« O NOVO CROMO | Entrada | DO PODER DA GRANDE LITERATURA »

março 09, 2005

A CRÍTICA DE ARREMESSO

Ah, a secção de crítica literária do DN também tem alguns cometas interessantes, como esta "crítica" a uma antologia de artigos académicos de linguística.
O texto começa com o reconhecimento da respectiva autora de que a crítica da obra em causa tem interesse muito reduzido para o público geral. Ora, como não menciona imediatamente a seguir que, na sua opinião, a obra devia ser mais conhecida, depreende-se que a dita "crítica" traz água no bico.
Acresce que a mesma "crítica" apresenta algumas lacunas, como comentar a qualidade dos textos, o seu interesse e relevo, o rigor científico, a organização da antologia, a pertinência, etc., etc..

De facto, a única coisa que interessa à autora da "crítica" é o número de artigos da antologia que versam sobre literatura. Aparentemente, a Elisabete França tem um grande problema que os estudiosos da língua se lembrem de ver como é que ela é usada em leis, jornais, publicidade, rádio, provérbios e dicionários - em suma: na vida real - e não se concentrem exclusivamente em admirar as formas superiores empregues na arte de narrar e versar.

Enfim, um escândalo! O que se seguirá? Descobrir que os engenheiros também aprendem como construir barragens, pontes, blocos de apartamentos, pré-fabricados, estações de tratamento e unidades fabris, em vez de se deslumbrarem apenas com as formas harmoniosas do Mosteiro dos Jerónimos e do Museu de Serralves?

Publicado por Jorge Palinhos às março 9, 2005 11:27 AM

Comentários

Um exemplo de típico snobismo pseudo intelectual, direi eu que sou reaccionário!

Publicado por: Tio Sam em março 9, 2005 07:05 PM

Jorge, de que estás à espera. A ignorância e pedantismo andam de mãos dadas. De que é que os linguistas deveriam falar: da língua, não? Dos textos produzidos, os textos não-literários são infinitamente mais dos que os literários, não? Então por que raio deveriam eles escrevrer sobretudo sobre literatura?
Enfim...

Publicado por: Rui Oliveira em março 10, 2005 12:38 PM

O que acho espantoso é que alguém se dê ao trabalho de comentar críticas deste tipo de críticos. Quem conhece Elisabete França? Donde vem? O seu percurso? O que fez? Eu tenho um partis-pris pessoal, confesso, mas se há quem possa responder às perguntas acima, que o faça, ficávamos todos esclarecidos e perceberíamos talvez melhor os trabalhos que esta pessoa faz no DN.

Publicado por: Eugenia Rosa em março 11, 2005 11:32 AM

Ridículo. Não tenho palavra mais cómoda para o seu comentário, Eugénia Rosa. E olhe que eu sou, de natureza, a brandura em pessoa.

Não conheço, ainda, o livro em questão. Mas compreendo perfeitamente a afirmação de Elisabete França - a de ser um «défice estarrecedor» que só 3 textos em 31 estudem o texto literário.

Eu não sei «quem é», «donde vem», e «qual o percurso» da autora do artigo. Mas, para já, ela é-me cem vezes mais interessante do que você, Eugénia Rosa.

Tudo o que sei de si é que tem, palavras suas, «um parti-pris pessoal». O que, como informação, é, convenhamos, muito pouco invejável.

Publicado por: fernando venâncio em março 11, 2005 05:38 PM

Caro Fernando Venâncio: apesar de compreender (mas com ela discordar em absoluto) a sua posição de princípio, gostaria de saber como pode, com honestidade intelectual, compreender a afirmação da jornalista do DN sem conhecer o livro em questão...
Quanto ao assunto em análise, devo dizer que o artigo parece encomendado. Parece mesmo orientado, na sua organização macro-estrutural, para abater um alvo (os linguistas dizem que esta é uma das características do «discurso polémico»), definido nos seus segmentos finais, como vingança azeda e requentada contra quem se manifestou a favor de uma Linguística que descreve, analisa e interpreta «a língua», essa coisa que nos serve para interagirmos uns com os outros no quotidiano, de múltiplas formas, negando à «Literatura» o estatuto de vaca sagrada - e, sobretudo, única suficientemente grada para poder constituir-se como objecto de estudo. Razão tem Jorge Palinhos...
Mas comentários deste teor resultam de uma estranha mania: já não bastava que todos os portugueses achem que são treinadores de futebol de bancada, e pilotos de automóveis, com opiniões fundamentadas na edificante experiência dos últimos quinze dias de memória; também todos acham que, por falarem a língua, por lerem (às vezes) uns artigos nos jornais e umas revistas com muitas fotografias, ou uns livros de encher de areia na praia, têm competência para discorrer sobre tudo quanto à língua, ao seu estudo e ao seu ensino disser respeito.
Impõe-se um final de intertextualidade literária q. b.: como respondeu o impagável Calisto Elói? Era «não suba o sapateiro acima»... de quê?

Publicado por: RR em março 16, 2005 11:27 PM

Eu conheço o livro, li a crítica e fiquei estarrecido!
O livro é uma colecção de ensaios sobre linguística. Destina-se obviamente a pares. Não há razão para que um qualquer artigo em linguística se dedique à análise do texto literário.
Parece, de facto, encomenda para falar mal da Inês Duarte...
É triste é que os jornais concedam espaço para este tipo de revanchismo...

Publicado por: CJ em março 30, 2005 01:24 AM