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março 10, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Do poeta, crítico e ensaísta americano Dana Gioia, um poema do livro «Interrogations at Noon» (Graywolf Press, 2001):


A ARANHA NO CANTO

Tarde fria: chuva a bater nas janelas,
a humidade espalhando-se devagar como bolor
na pobreza da cinzenta luz de Novembro.

Mais um dia de livros e planos furados,
de cigarros e imobilidade
em salas pequenas demais para nós. É tão pouco

aquilo de que ainda podemos falar, além do tempo.
E assim toleramos o silêncio
como a aranha no canto que nenhum

de nós matará. Sim, o umbral murmura.
Mas nós ficaremos ― até que o tempo abra,
esta chuva interminável que nos mantém juntos aqui.

(Tradução de JMS)

Texto original:


SPIDER IN THE CORNER

Cold afternoon: rain splattering the windows,
the dampness spreading slowly like a mold
in the poverty of gray November light.

Another day of books and spoiled plans,
of cigarettes and sitting still
in rooms too small for us. How little there

is left to talk about except the weather.
And so we tolerate the silence
like the spider in the corner neither one

of us will kill. Yes, the doorway whispers.
But we will stay ― until the weather clears,
the endless rain that keeps us here together.

Publicado por José Mário Silva às março 10, 2005 12:55 AM

Comentários

salvam de quê?

Publicado por: Jonas Baptista em março 10, 2005 03:40 AM

É uma rubrica. O título da nossa rubrica de poesia.

Publicado por: José Mário Silva em março 10, 2005 10:06 AM

Who Is Dana Gioia?
He's a poet, a businessman, a Northern Californian and President Bush's choice to head the National Endowment for the Arts

Publicado por: Joca em março 10, 2005 10:57 AM

E depois, Joca, e depois?

Publicado por: José Mário Silva em março 10, 2005 12:46 PM

Gostei de conhecer.

Publicado por: Valupi em março 10, 2005 04:06 PM

Irónico não poder deixar de pensar que não chove há meses, desesperante já não haver mais nada para dizer.
Mas afinal, talvez estes versos ainda nos possam salvar, "dos livros e dos planos furados", ou melhor, do "silêncio como a aranha a um canto".
:-))

Publicado por: gsas em março 10, 2005 04:33 PM

Olhem que me parece que o "mold"original corresponde a "bolor"...

Publicado por: Pensativo em março 10, 2005 07:18 PM

Era uma possibilidade, Pensativo. Nesse caso, porém, o verso deveria terminar com «...spreading slowly like mold» e não «like a mold». Não acha?
O certo é que eu próprio hesitei entre as duas hipóteses. Gostava de ouvir mais opiniões.

Publicado por: José Mário Silva em março 10, 2005 07:56 PM

Através do Google, encontramos usos da palavra em frases como "Cancer spreads like a mold", "has a smeared appearance, but is not fluffy like a mold", "it is like a mold that we found in the shower walls", etc. Aliás, em Português, também se usa por vezes a expressão "um bolor" em vez do simples "bolor"... ("E o epíteto de anti-americano surge logo como um bolor incurável", p.ex.)

Até se encontra por aí mais um poema (manhoso, aliás) em que surge a mesmíssima frase (http://www.angelfire.com/va3/PlenTWeird/Poems/frostedmirror.html).

Publicado por: Pensativo em março 10, 2005 08:11 PM

Bolor, sem dúvida; parece quase óbvio. Ou óbvio, mesmo.

Publicado por: Valupi em março 10, 2005 08:17 PM

Já agora, que o assunto da tradução veio à baila, também questiono "imobilidade" para "sitting still".

Proponho "de cigarros e estar sentado".

Ou "de cigarros e cadeira".

Publicado por: Valupi em março 10, 2005 08:28 PM

Obrigado pelos contributos e pelas pesquisas.
Volto à minha primeira escolha: é bolor e não se fala mais nisso.
Quanto ao "sitting still", e apesar das sugestões válidas do Valupi, mantenho a minha imobilidade (salvo seja). É uma questão de gosto pessoal.

Publicado por: José Mário Silva em março 10, 2005 10:59 PM

É bolor, não há dúvida. Tal como o Valupi, também prefiro traduções menos literais: "de cigarros e cadeiras". Neste caso, porém, acho que não funciona. Prefiro a opção do Zé Mário, "imobilidade". Traduziria "whispers" como "sussura", mas para ser sincera acho que não faz diferença. É só porque gosto mais desse verbo do que "murmurar".

Ah, é um belo poema. Que sorte ter oportunidade de traduzir coisas assim.

Publicado por: Sara em março 11, 2005 02:10 PM

Gralha: "de cigarros e cadeira". Num comentário sobre traduções faz toda a diferença.

Publicado por: Sara em março 11, 2005 02:12 PM

Ainda não me fui embora: "the doorway whispers" - "o umbral murmura", "a entrada sussurra"... E existem outras possibilidades. É uma boa questão, coisas aparentemente tão simples que nos(me) detêm. Desculpa estarmos a "mandar bitates", mas o tema das traduções, principalmente quando se trata de poesia, é verdadeiramente fascinante, pelo menos para mim. E quanto à tradução deste poema... All in all, está perfeito, Zé Mário.

Publicado por: Sara em março 11, 2005 02:28 PM

Thanks, Sara.
;)

Publicado por: José Mário Silva em março 11, 2005 03:39 PM

Muito bem, Sara. Também tinha ficado parado nessa porta, olhado em redor, sem saber se deveria entrar noutra sugestão, se sair dos palpites para não incomodar mais o excelente Zé. A porta, o símbolo perfeito do movimento.

E é fascinante, sim e sim, isto de atraiçoarmos os poemas. O amor é canalha.

Publicado por: Valupi em março 11, 2005 05:51 PM

Não incomodam nada, Valupi. Ora essa. Vocês é que não calculam o gozo que me dá estar aqui a partilhar estas "traições" convosco. Bendita blogosfera, confraria dos amantes deste selvagem prazer da escrita.

Publicado por: José Mário Silva em março 12, 2005 12:14 PM