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março 08, 2005

DIA INTERNACIONAL

Leio as páginas de publicidade nos jornais e assusto-me: não gostava mesmo nada de ver o 8 de Março transformado numa espécie de Dia de S. Valentim, pretexto para as mais desvairadas estratégias comerciais. As mulheres — por tudo o que a sua luta significou de 1857 até hoje — não mereciam isto. Não merecem isto.

Publicado por José Mário Silva às março 8, 2005 02:19 PM

Comentários

infelizmente, há muita gente que não conhece o verdadeiro significado deste dia.
... e todos os anos me irrito com isso.

Publicado por: bárbara em março 8, 2005 04:00 PM

Falemos sobre isso, se tiverem tempo e interesse, Zé e bárbara. O que é que as mulheres merecem e qual é o verdadeiro significado deste dia (para além da celebração do facto histórico)?

Publicado por: Valupi em março 8, 2005 05:47 PM

Estás a brincar ou a falar a sério, Valupi? Não achas que ainda há muito a fazer no campo da igualdade de género? A mim parece-me uma evidência.

Publicado por: José Mário Silva em março 8, 2005 07:06 PM

A mim também, daí a inquirição, Zé. Por exemplo, tirando hoje, por razões de calendário, nunca li nada no BdE que sinalizasse a mais vaga preocupação com essa temática (friso "nunca li", eu, diferente de afirmar um facto que não investiguei e apenas refiro de memória muito recente). Não que os redactores tenham de ter a questão na sua agenda bloguista, mas não deixa de ser sintomático o silêncio.

O que faz as edições diárias no BdE é a chicana política, as partilhas confessionais, os gostos artísticos, as celebrações de ocasião, as querelas "inter pares", as "vexata questio" do costume (religião, nazismo, aborto, etc.). Claro, ninguém vos abriga a ser a Misericórdia da luta pela igualdade da mulher, mas é por a realidade ser escandalosamente injusta que ela se inscreve obrigatoriamente em qualquer programa de intervenção social e política, mesmo que seja um blogue.

Talvez a causa seja tão singela como a de resultar de só escreverem homens (nos colaboradores permanentes aparece uma mulher, mas a qual tem, e felizmente, bem mais para fazer). Aliás, mesmo que o BdE tivesse colaboradoras (e por que não as têm, pergunto eu sem malícia?), nada garantiria que elas assumissem essas temáticas, por razões tantas e tão variadas. Permanece, porém, a ignomínia: todos os dias se pratica uma variante do racismo sobre as mulheres. Trata-se de um sistema entranhado até à medula da cultura, invisível à força de ser omnipotente, e que acumula vítimas.

Eu, para dar o meu exemplo, faço parte dele. Discrimino as mulheres pelo seu capital erótico, não tenho empatia pelos seus modos fisiológicos e metabólicos que moralizo, elejo pares masculinos para partilha de informação e com eles faço alianças estratégicas. E mais um longo etecetra. Quando reflicto, vejo as estruturas antropológicas a condicionar o processo das interacções, o narcisismo como psicologia profunda, a memória ancestral de uma relação de poder a plastificar-se em símbolos culturais. Vejo e repito.

Por estas, e por todas as outras, importa falar.

Publicado por: Valupi em março 8, 2005 08:19 PM

Infelizmente, o da da mulher já se transformou no S. Valentim de Março... Há quem compre um ramito de flores para a esposa, porque afinal hoje é o seu dia, quem mande mensagens congratulatórias às amigas, quem compre postais para enviar aos membros femininos da família. De lutas, desigualdades e direitos, nada! E por cá continuamos com salários mais baixos, sem acesso aos cargos de chefia, com aborto clandestino, com a 'obrigação' das tarefas domésticas...

Publicado por: Sara Figueiredo Costa em março 8, 2005 08:44 PM

Se o Dia da Mulher se tornou um S.Valentim é por culpa das próprias mulheres, elas são as primeiras a alimentar isso, pelo menos e a minha perspectiva, por isso se este dia tornou se em mais um pretexto para as mais desvairadas estratégias comerciais talvez elas mereçam...
Eu faço os possiveis para combater isso.
Em relação à igualdade, não sinto qualquer obrigação, já que em casa faço tantas tarefas domesticas como a minha mulher,
sou eu que cozinho...(gosto de comer bem...). E mais, a minha mulher ganha mais que eu.
Por isso acho que mereço o meu Dia.

Publicado por: Asterix em março 9, 2005 09:10 AM

Valupi,
Este não é o blogue que queremos fazer, este é o blogue que conseguimos fazer. Por cada post que escrevo, há pelo menos dez que não chegam a ver a luz do dia. Havias de ver a lista. E se nunca abordámos a fundo a questão da condição feminina, também nunca analisámos como deve ser o torneio de Xadrez de Linares, os melhores locais para observar aves em Portugal, a obra poética de Gerard Manley Hopkins, a prodigiosa viagem da sonda espacial Pioneer-10, os fundamentos políticos de Gramsci, o terceiro centenário da morte de Marc-Antoine Charpentier, o modo como funciona o acelerador de partículas do CERN, etc., etc., etc.
Muitas vezes, das dezenas de ideias que temos por dia, ficamo-nos pelas mais simples, pelas mais acessíveis, pelas mais banais, mas sobretudo pelas mais rápidas. É humano. Todos nós exercemos outras actividades que nos reclamam muito tempo (quando não o tempo todo). Isto, o BdE, é feito com as sobras, com os entretantos, com os intervalos, com o vou só ali pôr um post e já volto. Mas também te digo: se isto fosse uma coisa a sério, profissional, acho que não teria metade da graça.
Além disso, nós contamos sempre com uma preciosa rede de segurança: se algum tema crucial nos escapa, os leitores podem sempre suprir as nossas falhas, a nossa lentidão, a nossa ignorância. É para isso que serve o espaço "itálico", aberto a todos, em qualquer momento. A todos quer dizer também a ti, Valupi. Não te acanhes.
Aquele abraço,
ZM

PS- Reparei que excluíste a Margarida dos possíveis contributos porque ela «tem, e felizmente, bem mais para fazer». Sempre te digo que excluindo o óbvio (dar de mamar) não há nada que ela faça que eu não faça, com o mesmo prazer, cuidado e atenção. As razões porque não escreve são outras, lá dela. Não é por "isso" em que pensaste. E pensando, lá estavas a repetir os estereótipos que nos deviam fazer pensar. Sintomática ironia.

Publicado por: José Mário Silva em março 9, 2005 10:37 AM

Não passo de mais um turista acidental deste e neste blogue, pelo que não moralizo as vossas opções. Na verdade, estou é grato pelo espaço de intelectualidade e bom gosto que criaram e recriam todos os dias.

Dito isto, que é o mais importante, discordo. Discordo de este não ser o blogue que querem, mas só o que fazem. Amigo, o que fazemos é o que queremos - nem menos, nem mais. Há algo que ultrapassa o intento da graçola na comparação da questão da condição feminina com o torneio de xadrez de Linares and else. Há uma má consciência coberta de acinte, pois eu não acredito que a tua inteligência não se renda à evidência: a temática da condição feminina não leva mais tempo a ser levantada em postes do que as viagens de metro, os desvarios do Santana ou os recortes de cartoons. Melhor seria admitir que não há interesse, pois factos e ideias para despachar apressadamente não faltam. Entre o nada e o pouco, venha o editor e escolha.

Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que a rapaziada pura e simplesmente ignora (despreza?] tudo o que cheire a feminismo. Já o cheiro da fêmea nos ocupa o grosso das conversas, e quanto mais grossos mais grosso. Este peniscentrismo seria inconsequente se não se dessem as consequências: as mulheres ganham menos para trabalho igual, o ângulo da ladeira empresarial é muito maior, as suas doenças específicas são menos investigadas, a sua psicologia é castigada em vez de compreendida, a sua fragilidade física e emocional tem muito mais probabilidades de ser violentada logo na família e depois, imediatamente de seguida, no mundão afora, seja por serem objectos de desejo, seja por o não serem. E mais. Mais, mais, mais, Acabando com a legião de mulheres que alinha nisto, rendidas ainda antes de saberem que estão em combate.

Mas vamos ao naco da conversa. Telepaticamente viste um estereótipo na referência à Margarida. Bom, acertaste. Mas não pretendo fazer-te a vida fácil, pensemos um pouco mais. Só um pouquinho além.

Por estereótipo pretendeste dizer preconceito, redução ao modelo serôdio, visão bafienta em que a mulher é dona-de-casa e serva do globo. Foi uma opção. A outra teria sido interpretares a frase como um lugar-comum. Sim, há lugares onde se está bem, onde as pessoas se encontram.

Uma posição imatura (porque não reflectida) sobre a condição feminina vê estereótipos onde há realidades inamovíveis. Uma delas é a da maternidade. Na maternidade não há igualdade entre os géneros, como espero que concedas. A natureza não é politicamente correcta. Ora, independentemente dos casos individuais, onde até possam existir mulheres que logo após o parto abandonem os filhos para nunca mais os voltarem a ver, o estimado bom-senso de milénios diz que a experiência radicalmente única dos nove meses de gestação não acaba com o corte do cordão umbilical. O laço afectivo, emocional, e mesmo racional, para com o bebé difere entre mãe e pai. E não poderia ser de outro modo, pois não, Zé? Não se trata de saber quem é que tem mais tempo livre, qual a gestão temporal das tarefas, e muito menos de pesar empenhos e gostos. Trata-se, tão simplesmente, do inquestionável: para a mãe, a maternidade leva a uma alteração no seu quotidiano e na sua interioridade que é maior, distinta, do que aquela que o pai experimenta. Era só isto que a frase, na minha intencionalidade antropológica e não política, transmitia. E só por uma questão de coincidência factual é que fiz referência ao feliz episódio, pois o assunto sobre que discorria era outro, o das temáticas tratadas no BdE na sua relação com o elenco dos redactores, oito homens e uma mulher.

Assim, nem todos os estereótipos são ilegítimos. Aliás, a evolução da questão da condição feminina dirigiu-se para uma nova bandeira que já não é a da igualdade mas a do reconhecimento da diferença. A biologia, a psicologia e a medicina vêm em auxílio da consciência ideológica e aí temos a consagração de duas realidades cada vez mais diferentes entre si - homens e mulheres separados não pelos preconceitos mas pelos pós-conceitos. Deliciosa ironia. E real abertura para intervenções que conduzam a maior justiça social e acrescento de humanidade para o género (ainda não completamente) humano.

Grande abraço,
Valupi

Publicado por: Valupi em março 9, 2005 07:56 PM