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março 14, 2005

OS LUCROS E O DESEMPREGO

Leitura recomendada: artigo de Rubem de Carvalho, no DN.

Os sindicatos franceses denunciam que mais de 60 mil milhões de euros de lucros serão este ano distribuídos aos accionistas, enquanto patina o investimento produtivo e gerador de novos postos de trabalho.

Situação semelhante se passa na Alemanha, mas, em dimensões inquietantes, nos Estados Unidos. A política fiscal da Administração Bush proporcionou aos grandes conglomerados lucros gigantescos e favorece a sua distribuição aos accionistas e dirigentes, que por sua vez os destinam maioritariamente a aplicações financeiras. A generalização da atribuição aos altos quadros das empresas de remunerações sob a forma de acções tem agravado uma espiral especulativa em que os lucros são investidos na compra de novas acções assim valorizadas em bolsa e gerando um efeito multiplicador de mais-valias sem qualquer base ou reflexo no tecido produtivo.

Acresce ainda que tal prática incentiva os gestores de topo a privilegiarem os resultados a curto prazo, de que directa e imediatamente beneficiam, em prejuízo do médio e longo prazo, o que sempre se reflecte ainda no esmagamento da massa salarial e despedimentos.

Publicado por Filipe Moura às março 14, 2005 11:25 AM

Comentários

É o capitalismo. O caminho tem de ser noutro sentido.estrelinha ajuizada

Publicado por: vermelho faial em março 14, 2005 01:30 PM

De acordo Filipe, falta aí alguma recompensa aos trabalhadores, mas essa já existe na Alemanha. Na Alemanha, pelo menos nas firmas com acordo com a IG Metall, há um sistema de salários que se baseia no desempenho da empresa. Se a empresa tiver bons resultados, os salários base dos trabalhadores sobem. No caso de maus resultados, vêm até ao patamar inferior. De notar que não podem descer abaixo de determinado valor.

Exemplo: um engenheiro, na empresa onde fiz estágio (portanto não estava abrangido pela mesma tabela salarial), ganharia cerca de 2500 euros mensais brutos no mínimo e 3000 euros mensais brutos no máximo. Pelo meio havia ainda um ou dois outros patamares.

Seja como for, comvém lembrar que este sistema de distribuição de lucros também beneficia o mercado de uma forma geral. O dinheiro que é distribuído irá depois ser aplicado ou em empresas, dando-lhes assim mais fundos para investimentos, que até podem ser aplicados em contratações, ou em produtos, dando assim mais lucro às empresas que vendam os ditos produtos, bem como às empresas que dependam daquela.

Claro que nem 8 nem 80. A forma correcta seria colocar os trabalhadores (leia-se operários ou trabalhadores menos qualificados) como beneficiários da distribuição de lucros ao mesmo tempo que se tenta fazer essa mesma distribuição de acordo coma tabela salarial base da empresa.

Publicado por: João André em março 14, 2005 01:49 PM

Não deixa de ser divertida esta indignação com as remunerações dos gerentes e, em simultâneo, como se fossem coisas similares ou comparáveis, com as dos accionistas.
Mas diga-nos o furibundo cronista: sem accionistas, sem donos de empresas, sem gente disposta a arriscar o seu dinheiro num empreendimento, que empresas e que empregos surgirâo?
Os accionistas são, com efeito, os donos das empresas; e quem decidirá por eles onde e como serão aplicados os lucros das suas empresas? Os sindicatos? O PCP?

Publicado por: Carlinhos Marx em março 14, 2005 02:09 PM

Carlinhos, é mais ou menos isso. Defendo empresas mais democráticas, onde os trabalhadores tenham mais poder. Não quer dizer que sejam geridas pelos sindicatos, mas os trabalhadores devem ter sempre uma palavra a dizer.

Publicado por: Filipe Moura em março 14, 2005 05:56 PM

Este blog tem tantos admiradores do capitalismo entre os seus leitores que às vezes até ficamos admirados por que carga de água é que eles vieram parar a estas bandas da esquerda. Não foi certamente pelo cheiro a açúcar, porque eles são tudo menos moscas. Então porque é que será? Falta de conversa, ou simples dever de manifestarem gratidão em relação a um patronato que lhes paga nos bons euros que vêm fortalecer as suas crenças em sistemas económicos que se revitalizaram depois do afundamento do comunismo europeu? Para mim, perdido neste nevoeiro de conversa pouco lucrativa, apenas me apetece dizer que o capitalismo não está interessado em fazer a vida mais doce ao trabalhador, seja especializado ou não. Se não houver lucro chorudo, não há humanismo capitalista, meus senhores. Nem humanismo, nem investimento, nem vontade de investir. Um capitalista moderno nunca arrisca capital. Pode arriscar o coiro dos trabalhadores, muitas vezes por interposta pessoa ou organização especializada em aplicação de capitais. E quanto maior é o capitalista menor é o risco. O capitalismo tem tanta vocação para investir sem perder que até investiu na Revolução de Outubro. Além disso, há tanta gente especializada em evitar desastres na área do investimento que até faz rir ler “economistas” como o engraçado do carlinhos. Uma empresa que se decida por um esquema de participação nos lucros sabe muito bem que recuperará qualquer investimento ou perda de tempo com um aumento de produtividade. É uma maneira de fazer mais dinheiro passando por boa pessoa. E quando a isso recorrem, imitando ideias que já foram postas a correr no tempo do New Deal, velhas portanto como o cagar de cocas e inventadas para evitar o fervilhar de marxismos e sindicalismos entre os trabalhadores, os bónus distribuidos são sempre distribuidos liberalmente e de várias formas entre os papagaios de gravata mais bem pagos pela empresa – os quadros, ou lá o que lhes chamam. A classe operária pode sentir-se feliz com mais umas coroas, mas sai-lhes do pêlo e aproveitam muitas vezes para sair do partido comunista ou socialista e comprarem um carrito melhor. Mas daí a vir-se com palavras "novas" para se relançar o capitalismo como a única via tragável de sociedade é bater uma tecla que nem está velha nem gasta: está podre. Podre, mas ainda capaz de convencer muitos socialistas de terceira que nem sabem por que é que são socialistas. Essa virtude pelo menos não lhes vou roubar. Mas não a apliqueis convencidos de que não há ninguem a sorrir quando os vê a largar postas de pescadas económicas nesta blogosfera...

Publicado por: Kropotkine em março 14, 2005 09:26 PM

Kropotkine: pela enésima vez, ser de esquerda não é sinónimo de ser comunista.

Além disso, dizer que os capitalistas não arriscam nada é não perceber nada do capitalismo. O sistema em si poderá não arriscar e, de facto, não o faz, o dinheiro está dentro do sistema a circular, mas os captalistas, individualmente, arriscam.

PS - não que eu seja um adepto do capitalismo puro e duro, atenção...

Publicado por: João André em março 14, 2005 11:47 PM