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março 04, 2005

O BARNABÉ ENCONTROU O SEU KRAMER

Refiro-me ao Nuno Sousa e a este texto, que tanto tem dado que falar. É evidente que um qualquer texto satírico sobre o Papa, mau ou bom, origina sempre reacções indignadas dos católicos mais ferrenhos. Mas não são essas as reacções com que o Nuno se deveria ter preocupado. No entanto escreveu, no mesmo texto, uma tímida reacção onde se defendia dos ataques desses mesmos católicos. O Rui Tavares também falava somente nos talibãs católicos. Ambos, a meu ver, caíram no mesmo erro típico (eu tenho experiência no assunto...) de defenderem-se dos ataques mais fundamentalistas, vindos de quem não quer pensar, dialogar ou argumentar. Esforço inútil.
Nem todos os comentários críticos eram assim, no entanto. O texto foi também fortemente criticado por leitores que não eram necessariamente moralistas ou beatos. A questão mais interessante e mais delicada que foi colocada nos comentários foi a da visibilidade da velhice, qualquer que seja o velho. Houve quem acusasse o Nuno de achar que se deveria esconder os velhos, e ignorar o seu sofrimento. Esta é uma questão muito delicada, como tudo o que tenha a ver com a terceira idade. Eu diria simplesmente que envelhecer é triste. Essa é que é essa.
Voltando ao Papa. Eu estou-me totalmente nas tintas para o Papa e para a Igreja Católica. Só é católico quem quer, e mesmo quem seja tem a liberdade de seguir ou não os mandamentos do Papa. Eles que se entendam entre si, que eu não tenho nada a ver com isso. Agora, não deixo de me impressionar com o aproveitamento mediático que se faz de um homem que se vê assim impedido de viver os seus últimos dias em paz. O que daqui é mesmo vontade do próprio Papa e o que é vontade da hierarquia católica não é claro. (No entanto é para mim claro que muito desse aproveitamento mediático é mais uma vez culpa da comunicação social, que não tem que ser porta-voz do Vaticano. E isso, o Nuno não referiu...) Parece-me, até pelo que ele escreveu depois, que o motivo da indignação do Nuno é toda esta exposição mediática e nada mais do que isso; não me parece que haja à partida má vontade contra os idosos no que ele escreveu. Admito no entanto perfeitamente que ele possa ter sido "algo desajeitado" (onde é que eu já li isto?) e que isso tenha motivado algumas indignações, mesmo de não crentes. Mas nada do que ele escreveu justifica os ataques que sofreu. Os comentadores dos blogues não devem usar o privilégio que é poderem comentar livremente para partirem para o insulto. Sempre me opus e oporei a isso. Por isso, e por conhecer perfeitamente essa mesma situação, não deixo de me solidarizar com o Nuno e de lhe mandar um abraço. Bem vindo à blogosfera, colega.

Publicado por Filipe Moura às março 4, 2005 09:10 AM

Comentários

Envelhecer é triste? Pior é não chegar à idade da velhice. A não ser que sejamos adeptos do "live fast die young!"
O que se passa é que as pessoas estão fartinhas de ver sempre os mesmos a atacar os mesmos. Se existe a indiferença que se apregoa face à igreja católica e aos católicos, então usem-na e abstenham-se de dar palpites sobre o funcionamento de uma instituição que vos é indiferente. Ou então assumam-se como anti-clericais e vão para as ruas queimar igrejas... O texto referido é um conjunto de "sentenças" sobre o como deve funcionar a igreja. Deixem-nos em paz que eles já não fazem mal a ninguém. Há outros perigos bem piores e mais activos na sociedade. Deixem o velhote brincar!

Publicado por: zangalamanga em março 4, 2005 09:36 AM

Penso que a Comunicação está a cumprir o seu papel informativo como lhe compete. Esta não se pode abster de informar os milhões de crentes que a procuram para saber notícias do chefe da Igreja que eles próprios formam. É certo que coloca demasiado ênfase nesta questão, mas não o coloca em todas? Não é a mesma comunicação social que dá demasiada importância a uma minoria de alienados de esquerda que detêm 6% de votos nas eleições? Não é a mesma comunicação social que ampliou exageradamente cada "desconcentração" do governo de Santana Lopes? Não é a mesma que faz a cobertura cansativamente exaustiva de cada funeral, casamento, jogo de futebol, catástrofe natural, etc...
Sobre esta história, que já cansa, só há uma conclusãoa tirar. Todos têm o direito de comentar, opinar e achar o que bem quiserem sobre o que quiserem. Não têm é o direito de insultar uma MAIORIA discernida, pensante, e LIVRE de católicos que se revêm neste Papa e na sua doutrina e fé.
Em Agosto de 2000 estive em Roma com mais de, imaginem só como é possível a carneirada, 5 milhões(!!!!!) de pessoas nas Jornadas Mundiais da Juventude e vi este mesmo Papa débil e incapaz para quem não sabe, cheio de Deus e fabuloso para quem já se cruzou com ele, a viver, dançar e a contagiar com a sua presença e "jovialidade" aquele momento. Foi indescritível mas, reconheço, também incompreensível para quem não tem fé.
O meu único comentário para este radicalismo intolerante que vejo à minha volta contra a minha fé e minha Igreja é que não devem insultar o que não conhecem!

Publicado por: Miguel Nascimento em março 4, 2005 10:16 AM

Com que então, não deixas de te "impressionar com o aproveitamento mediático que se faz de um homem", blá blá.

E que tem isso a ver com uma suposta gracinha em que se goza com o homem porque já bebe por uma palhinha, perguntando-se quando começará ele a "gatinhar sem amparo alheio"?
Achas que quem segue a ICAR não quer saber como estáa o seu líder espiritual? Ou julgarás que o tal "aproveitamento mediático" (ai esta mania dos chavões; viste, por acaso, aguma foto do homem de tubo na garganta ou a ser operado?) é uma manobra do Vaticano para converter mais umas almas?

Aquela graçola imbecil não tem qualquer espécie de defesa. Misturar religião ou política com o que é apenas insensibilidade é manobra de diversão óbvia e ineficaz.

Publicado por: aaaai! em março 4, 2005 11:08 AM

Faço minhas as palavras do Sr. aaaai. Comparar esse Sousa ao Kramer é quase uma heresia e a prova que nunca deves ter chegado a entender um dos personagens.

Publicado por: Monty em março 4, 2005 12:19 PM

Tenho que concordar com o aaaai quando ele fala na exposição mediática. O Papa ainda é o líder espiritual de uma enorme parte da humanidade, pelo que é normal que tenha essa exposição mediática, especialmente quando tem sido ele próprio, ao longo da sua vida (embora seja algo duvidoso o que se passa actualmente) a procurar essa mesma exposição.

O que não se deve confundir é o direito à Fé que têm (ou deveriam ter) todos os católicos (mais ou menos praticantes) com o direito à sátira que todo o mundo tem (ou deveria ter). O Papa foi objecto de uma brincadeira e muitos se indignaram, mas Santana Lopes também o foi, e bem piores, e ninguém se queixa. Será que o que motiva a indignação é a quantidade de pessoas que não gostam da brincadeira? Se houver uma maioria de indignados a piada deixa de ser aceitável?

O Miguel Nascimento parece pensar nestes moldes. A ele aconselho-o a ir aprender o que é a democracia, porque não é apenas o governo da maioria, é essencialmente o respeito que a maioria tem de ter sobre a minoria. Ah sim, e se os católicos são a maioria em Portugal e na Europa, no mundo não o são, convém que se lembre disso.

Quanto ao resto o Filipe esteve bem. O Papa é uma figura que pode ser gozada como qualquer outra. Muitas outras pessoas terão sido gozadas até no seu leito de morte sem que daí surgissem consequências. E se há muita gente que acha o Papa inspirador, mais gente ainda haverá que não o ache. Como tal, há que respeitar todas as opiniões. Na minha casa posso insultar quem quiser em conversa. Quem não gosta do post do Nuno Sousa não precisa de o ler. A maioria das pessoas queixa-se que é um exemplo da degradação do Barnabé, mas continuam a lê-lo. Se não gostam não leiam e deixem a casa dos outros em paz.

Publicado por: João André em março 4, 2005 12:54 PM

João, importante e decisivo é reconhecer que, se o Santana apanhasse amanhã um cancro ou coisa similar, seria do mesmíssimo mau gosto escrever algo como "Santana já consegue urinar sem algália. Para quando o regresso ao sexo?"
Atacar alguém, Papa ou não Papa, aproveitando a boleia de uma doença incapacitante é baixo e repugnante.

Publicado por: aaai! em março 4, 2005 01:00 PM

Caro Miguel Nascimento,

Para si, os católicos que se revêm neste Papa são uma «maioria discernida, pensante, e livre», enquanto os votantes do Bloco são «uma minoria de alienados de esquerda». Isto diz bem da sua visão da democracia. Vai-me desculpar a franqueza, mas quem se expressa nestes termos não pode exigir respeito e tolerância a ninguém.

Publicado por: José Mário Silva em março 4, 2005 01:23 PM

Gostaria que reflectisse nas suas palavras e concluísse quem precisa de lições de democracia...

"é essencialmente o respeito que a maioria tem de ter sobre a minoria" - o contrário já não!

"Ah sim, e se os católicos são a maioria em Portugal e na Europa, no mundo não o são, convém que se lembre disso." - então e o respeito pelas minorias? era só no parágrafo acima?

"Na minha casa posso insultar quem quiser em conversa" - e é por isso uma verdadeira democracia! Se um colega do seu filho (hipotéticamente) chegar a sua casa, vir uma fotografia sua e disser "olha-me este jarreta a expôr-se mediaticamente numa moldura.. está com cara de parvo! não há aí outra em que esteja a beber por uma palhinha", veríamos, concerteza que em sua casa não se pode insultar quem se quiser...

Dese-lho felicidades nos seus estudos...

Publicado por: Miguel Nascimento em março 4, 2005 01:24 PM

Já vi que o José Mário Silva enfiou a carapuça...

Fumar brocas não é ser alienado?

Publicado por: Miguel Nascimento em março 4, 2005 01:27 PM

Mas qual carapuça, Miguel Nascimento? Pelos vistos, apontarem-lhe os defeitos que aponta aos outros dói muito e o nível da conversa desce logo vertiginosamente.
Quanto ao segundo comentário, nem merece resposta. Vê-se mesmo que não conhece a esmagadora maioria dos eleitores do Bloco. Se fosse mauzinho (e agora apetece-me ser, até porque há limites para a paciência), sempre lhe diria que umas "brocas" talvez lhe tivessem feito melhor do que a intoxicação de incenso de que visivelmente padece.

Publicado por: José Mário Silva em março 4, 2005 01:32 PM

Darem conversa a fanáticos desse calibre não vos levará a lado algum. O gosto pela vitimização é uma constante dos talibãs com vocação para o martírio: o sr. Nascimento agarra-se com ambas as manápulas a uma boca infeliz para a converter numa espécie de perseguição generalizada à sua marca de superstição.
Tirem-lhe as tais "brocas" depressa, que aquilo está a fazer-lhe mal: não tarda, ele começa a sonhar-se também "cheio de Deus e fabuloso"...

Publicado por: ui, ui, mau, mau em março 4, 2005 01:36 PM

O único gajo cheio de Deus e "fabuloso" que eu conheço é o Luís Fabiano e esta época, lá está, ainda não fez nada de jeito. Um problema para o Papa (o outro, o Pinto da Costa) resolver.

Publicado por: américo em março 4, 2005 01:41 PM

Mas não reponde à minha pergunta? É ou não alienação? Disse alguma mentira?

Publicado por: Miguel Nascimento em março 4, 2005 04:46 PM

Não respondi à sua pergunta? Leia outra vez, Miguel Nascimento. Eu é que não estou para gastar mais latim em conversas de surdos.

Publicado por: José Mário Silva em março 4, 2005 05:10 PM

Não sou católico e não sou de esquerda. E parece-me que talvez o maior desrespeito ao papa ao homem ao velho e ao doente será a sua exibição no circo dos media e atrevendo-me a ir mais longe o prolongar da sua vida em circunstâncias que nehum de nós poderá avaliar ( será que ele o deseja?, será que sofre?). Aliás pensava que um dos pilares da igreja era mesmo o respeito pela vida, a aceitação da morte e acima de tudo a valorização da dignidade humana.

Publicado por: ASD em março 4, 2005 05:26 PM

Pareceis uns garotos a mandar bocas! Este blogue cada vez parece mais o big brother.
Toda a gente pode fazer piadas sobre quem quiser, mas o pior é atacar aquilo que nos é indiferente. Não faz sentido. E o ódio? Tanto ódio que se vê por aqui! Minorias, maiorias,brocas,talibãs, bah!

Publicado por: Zangalamanga em março 4, 2005 05:27 PM

Bom poste, Filipe. Mas com alguns dos problemas do costume. Os que nascem de se ter transferido a "Idade das Trevas" para o território da laicidade.

Começando pelo Nuno Sousa, trata-se de um epifenómeno. A sua graçola é totalmente inconsequente e irrelevante. Não ofende quem quer, só quem pode; e ali temos uma observação satírica que não atinge sequer a sotaina do Papa. A entidade que ele nomeia como Papa não passa de uma caricatura, passível de todo e qualquer desvario de linguagem, não é a pessoa humana ou religiosa do actual Papa. Podemos questionar o bom ou mau gosto de se fazer humor com a doença, mas é claro que o propósito é o da crítica ao simulacro, a imagem mediatizada. As reacções que provocou são outra história, a normal dinâmica de um blogue polémico que alimenta polémicas. Ou seja, não chega a ser um acontecimento.

Frutuosa é a discussão que afloras, Filipe, sobre a velhice. Mas antes, ainda uma nota. A Igreja é constituída por pessoas que escolhem livremente a vida religiosa. Eis a novidade para o laico desatento: a sua liberdade não desaparece no acto de assumir o compromisso. Podemos até dizer o contrário: é por se assumir um voto de obediência (por exemplo) que se realiza a liberdade em plenitude. Assim, não há distinção, separação, oposição entre "vontades". Aliás, na vida religiosa nem há "vontade", se pelo vocábulo entendermos um centro psicológico fonte de idiossincrasias. Esse será o plano meramente mental, o ego, e o termo adequado para designar as suas moções é "desejo". Enfim, a via religiosa será espiritual ou não será - o que é o mesmo que dizer "livre de desejos".

Por essa razão, os católicos, e os cristãos em geral, só se referem a uma vontade, a de Deus. A hierarquia da Igreja tem como CEO esse transcendente, o qual se comunica misteriosamente. Questionar a situação da doença do Papa, e previsível morte a curto prazo, como sendo a de um homem que está a ser privado de descanso para morrer em "paz", é nada entender do que seja uma opção religiosa. Um laico está incapacitado para compreender uma vida oferecida em sacrifício.

E posto este catecismo, os velhos. A obstinação com que a Igreja defende a vida, ao arrepio do gosto da época, choca e comove. Choca contra o vazio reinante, a qual vê células anónimas onde há seres humanos num dos seus estádios de crescimento, que expulsa idosos dos seus lares para os ir depositar em tétricos armazéns, que não suporta o incómodo de cuidar do desesperado e absolutamente incapaz. E comove, pois ergue altíssimo a promessa de uma redenção.

É só quando se tem experiência de cuidar dos desvalidos e miseráveis que se chega ao estado adulto. A fragilidade do velho, o castigo que a sua condição impõe, a ausência de qualquer recompensa material, social ou erótica, depuram a visão e desvelam uma essência - a humanidade. Nesses corpos estragados permanece a absurda alegria de viver.

Tomar conta dos nossos velhos, aprender com eles, exibi-los orgulhosamente, unir as gerações do fim com as do princípio, conviver com a doença e a debilidade, é ser-se humano. Ver no velho uma outra face da glória de existir, um momento do eterno, seria divino.

Publicado por: Valupi em março 4, 2005 05:30 PM

http://ai-o-camandro.blogspot.com/2005/03/ainda-nuno-sousa-e-o-papa.html

Publicado por: Farpas em março 4, 2005 07:29 PM

Há que convir que, hoje em dia, há uma apetência voraz por notícias do foro humano e privado de figuras públicas, mesmo que não respeitem (e principlamente se não respeitarem) a sua privacidade e dignidade. E convenhamos também que não é o desgraçado do Papa que tem a mínima culpa de tal... O que eu me perguntava, João, e achava que o Nuno deveria ter-se perguntado também, nos posts que fez sobre o assunto, era se tal seria a razão mais importante para esta cobertura mediática intensiva. Outras razões possíveis seriam as que referi. Isso era uma discussão muito interessante a ter na sequência daquele post. Outros assuntos seriam a dignidade da velhice, os limites do humor, temas abordados pelos comentários do Valupi e da ASD, que agradeço. Também agradeço o comentário do Farpas, que pelo que vi tem um bom blogue.

Publicado por: Filipe Moura em março 4, 2005 09:06 PM

Filipe, és um cavalheiro. Bravo!

Publicado por: Valupi em março 5, 2005 04:55 AM

Eu gosto pouco de papas, mas se for de aveia, com frutos secos misturados (gosto de sultanas, ou de albericoque), ainda como.

Publicado por: pataphisico_azul em março 7, 2005 01:05 PM

Filipe, se o Nuno Sousa tivesse demonstrado metade do teu bom senso, na explicação que deu para o seu post, podes crer que continuaria a ter os católicos à perna mas o benefício da dúvida por parte dos não crentes.
Dizes tu que talvez a intenção do rapaz tenha sido motivada pelo abuso na exploração mediática da imagem do Papa e não uma má vontade com os idosos? Olha que não, olha que não!
Começa por usar a doença como crítica e quando se tenta justificar, à laia de menino arrogante que não quer dar o braço a torcer, é muito explícito quando opina que a decadência do homem deve ser feita longe do olhar humano. A isto chama-se crueldade!
Eu estou-me borrifando para o Papa, enquanto chefe máximo de uma Igreja a que não pertenço, nem crente sou. Mas que raio, e se o homem desejar aparecer em público? O Sr. Nuno se não gosta vire a cara para o lado!

Publicado por: 3ª idade em março 8, 2005 12:34 AM