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março 04, 2005

O REGRESSO DO "FOGO AMIGO"

Jornalista italiana ferida por militares americanos, no Iraque, pouco depois de libertada.

Publicado por José Mário Silva às março 4, 2005 08:52 PM

Comentários

Falta uma informação importante: jornalista do "Il Manifesto". O que para o caso do ataque pelos militares dos EUA é muito significativo.

O "Il Manifesto" é uma cooperativa e é o único jornal verdadeiramente independente em Itália. Todos os outros são mais ou mais ainda controlados pelo governo. Sobram apenas os jornais afectos a partidos políticos, segundo o que disse António Tabucchi recentemente no seu artigo "Carta a uma Iraquiana".

Publicado por: Helena Romao em março 4, 2005 09:06 PM

Helena, deixa cá ver se entendi bem a tese. O Governo italiano sente-se tão ameaçado pelo "Il Manifesto" (o único dos jornais não controlado pelo burlesco primeiro-ministro) ou tem tal aversão ao sistema cooperativo que pede aos EUA para matarem a jornalista. A CIA declina a tarefa e o Pentágono elabora o seu melhor plano: usar soldados americanos num verdadeiro "fogo inimigo". Porém, a incompetência do exército norte-americano é tanta que só conseguem ceifar a vida a um guarda-costas e deixam a jornalista viva.

É este o significado do episódio?

Publicado por: Valupi em março 5, 2005 04:47 AM

E qual será então o significado do episódio? Pedimos desculpa, mas não foi por querer... Fomos induzidos em erro... ( o que é que isto me faz lembrar?)

Publicado por: Luis A. em março 5, 2005 02:38 PM

Seja lá qual for o significado do episódio, não pode ter sido um erro, um engano, um acaso do destino, pois esse tipo de coisas nunca acontece, como é sabido. O universo é lógico e ordenado, nada nele se passa sem a anuência, planificação e execução do Grande Satã.

Publicado por: Valupi em março 6, 2005 04:44 AM

Claro que pode ter sido um erro, caro Valupi. Então não foram erradas as informações da intelligence americana que supostamente justificaram a invasão?
E não um foi também um erro que motivou as torturas de prisoneiros iraquianos em Abu Grahib (Como é que nós cometemos o erro de aceitar aqueles 2 ou 3 soldados sádicos no nosso exército?)?
Não foi também um erro o episódio relativo à primeira tentativa de libertação dos jornalistas franceses (que por mero acaso não eram propriamente favoráveis à ocupação)?
No universo caótico em que nos encontramos os erros acontecem. Mas o que é um facto é que de erro em erro os desígnios do Grande Satã lá se vão cumprindo...

Publicado por: Luis A. em março 7, 2005 12:19 PM

Luís A(migo), os alhos continuam a não ligar bem com os bugalhos. Sim, há uma nova doença social chamada "síndrome da teoria da conspiração", a qual medra farta nas tendências paranóicas comuns à espécie e ao tempo. Os pacientes nem precisam de procurar longe pelas evidências, a realidade está pejada de maus-da-fita e abundam os relatos quotidianos dos seus feitos. Mais uma razão para ser lúcido.

Se admitirmos que os EUA queriam matar a jornalista, várias questões subsequentes se colocam à alma intelectualmente honesta e que queira preservar a sua sanidade mental e/ou responsabilidade moral:

- Porquê? Qual é o perigo que ela, e seus companheiros, representa? Um editorial em Roma vai acabar com uma ocupação em Bagdade, derrubar um presidente em Washington?

- Se sim, a ideia é matá-los a todos, visto que os outros podem continuar a fazer o mesmo que ela fez?

- Se sim, vão fazê-lo na Itália, posto que leva muito tempo a criar condições para "fogo amigo" na estradas iraquianas?

- Se sim, o Governo italiano está metido ao barulho?

- Se sim, o guarda-costas foi uma vítima sacrificial, para compor a cena?

- Se sim, os serviços secretos italianos estão feitos com o Governo italiano e acham bem irem perdendo as suas vidas para bem da nação?

- Se sim, não se poderia ter arranjado algo mais simples, como um carro com agentes disfarçados de árabes a atacar a jornalista ou terem-se antecipado ao rapto simulando ser mais um rapto, por exemplo entre milhentos de outros exemplos? Ninguém pensou nisto porque andam todos muito ocupados a ler o "Il Manifesto"? Ou pensaram nisto com o maior cuidado e concluíram ser melhor para os interesses norte-americanos suscitar dúvidas na opinião pública, arriscando passar por infames carniceiros e desencadear uma crise internacional nunca antes vista? E irão aniquilar todos os jornalistas do mundo que já se pronunciaram contra a invasão, incluíndo os jornalistas norte-americanos, ingleses, canadianos e australianos, ou esta operação é só para italiano ver?

- Se sim, o Grande Satã tem a inteligência de uma alforreca iletrada mas, mesmo assim, domina o mundo com os seus ardis maquiavélicos e tenebrosos?

- Se sim, não será melhor consultar-se um especialista do foro psiquiátrico ou psicológico, apresentando esta argumentação e esperando calmamente sentado, e já com uma muda de roupa interior na mão, pela prescrição clínica?

Que os Estados cometem crimes, parece ser do conhecimento comum. Não sabemos da missa nem a metade de um terço. Não temos meios para averiguar, há especialistas poderosos que ocultam e destroem provas, há demasiada complexidade no presente imediato e contra-informação constante e sofisticada. Pois. Mas também há o delírio, a cegueira, a idiotice (esta, aqui na conversa, tomada em sentido etimológico).

Se é verdade que para lá do limite do que conhecemos tudo é possível, e todas as teorias da conspiração se poderem revelar apocalipticamente verdadeiras num destes dias, também não é menos verdade que o imperativo da inteligência obriga a escolher a interpretação mais provável. Pode parecer que não, mas a expressão da suspeita odiosa e asinina é um terrorismo social.

Publicado por: Valupi em março 7, 2005 08:51 PM

Caro Valupi, não, não creio que os EUA tenham querido matar a jornalista, até porque a honestidade intelectual me leva a concordar, que se fosse esse o objectivo, ele não seria falhado certamente (é pena, mas esta nega invalida qualquer resposta da minha parte às perguntas subsequentes que o amigo tinha preparado - peço desculpa por inadvertidamente o ter levado a essa presunção).

Não! A minha hipótese é talvez algo mais rebuscada. Acredito eu que se trata apenas duma mensagem que se quer passar. Os EUA têm mantido uma política irredutível de não negociação com terroristas, mais irredutível ainda se esta lhes passar ao lado. Então creio eu que o objectivo é simplesmente mostrar ao mundo que não toleram/tolerarão este tipo de jogadas, independentemente do grau de tolerância/participação que o país envolvido tem demonstrado relativamente à sua jogada principal ( a ocupação ). Esta é que me parece a hipótese mais provável.

Não vou ao ponto de afirmar peremptoriamente que essa é a razão porque foi o agente dos serviços secretos italianos a vítima mortal (curiosamente com uma única bala na cabeça) e não a jornalista.

Não sei, mas independentemente das reservas que o meu amigo tem das teorias de conspiração - que eu também partilho, pelo menos enquanto se manifesta em mim a lucidez (ingenuidade) - suspeito que a mensagem já passou, e cada vez será mais díficil a um governo tentar a jogada arriscada de salvar eventuais futuras vítimas feitas reféns.

Bem sei que está em risco a minha sanidade mental, mas pressinto cada vez mais que o Admirável Mundo Novo de 1984 está cada vez mais perto. E nessa altura, quem será o lúcido?

Publicado por: Luís A. em março 8, 2005 12:43 AM

Caro Luís, não colhe. Para o racional da questão – nas suas implicações legais, políticas, éticas – é igual ser uma tentativa de assassinato ou um aviso com homicídio. Mas são as circunstâncias relatadas que (me) tornam evidente a "bondade" do acontecimento.

A ser intencional, a decisão teria vindo de quem? Do Bush ou de algum quadro militar? Se estamos a propor uma hipótese de contornos diplomáticos (o tal aviso à navegação) então a acção teria a sua origem na Casa Branca. Ou seja, teria havido reuniões, comunicações, escritos e ditos, durante um certo período de tempo e envolvendo dezenas de pessoas até se chegar à patrulha militar que esteve envolvida lá numa estrada do Iraque. Será isto crível? A mim, parece-me uma aberração – e aberração maior gastar um caracter a explicar porquê, tão claro é o absurdo de levar a cabo um atentado internacional dessa forma e logo pelos EUA, um Estado de Direito, uma democracia sã, uma nação alvo de todas as atenções e ódios.

Tal como é prática da boa ciência, também a explicação mais simples me parece a melhor. Ela diz que os erros acontecem, que o estado psicológico dos soldados americanos é de alta ansiedade, que o condutor do automóvel pode ter sido induzido em erro e por isso não obedeceu ou nem reparou nos sinais para parar, acreditando que os americanos estavam avisados e que reconheciam a viatura, a qual tinha de ser conduzia a alta velocidade por razões de segurança. Ela diz que as balas foram disparadas indiscriminadamente, e que só por sorte não mataram mais pessoas e só por azar mataram uma pessoa, que os militares, informados ou não, apenas seguiram o protocolo de segurança perante um carro que podia ser mais um ataque suicida. Ela diz que há americanos a matar americanos e aliados por erros vários, uns humanos outros tecnológicos. Tão simples e trágico como isto.

A ingenuidade também se pode exercer através da paranóia, da fantasia mais acintosa. É ingénuo preferir uma versão mentirosa, só porque ela satisfaz a neurose colectiva. É ingénuo e maligno, pois anula a inquirição racional. Se consumirmos acusações desvairadas sobre os americanos sem sequer as criticarmos, isso é sinal que noutras áreas das nossas vidas estamos também a ser manipulados por demónios da suspeita e da falsidade. No cerne desta situação está a própria noção de justiça, na sua simplicidade brutal: temos provas do que afirmamos?... E se o amigo Luís tiver o azar (que espero nunca lhe aconteça) de atropelar um pedestre e alguém o acusar de tentativa de assassinato ou aviso genérico para os peões, fazendo com que se habilite a uma pena de prisão?... Os azares não acontecem só aos outros.

Nada nos obriga a ser ignaros ao ponto de defender um angelismo, em que os americanos só fariam o bem em registo cristão e hollywoodesco. Pelo contrário, é admitido, e legalmente, que os serviços secretos americanos (e não só americanos, óbvio) tenham poder para matar. Após o 11 de Setembro, o Bush disse-o com todas as letras num discurso do Estado da Nação; e, com certeza, daí para cá já muitas operações foram efectuadas sem sequer se ter notícia delas ou tendo aparecido apenas como vulgares acidentes. Tal como não se questiona a frieza pragmática com que os Estados lidam com os assuntos da política internacional. Mas daí ao puro disparate há um longo e desertificado caminho para a inteligência que não vale de todo a pena percorrer.

Na verdade, os Governos democráticos estão cada vez mais constrangidos nas suas actividades de risco por causa das opiniões públicas e da ubiquidade das tecnologias de informação. O caso das fotos de tortura em prisões iraquianas é paradigmático. Se fosse uma prática autorizada pelo comando militar e político, nunca se registariam imagens, muito menos aquelas que apareceram, onde o espontâneo e amadorístico compõem as cenas. Mais simples e sensato é admitir a dimensão das decisões individuais, em que um grupo de pessoas tem condições para abusar do seu poder, e se calhar até com "boas intenções". O mesmo com as armas de destruição maciça que nunca se encontraram. Seria canja para os trafulhas dos EUA simular a sua descoberta e não ter de passar pelo embaraço de reconhecerem os seus erros. Afinal...

A verdade é sempre um horizonte, mas fechar ou abrir os olhinhos é da responsabilidade de cada um.

Publicado por: Valupi em março 8, 2005 05:25 PM