja com a Ciência a esse episódio porque esse argumento deixa-me esclarecido sobre essa pessoa. Não me parece aceitável confundir Igreja com Inquisição nos dias de hoje. Sabe quantos Santos e figuras da Igreja foram perseguidos e condenados pela Inquisição? Mude-se para cidade porque a aldeia não fez só mal ao seu pároco...

Passe bem.

Publicado por: Miguel Nascimento em março 15, 2005 11:14 AM

"Um qualquer almirante aviador de boas famílias"... é nisto que dá a especialização das formigas, levada ao extremo: ignorância petulante e arrogância barulhenta.
Mas quem serás tu para te dares ao luxo de divulgar semelhantes disparates?
Tomara tu chegares ao fim da vida a pensar que contribuiste para o progresso da espécie tanto quanto este mero "aviador". Sei que não fazes ideia do que falo, como não fazes de nada que se afaste mais de um metro do teu umbigo, mas podes começar a tua educação por aqui.
Será que não tens um mínimo de bom-senso ou de bom gosto?

Publicado por: Aiai em março 15, 2005 11:31 AM

Por acaso, o "almirante aviador de boas famílias" até era filho de um sargento...
É preciso ter falta de pontaria, ó senhores "de esquerda"! E esta mania de catalogarem as pessoas pela sua origem social é digna de uma qualquer Bobone. Não vos fica bem.

Publicado por: Claire em março 15, 2005 11:57 AM

é a primeira vez que me tratam por "Meu caro senhor". Não gosto.
E eu não resumi nada! apenas dei um exemplo. Gostaria de ver um exemplo contrário desse lado, mas não apareceu nenhum. Talvez se lembre que apesar do episódio se ter passado no século 16, só no século 20(!!) é que o erro foi reconhecido.
A Igreja católica (e outras) tem tido ao longo da história, um papel importante em muitas coisas, mas desde que tomou como verdade absoluta as idéias de alguns filósofos gregos, combateu e até perseguiu muitos cientistas cujas idéias e/ou teorias contrariavam essas "verdades".
Além disso, a Igreja católica e a Inquisição não são separáveis. E em Portugal, a Inquisição só acabou no século 19.

Publicado por: JotaVê em março 15, 2005 01:10 PM

A culpa é da ICAR? Da Inquisição?
Olha acorda lá, abre os olhitos e como ele foi recebido na obscura e oligárquica Espanha de 23: recebido pelo Rei, notícias abundantes e até cartoons. Vais ter de arranjar outro culpado...

Publicado por: UUI! em março 15, 2005 01:57 PM

Obviamente, Filipe Moura ainda é o sentimentalista que gosta de repetir as histórias exactamente como lhas contaram nas aulas de física, se as teve. E não lhe faltam amigos para concordarem com ele, e connosco também, que é a terra que anda à volta do sol. No entanto, se ele está preparado para rejeitar dogmas antigos e extremistas no campo da política de esquerda, o que é que o impede de navegar em águas menos estagnadas para obter um retrato moderno e realista do cientista que venera? E já que está em Paris a gozar as delícias da cultura franca, pode aproveitar para comentar este excerto que saiu no L’Express em Novembro de 2004 e um pouco por todo o mundo muito antes e depois:

“Poincaré, qui a prolongé et étendu les travaux de Lorentz en le citant honnêtement, est bien l'inventeur de la théorie de la relativité. Autre fait incontestable: dans son fameux article de 1905, Einstein ne cite ni Lorentz ni Poincaré - pas plus, d'ailleurs, qu'il ne rendra justice à l'Allemand David Hilbert dans son premier article de 1916 sur le débat autour de la relativité générale (2). Certes, l'exposé d'Einstein est plus clair, mais il est facile d'être plus clair lorsque la découverte est déjà faite. Certes, Poincaré a volontairement ignoré le travail d'Einstein et s'est contenté d'un échange un peu vif avec lui au congrès Solvay de 1911, mais beaucoup de scientifiques plagiés comprendront cette réaction. Bref, Einstein était indélicat.”

Publicado por: Belle de Jour em março 15, 2005 03:13 PM

Obrigado, Filipe. Alguém que escreve: "passaram ontem 126 anos" e não: "há 126 anos atrás" como escreveria o Miguel Sousa Tavares merece todo o meu apreço. Bem haja.

Publicado por: afonso salgueiro em março 15, 2005 07:39 PM

Sim, Miguel Nascimento a igreja está ao lado da ciência! basta ver como trata a questão das doenças sexualmente transmissíveis, apregoando o "acto contra natura" que é a utilização do preservativo. E mais, quando existem bispos em Africa a dizerem que os preservativos nao funcionam, que têm "pequenos buraquinhos por onde passam os virus" e não vê qualquer reacção por parte do "Santo Padre" e seus compadres, enquanto vão morrendo milhares de pessaos e outras tantas vao ficando infectadas por causa da grande sabedoria da Igreja. pois.. pois..

Publicado por: Rodrigo em março 15, 2005 11:28 PM

Peço desculpa pelos erros ortográficos no post anterior, mas o meu teclado e a pressa de escrever não trabalham muito bem juntos...

Publicado por: Rodrigo em março 15, 2005 11:31 PM

Tantos comentários!

Belle de jour, comecemos por ti. Não me vou pronunciar sobre os "dogmas de esquerda" que terei rejeitado - o que conhecerás do meu pensamento político? - nem sobre as aulas de Física que "eventualmente tive" (esta é boa). Nem sobre essa rivalidade póstuma entre o Poincaré e o Einstein. Para isso precisava de ler todos os artigos originais. Deixo esse trabalho para os historiadores da ciência. Agora não há dúvida de que o Poincaré foi um génio e que merecia maior reconhecimento. Por outro lado esse parágrafo do L'Express soa-me a chauvinismo.

Sabia perfeitamente que a expressão "qualquer almirante aviador de boas famílias" aplicada a Gago Coutinho era provocatória, mas era para ser lida num certo contexto. Nenhum dos atributos do seu currículo lhe dá autoridade para escrever artigos no jornal a dizer que a Teoria da Relatividade "está errada", por muito que seja filho do sargento e por muito brilhante que seja o seu trabalho noutras áreas como a geografia, cartografia ou náutica. Imagino qual seria a reacção de Einstein ao saber de tal artigo... As pessoas não percebem que estas histórias - e há-as, várias -, não dão credibilidade ao país, todo.

Miguel Nascimento, não me vou pronunciar sobre o professor Luís Archer pois não conheço em profundidade a sua obra. Não duvido nem um pouco da sua competência científica, mas a tua afirmação de que ele é "a maior autoridade portuguesa em genética" carece de fundamentação. Não a contesto (não sei); digo-te é que tens de a provar. E nota que ser padre jesuíta, em ciência, não conta para nada e nem dá "autoridade" nenhuma.

Noto um certo "espírito de inquisição" quando falas em eu "ter acesso a um blogue", vê lá tu bem! Olha, e tu tens acesso aos comentários. Se a Inquisição estivesse em vigor, não teria acesso ao blogue de certeza.

Eu falei na Igreja Católica em geral. Devo ressalvar que há, felizmente, excepções importantes. Tive a honra e o prazer de ser aluno de uma dessas excepções, um homem verdadeiramente excepcional, o prof. João Resina Rodrigues. Mas mesmo considerando homens como ele, a tua referência à "capacidade da Igreja católica de estar serena e discernidamente ao lado da ciência" é para rir. Só pode. És um pândego, Miguel...

Publicado por: Filipe Moura em março 16, 2005 01:15 AM

Tudo acaba por ser uma questão de conhecimento ou desconhecimento do que se discute. Estando nós a comunicar através da Internet, seria até ofensivo dizer o que segue, mas alguns dos comentários – e o texto do Filipe – justificam a enunciação do óbvio: as posições da Igreja Católica relativamente ao corpo, métodos e resultados das ciências teóricas, naturais e humanas estão à disposição de quem as quiser consultar. Estão a segundos de distância para aquele que ainda não desistiu da sua honestidade intelectual.

Não tendo eu tempo nem pachorra para agora fazer a papinha aos meninos, relembro só uns factos sobejamente públicos: diversas instituições relacionadas com a Igreja Católica (universidades, hospitais, laboratórios), por inspiração ou filiação, estão na vanguarda (ou no andamento) dos avanços científicos no campo da medicina.

Porquê a medicina e não a física teórica ou a geologia, por exemplo? Porque o projecto católico é o da misericórdia, compaixão, ajuda ao próximo, defesa absoluta da vida. Muito simples, na verdade.

Mas a aselhice dos que insistem no fantasma caquéctico da Inquisição, e conseguem nomear Galileu sem serem capazes de enunciar um só nome daqueles (dezenas? centenas? milhares? milhões?) que contribuíram para a ciência sem nunca terem abandonado a fé ou terem sido castigados (pois os tempos eram outros, os locais eram outros, os processos foram outros – e tudo isso é humano, e a Igreja também é humana; razão dos seus erros e das suas glórias) atinge o paroxismo quando olhamos para o elenco dos cursos que a Universidade Católica Portuguesa, mesmo aqui ao lado, ministra – diversas engenharias, medicina, microbiologia e bioinformática, por exemplo. Chega? Não, não chega, pois é o próprio conceito de "universidade", centro de saber, que vai para a fogueira dos novos (e ignaros) inquisidores. Nem as ciências humanas escapam, quando o retrato da Igreja tem como data 22 de Junho de 1633 (como se não houvesse ciência a nascer pela mão da Igreja antes e depois, num total de dois milénios marcados pelo nascimento da Europa e da recuperação dos legados judaico, grego, romano e árabe durante a já desmontada "Idade das Trevas").

Só quem nunca teve experiência do que se passa na UCP é que se permite delírios obtusos. Um exemplo: o Curso de Teologia (supostamente, na bolorenta lógica dos novos inquisidores, o curso mais "retrógrado" possível) forma licenciados com um espírito crítico que deixaria corados de vergonha os que continuam a olhar para a Igreja com bovino fácies. Vocês (enfim, o carapuço a quem ele servir) não fazem a mínima ideia do modo rigoroso, lúcido, implacável, positivista, como se investigam as temáticas religiosas e teológicas no seio da própria Igreja.

Não sabem, nem querem saber. Aqui entre nós, a insciência não dá vontade de rir.

Publicado por: Valupi em março 16, 2005 04:08 AM

O artigo é muito interessante porque:


Publicado por: Dr Strangelove em março 16, 2005 09:25 AM

Valupi:
até que enfim que discordo de ti!
o facto de a UCP ministrar inúmeros cursos científicos de cuja excelência não duvido, tem pouco a ver com o que eu e (alguns) outros comentaram. Bem como o facto de terem existido (e continuarem a existir) pessoas religiosas que foram (são) cientistas de topo não certifica a Igreja Católica como uma instituição "serena e discernidamente ao lado da ciência".
As religiões (em geral) tendem a pretender ser detentoras de verdades absolutas e imutáveis e isso é claramente pouco científico e um entrave às idéias novas.

Publicado por: JotaVê em março 16, 2005 09:27 AM

Meus caros, não vejo como defender a Igreja Católica, ou qualquer outra religião, em questões de ciência. Certamente que há exemplos, e muitos, de homens de fé que contribuíram decisivamente para o avanço da ciência. O próprio Einstein, poderia ser algo desalinhado mas era um homem de fé em Deus. O exemplo mais interessante que me vem à cabeça até é Georges Lemaître, ainda do início do século XX, se bem que podemos sempre referir Mendel.

A grande diferença é que estes homens e mulheres fizeram o que fizeram por si, não por motivação imediata da sua religião. Ou seja, a religião, ou a sua filosofia, não foram as responsáveis pelos avanços científicos. O ínico responsável foi o espírito crítico e de curiosidade que cada indivíduo tinha.

Porque razão falo da filosofia religiosa? Simplesmente porque toda e qualquer filosofia religiosa é feita de dogmas. As religiões mais inteligentes vão, de tempos a tempos, mudando os seus dogmas, tal como aconteceu com a ICAR que rejeitou o criacionismo como facto e o adoptou como metáfora ou símbolo. Aliás, depois do Vaticano II a ICAR soube adaptar-se muito melhor ao mundo moderno.

É na contestação aos dogmas que surgem os avanços científicos. Note-se que já muitos poucos cientistas usam o termo "Lei" para qualquer teoria. Sobreviverá a Lei da Gravitação Universal e poucas mais. O resto são teorias ou mesmo postulados. A ciência foge dos dogmas porque, um dia, pode surgir algo que os conteste. É assim que avança. A religião não o faz, a religião abraça os dogmas porque é assim que avança.

A religião sustenta o espírito, o coração, a "alma", se quiserem. A ciência sustenta a mente, o cérebro. Até nem deveriam andar em conflito, coisa que só muito recentemente começam a aprender, mas o conflito que tiveram no passado não é de desprezar: o ressentimento de hoje vem do passado. Por isso, o melhor a fazer é assumir que no passado a religião teve um papel castrador da ciência, mas que tem sabido corrigir esse erro, aos poucos e poucos e que, no futuro, os avanços até poderão surgir de espíritos serenamente em paz com ambos os lados.

Agora, caro Miguel Nascimento, não desprezemos o que se passou com Galileu - que até teve sorte - ou outros cientistas. O Miguel também falou dos descobrimentos portugueses e esses não correram exactamente nas últimas décadas...

PS - para quem possa ter curiosidade, sou ateu.

Publicado por: João André em março 16, 2005 11:18 AM

JotaVê, muito bem, é sempre bom discordar (pois há ocasião de aprendizagem para mim, pelo menos). Nesse sentido, também discordo de ti. O tema é o da relação da Igreja Católica com a ciência. O texto do Filipe veio com o estafadíssimo espantalho da Inquisição, depois apareceu o inevitável Galileu e por fim questionam-se graus de serenidade Tudo isto é absurdo.

É absurdo continuar a ir buscar a história da Igreja sem trazer com ela a análise historicista. Ninguém discute o atraso com que a Igreja Católica reconheceu erros ou a demora em aderir ao espírito da ciência experimental. E há "boas" razões para tal ter sido assim (razões cujo entendimento apenas requer cultura geral e escolaridade obrigatória). Mas também ninguém deveria hoje pôr em causa o integral compromisso da Igreja para com o desenvolvimento científico; como manifestação dos dons de Deus, até. Basta atentar na parafernália de testes científicos que são aplicados quando está em causa validar um pretenso milagre. A referência à UCP foi apenas um exemplo, entre milhentos.

Em conclusão, se é verdade que o paradigma religioso, a sua mundovisão, os critérios doadores de sentido, apresentam algumas áreas absolutamente incompatíveis com a racionalidade científica, tal (no caso da Igreja Católica) não impediu um progressivo discernimento das evidências. Mas há mais. A história da Igreja, tal como o caldo espiritual judaico, é pilar do conhecimento científico, esse que hoje prova a evolução e vai a Marte.

Dr. Stangelove, confundes a árvore com a floresta. Portugal não é a Igreja Católica. Portugal estagnou, sim, e um dos principais factores até foi a expulsão e abafamento da comunidade judaica (um exemplo notável da feliz casamento entre espiritualidade e capacidades intelectuais as mais variadas) . Outras razões há, do foro politico e sociológico, e é toda uma comunidade que é responsável. Recomendo o último de José Gil. E não te iludas, defender a Igreja Católica é ser ecológico, é defender uma espécie em extinção.

João André, concordo no essencial. Só um reparo: na Igreja não há hoje o mínimo desconforto com a validade dos resultados científicos. E mais uma nota: deve-se ao método de ensino e tratamento intelectual próprios da Igreja muitas vocações científicas de excelência.

Publicado por: Valupi em março 16, 2005 05:32 PM

A "parafernália de testes científicos que são aplicados quando está em causa validar um pretenso milagre"??
Isso é a sério, ou trata-se de fina ironia? Atente-se no caso da suposta miraculada Maria Emília Santos, tão útil à causa dos videntes de Fátima: sem história clínica fiável, apontada como delirante mesmo pela família... e personagem/autora de uma fábula engolida pela "exigente" ICAR.
Ou olhemos para a edificante história de Monica Besra, agraciada com favores divinos através da Madre Teresa, sendo-lhe curado um tumor... que até estava a ser tratado num hospital. Mesmo o marido da mulher denunciou inicialmente a fraude (claro que trataram logo de lhe oferecer uma viagem a Roma e outras prebendas).

Haja vergonha antes de apontar como virtudes falhas de carácter e óbvias fraudes.

Publicado por: Pensativo em março 16, 2005 06:28 PM

Há fraudes em todos os domínios da actividade humana, ainda mais num campo tão dado ao desvario esquizofrénico e psicossomático como o é a religião. Mas daí não se conclui a invalidade do argumento.

Ou achas que a Igreja tem interesse em promover santidades à la carte, só para cair no completo descrédito minutos depois? Eles podem estar redondamente enganados (ao terem fé e assumirem o credo) mas não são imbecis.

Um tribunal, respectivo juiz e advogados implicados num dado caso, não podem todos incorrer numa decisão errada? Os médicos são todos infalíveis e infalíveis em tudo? Aquele que detém a máxima informação está por isso imune ao erro interpretativo? Se isto é assim, e assim o aceitamos por ser inevitável, porquê continuar com a patética acusação de que os católicos são os maus da fita?

Responde lá a esta, Pensativo: por que razão todos falam dos casos em que a Igreja suscita dúvidas (algumas legítimas, outras meros coices ideológicos) e ninguém se pronuncia em relação aos casos em que a Igreja presta um serviço gratuito, e verdadeiramente inestimável, à população mais miserável ou em estado de qualquer carência? Para cada episódio em que lá vem a romaria dos pistoleiros do anticlericalismo há milhões de outros em que foi graças à Igreja que pessoas salvaram as suas vidas, recuperaram a dignidade, encontraram um sentido para a existência (sentido este não necessariamente relativo ao catolicismo ou ao cristianismo, ou mesmo à religião em geral).

Aproveito para fazer uma declaração de interesses espirituais: não sou católico, nem cristão, nem sigo qualquer religião oficial ou identificável. Não passo de um amigo da verdade.

Publicado por: Valupi em março 16, 2005 06:58 PM

Olá. Sou uma colega do Filipe, física, portanto. Tive também aulas com o prof. e padre Resina Rodrigues. A nivel espiritual: católica. Daquelas criaturas horríveis ;) que até vão à missa todos os Domingos e tudo (horror! :P ) A nível de personalidade, brincalhona, mas dada ao vício solitário de pensar... A frase que usas, Filipe, é suficientemente ampla para não poder concordar com ela nem discordar dela. A Igreja teve quem prejudicasse o avanço da ciência (mas também quem ajudasse ao seu avanço, como os jesuítas que em plena "Expansão" (à falta de melhor termo) diziam que os missionários que pretendiam ir pregar aos Orientes precisariam de adquirir melhores conhecimentos de matemáticas, pois já nesse tempo as nossas falhas nessa área eram confrangedoras). A Inquisição, como suponho que entre vós seja sobejamente conhecido, foi um instrumento de poder aproveitado por clérigos e não-clérigos. Mas também podemos citar Copérnico, Mendel e outros clérigos dados às ciências.

Parece-me, contudo, que não foi a Igreja Católica a principal causa da estagnação científica em Portugal. (Nota que não digo que não teve nenhuma participação, apenas que não foi a principal). Como foi aqui bem referido, a expulsão dos judeus foi um dos factores. Depois, o aburguesamento (novamente, à falta de melhor palavra) de umas pseudo-elites que julgam poder falar de tudo, mesmo do que não sabem, pelo simples facto de serem "gente importante" (uma das coisas que o curso de Física me ensinou é que já não é nada mau descobrir que não se sabe o que se julgava saber). Depois ainda, e perdoa a ousadia de ignorante, parece-me que a expulsão das ordens religiosas pelo Marquês do Pombal também não ajudou muito.

Tenho descoberto das pessoas mais críticas da sociedade e menos aborregadas que conheço entre os praticantes católicos (mérito, talvez, de estar em Lisboa e aqui já não ser tão comum ser-se praticante por arrastamento social). Talvez seja natural: quando o nível de educação e discussão aumenta, a atitude muda. Na Igreja e na sociedade.

Publicado por: Tânia em março 16, 2005 08:11 PM

Querida Tânia, é muito bom ter-te aqui. Um beijinho grande (passa a contradição).

Para a Tânia e para o Valupi: eu tendo a ver a influência da Igreja Católica em Portugal como a via o Antero de Quental, já há mais de cem anos (como referiu o Dr. Strangelove, a quem agradeço). Fiquei com vontade de voltar a este tema no futuro, e então poderemos voltar a debater. É possível que esteja a ser parcial. Cá estarão vocês e outros para julgar. Mas não sou um anticatólico primário e, Valupi, dou-te razão nos argumentos do teu último comentário.

Queria só avisar-te, Valupi, que o "Pensativo" e o "Aiai" são a mesma pessoa, ou pelo menos escrevem do mesmo computador. O Aiai é o meu contraditório habitual (contraditório é um grande eufemismo... o meu emplastro, o homem não falha um post meu); o Pensativo foi o que te acusou, uns posts acima (passo a citar) de "não passares de um fruste traste a passear a sua pomposidade por blogues alheios". São palavras DELE, note-se. Percebes agora por que ele usa pseudónimos diferentes, consoante o tipo de comentário, Valupi?

Publicado por: Filipe Moura em março 17, 2005 12:35 AM

Obrigado, Filipe. Bom, isto das interacções na Internet é um contínuo psicodrama. Eu tento não me envolver pessoalmente, pois considero que não estou a lidar com pessoas, mas com "personas" (sendo "eu" também uma delas, óbvio). É o lúdico que importa, o resto é patologia ou mero disparate.

Sobre a Igreja Católica, o que me faz ferver é a contradição de se usar contra ela estratagemas que nela se pretendem denunciar. Diz-se que a Igreja é conservadora e retrógrada. Porém, a visão que se tem dela é ultraconservadora e neo-retrógrada – porque não atende aos factos, nem os passados nem os presentes. Sim, claro, à luz da modernidade e da contemporaneidade, a Igreja até ao Concílio Vaticano II parece um coio de atrasados. É inevitável alinharmos com as críticas mais ferozes, as quais fazem análises relevantes e fundamentadas. Só que... os críticos, qualquer crítico, nunca contam a história toda, são também vítimas do seu tempo. No caso aqui na conversa citado, Antero ao criticar a Igreja está em concomitância a dialogar com o seu ideal germanófilo e panteísta. Seguí-lo acriticamente pode ser um suicídio intelectual.

A questão, para mim, está em que as opiniões relativas à Igreja são usualmente brutais simplismos, nascem de banais e gastos preconceitos, ignoram a realidade documental e vivencial. Por exemplo e para dar um exemplo próximo e fácil, será que o insuspeito Frei Bento Domingues não pertence à Igreja Católica? A pertencer, será que não a representa de alguma forma? A representar, será que ele permite que o rotulemos de tacanho, inculto, fanático, ultramontano? Pergunta final: fazem ideia de quantos religiosos católicos partilham da visão dele e até a ultrapassam em radicalismo renovador?... Pois é. A Igreja não é só o Vaticano, e o Vaticano não é apenas uma "força de bloqueio" – é também um bloqueio de forças centrífugas, as quais rapidamente dissolveriam a instituição no nada.

A laicidade tem de fazer contas à vida. Se permite a existência da religião, cujos paradigmas não são democráticos nem tecnocientíficos na essência, então não castigue a religião por ser o que é. A religião é uma de duas coisas: uma ilusão condenada ao desaparecimento ou um acesso a dimensões outras dentro de uma dinâmica evolutiva cujo sentido ninguém consegue circunscrever. Pelos frutos ficaremos a saber.

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Gostei muito da delicadeza, profundidade, amplo respiro do texto da Tânia.

Publicado por: Valupi em março 17, 2005 06:09 AM

Valupi:
Olha que, lá em cima, eu até defendi a ICAR deste ataque impensado. Nada me move contra ela, antes pelo contrário.
Perguntas-me se "a Igreja tem interesse em promover santidades à la carte, só para cair no completo descrédito minutos depois" ; ora tal nunca poderá acontecer, pois eles sabem bem contrapor e separar o "plano da Fé" da reles mundividência... quando lhes dá jeito, isto é. Claro que o caso da miraculada portuguesa foi desmascarado, em todas as suas pertinentes e imensas dúvidas, de imediato. Resultado? Nenhum. Da mesma forma, o caso da Sr.ª Besra deu também muita polémica, na altura. Resultado? Pois.
Falas depois em erros. Mas não me parece, de todo, que seja o caso nestes dois exemplos. Tratou-se antes de aplacar um Papa sequioso de milagres e de validação dos seus pontos de vista sobre Fátima e sobre a Madre Teresa. Fraude grosseira e nem muito bem disfarçada.
Claro que eu, como vago católico, não aceito que os católicos sejam "os maus da fita". Mas não deixo de lamentar a procissão de infelicidades que tem marcado o seu convívio com a Ciência. Trata-se, inegavelmente, de uma infeliz tendência, geral e reiterada.
Quanto às benfeitorias da ICAR, não me viste negá-las ou sequer apoucá-las com a costumeira acusação de proselitismo interesseiro.
Mas olha que Frei Bento Domingues não "pertence à Igreja Católica". Nem a "representa". Igreja somos todos nós; a ninguém cabe o ónus ou a glória de lhe pertencer ou de a representar. Recorda o significado primevo de "ecclesia"...


Quanto ao aviso do Felipe, julgo que não precisas de tais tontices. Que ele desvele algumas das minhas inofensivas máscaras vale o que vale; já eu admiti livremente tal coincidência de identidades, nestas páginas. No entanto, esse pormenor de escrevermos "no mesmo computador" é cómico, vindo de um cientista; não fará ele mesmo ideia do que são "proxy servers" e de como são usados por quem procura privacidade?

Publicado por: Pensativo em março 17, 2005 12:05 PM

Pensativo, eu não me permito teses conspirativas, como essa do Papa estar sequioso de milagres e haver um intento colectivo de o satisfazer na luxúria milagreira. Até pode ser a verdade, mas não tenho a mínima indicação disso; que provado seria um escândalo como não há memória. Seria o fim do que resta da Igreja.

Outra é a minha compreensão, que vê na problemática da validação de um milagre questões que remetem para a epistemologia, a psicologia, a antropologia. Errar é humano e demasiado humano. A temática do sobrenatural permanece dimensão inacessível às tecnologias, que têm sistematicamente desconstruindo os pretensos casos ou que os levam para reformulações onde as causas são naturais. Há que dizer o óbvio: tudo o que é imaginação desintegra-se perante o olhar científico. As colossais consequências deste modelo de racionalidade positivista ainda não se fizeram sentir nos pilares culturais ancestrais, religião e política. Mas virá o tempo.

Contudo, não vejo conflito algum entre a prática e teoria da Igreja na sua relação com a ciência. Parece--me ao contrário, a Igreja a promover o conhecimento científico. A nota mais "polémica" será a da tentativa de regulação ética de algumas questões. Essa é uma circunstância inevitável pois qualquer religião é simultaneamente um projecto político, uma vontade de poder.

E finalmente, o nosso Frei Bento. Se calhar, estás a agarrar-te à semântica. De facto, a representação da Igreja não se reduz a uma pessoa, nem sequer ao Papa. Será um Corpo comunitário e um Corpo místico. Mas é por essa mesmíssima razão que o Frei Bento, como qualquer outra pessoa ordenada ou leiga, representa o todo na parte. Que haja múltiplas e multifacetadas representações do mesmo, eis a glória e mistério da existência.

Publicado por: Valupi em março 17, 2005 03:59 PM