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março 03, 2005

OS EXORCISTAS — OU O SACRIFÍCIO DA VIRGEM

Só na semana passada, com a anunciada demissão do presidente do Partido Social Democrata, Pedro Santana Lopes, se cumpriu realmente a noite eleitoral de domingo. Mais do que a vitória do Partido Socialista, mais do que a maioria absoluta que este alcançou, o que verdadeiramente aconteceu no domingo foi a renúncia da "besta", o seu extermínio.
De tal forma assim é que toda a dinâmica eleitoral foi avaliada a partir dessa perspectiva: segundo os comentaristas niguém votou em ninguém, todos votaram contra alguém, contra o mesmo, quer os que votaram PS, quer os que iam votar PP (mas não votaram) ou até mesmo os que votaram CDU e Bloco, depois de nas últimas eleições terem votado Barroso. Ouve mesmo quem se indignasse, zangado, e repetisse a indignação, na terça-feira, por Santana Lopes ter fugido ao guião e destruído, assim, o pretendido e esperado efeito dramático do "the end". Comentaristas de todas as inclinações rejubilam com o fim daquilo a que chamaram o PSL, o partido feito indivíduo na pessoa do «menino-guerreiro»: se não serviram para mais nada, as eleições serviram pelo menos para isso; porque independentemente da política socialista (quem quer saber?) voltará, finalmente, a haver política.
Se a crítica ao homem se confundiu frequentemente com o vitupério preconceituoso (parece por vezes que, se a homossexualidade foi finalmente aceite, o celibato poligâmico continua a susceptibilizar alguns), depois de depurada, ela apontava sobretudo a «uma certa forma de fazer política», a um «populismo» sem qualquer conteúdo, à «demagogia» vazia posta ao serviço de um projecto individual de protagonismo e de poder. Tudo isto mais grave, ainda, em virtude da absoluta necessidade de discutir «questões fundamentais», de se proceder a um «debate sério» sobre os problemas de um país onde, durante quinze dias, e todos parecem concordar também sobre este ponto, nada de sério se discutiu. À esquerda e à direita todos exclamam agora, assumidamente e com orgulho, vade retro, reclamando para si próprios e para os seus editoriais, para as suas crónicas, parte da responsabilidade de ter conseguido voltar a enterrar o Belzebu. E benzem-se murmurando profissões de fé na democracia: tempo agora de o PSD se voltar a encontrar com a sua «essência», dizem, e o país, enfim, com a normalidade democrática.
Santana Lopes ter-se-á excedido, certamente. Mas só o cinismo ou a ingenuidade explicam tanto sangue, tamanha raiva, só eles explicam por que razão o suicídio político de Santana foi, lentamente, transformado num colectivo assassinato exorcista. Cinismo, estou em crer. Porque no fundo sabem bem que ao ‘populismo’ de Lopes se opôs afinal o ‘programático’ «voto em Portugal» e a retórica socialista da «confiança». Porque sabem, também, que no dia seguinte à demissão, militantes entrevistados e fóruns públicos discutiam o futuro do partido com base nos «perfis» daqueles que ainda só eram eventuais candidatos ao cargo. Porque, enfim, o problema do ‘populismo’, o problema da racionalidade democrática não esteve, nunca esteve, em última instância, em Santana Lopes. Ao contrário do que afirmam julgar, Santana Lopes não representou nunca uma mera excrescência pontual no virtuoso caminho da democracia político-partidária portuguesa. Muito antes de Santana fazer incidir sobre si os focos do show político, já o debate em Portugal descera ao mais rasteiro nível. Lembremo-nos: antes ainda do seu despontar, ofereciam-se já televisores em campanha e estas eram já, há algum tempo, solitários "one-man shows".
(Frederico Ágoas)

Existe algo de sacrificial neste massacre. Mas, sabemos hoje bem demais, a morte da virgem não impedirá que a fúria dos deuses se abata sobre nós.
Hoje como ontem é precisamente na discussão do «perfil» de Marques Mendes face ao «perfil» de Felipe Menezes que o PSD volta a realizar a sua essência. Porque ao contrário do que em tempos acreditaram os mais empedernidos marxistas e parecem hoje acreditar os nossos comentaristas, a realidade, ao contrário do pensamento, tem sempre razão. A essência das coisas é o que elas são na realidade e não o que elas devem ser. Pedro Santana Lopes foi bem real, e talvez o único reparo que se lhe possa fazer é de ter sido demasiado real. PSL excedeu-se, mas ao fazê-lo tornou apenas manifesto o que, desde há muito, era já visível. Se é verdade que as actuais formas de comunicação ao dispor dos partidos potenciam essa simplificação da mensagem, condensada ao absurdo na figura do líder, essa mercantilização do político não se funda apenas e só nos meios, funda-se também nos próprios fins. Na realidade, são os próprios partidos que anseiam que do seu ventre se desentranhe, a cada momento, esse homem providencial que os levará ao poder e aí os manterá durante longos e proveitosos anos. Onde predominam as comunidades de interesses, em vez de comunidades políticas (no sentido ideológico do termo), o projecto de poder individual de um serve bem o projecto de poder individual de todos.
É bem relevante, a um outro nível, que também o Bloco tenha finalmente cedido, durante a campanha, à tentação de centrar a sua imagem pública na figura de Francisco Louçã. E relevante também, não obstante nada no PC ter mudado, que a «simpatia» da sua nova figura de proa lhe tenha merecido o estatuto de «surpresa da campanha». Talvez a participação no actual jogo político assim o exija, mas no limite vemos então surgir uma contradição entre a política e essa racionalidade democrática por que todos parecem pugnar. Se em alguns casos a personificação poderá resultar de inescapáveis cedências ao espírito do tempo, noutros pretende-se de facto substituir o debate político pelo debate de personalidades. E entre uns e outros, para os distinguir, pouco mais sobra que a intenção; de que o inferno... Essa personificação, seja em que doses for (e evidentemente nada é transversal a Santana Lopes e a Louçã, senão a participação no mesmo jogo) é, e será sempre, o contrário da discussão racional dos problemas. Só nela se poderão fundar as diferenças de um produto que no limite tem as mesmas qualidades, mas também, por consequência e malogradamente, a crítica ‘parlamentarista’ a esse programa do vazio. E os especialistas brasileiros do marketing são só, afinal, quem melhor o sabe.
Não se trata de sugerir que nos grandes partidos estejam apenas e só aqueles que crêem ter algo a ganhar com isso. Não é esse o caso: se alguns dentro do PSD terão criticado Pedro Santana Lopes apenas e só por terem tido a perspicácia de vislumbrar que a uma ‘vitória’ fácil se sucederia uma estrondosa derrota, outros houve a quem a sua total falta de ideias os inquietou genuinamente. Mas esses pertencem já àquele grupo de quem se diz fazer falta à vida política portuguesa; esses que não obstante fazerem ainda parte dos quadros dos partidos, vão recusando uma e outra vez as solicitações para ocupar cargos políticos, até ao dia em que com eles se incompatibilizarem definitivamente.
Essa indignação diante da fraca qualidade dos «nossos políticos», que não vê nela senão o resultado de uma súbita demissão, da ausência de uma ética de responsabilidade da parte dos mais competentes, não está disposta a admitir que seja afinal à política, a esta forma conjuntural (embora predominante) de decidir sobre a vida, que falte ‘qualidade’. Porque essas pessoas e outras, tantas outras (porventura muitas mais) são também aquelas que noutros ambientes sociais, que não os da política, se dispõem a ocupar-se de questões que vão muito além das suas inquietações mais pessoais. São aquelas que nas suas actividades profissionais, mas também noutras, vêem os problemas serem resolvidos com recurso à dialéctica da razão, em profunda dialéctica com a dialéctica das intersubjectividades, do genuíno respeito pelo outro. São aquelas que são reconhecidas pelo que fazem e pelo que não fazem e que vêem quotidianamente as escolhas que tomam serem confrontadas com os resultados obtidos. Movidas por uma ética que reconhece que há meios que contradizem os fins, mas uma ética fundada na prática, na história, que sabe que em democracia, numa sociedade de sujeitos, submeter ‘pragmaticamente’ meios a fins é, frequentemente, fazer das pessoas objectos da democracia. Destruí-la, portanto.
Não se pretende aqui, como tantos fazem, gritar à boca cheia, do alto de uma qualquer tribuna académica, o fim dos partidos. Eles existem e continuarão certamente a existir durante mais alguns anos. Mas a clareza cristalina com que eles têm vindo a realizar essa sua essência, por um lado, mas sobretudo, por outro, uma certa deserção à política, são os mais recentes factores de uma esperança que acredita que existe uma luta a ser travada contra a soberania da política partidária sobre o quotidiano e pela ampliação de espaços de decisão democrática e participada. Porque se a democracia puder ser alguma coisa, e ela é-o desde já, ela será antes de mais o processo, o meio, o “movimento real”, pelo qual, colectivamente se vão estabelecendo os fins a atingir. E não o contrário.

Publicado por José Mário Silva às março 3, 2005 10:49 AM

Comentários

Pois. E então? Em Portugal, começou em meados dos anos 80 a ficar evidente o fim da ideologia – com o marxismo definitivamente engavetado algures num esconso do Largo do Rato, o anúncio da ruína da experiência soviética e as soluções políticas no Ocidente modernizado reduzidas a variações da social-democracia. Sem ideologia, sem sequer se perceber o que representam os conceitos de Esquerda e Direita, são as personalidades que estabelecem o critério, que motivam a escolha. É o carisma que se plebiscita.

Mas sempre assim foi. Os grupos elegem chefes pelas suas qualidades de liderança, não necessariamente pela autoria da visão. O chefe é um general, combate em nome de entidades simbólicas que identificam o grupo. Estamos ainda no domínio antropológico da tribo, e dele nunca iremos sair sem uma mutação evolucionária que altere o actual suporte da consciência e introduza um novo paradigma da identidade. Por enquanto, até agora e para o futuro realisticamente imaginável, a liderança corresponde a um corpo individualizado, sendo esta uma solução biologicamente inevitável. Quando este corpo é também cultural, a personalidade distingue os animais.

Não espanta, antes se saúda, a "personalização" do acto eleitoral. Que o Louçã apareça como sumo sacerdote, que o Jerónimo encante paternalmente, que ao Santana não se queira comprar automóveis, tudo isso é bom, é maturo, é uma inteligência colectiva em acção. A falência intelectual dos partidos, como fonte de projectos originais e eficazes, corresponde também a uma transição histórica. O caudal de licenciados em direito, economia e engenharia – que tem composto as fileiras dos recursos humanos partidários – não consegue responder aos novos problemas políticos, pois a política agora é também uma realidade ecológica. Estamos perante um obstáculo epistemológico, Gaia reclama uma geração de políticos formados nas ciências naturais e exactas. E Psique pede uma geração de políticos que habitem as ciências humanas da introspecção. Com esta renovação, virá uma ética fundada no rigor do método científico.

A democracia é a consumação política da individualidade. É da responsabilidade de cada um, pelo que ninguém se queixe. No dia em que as assembleias das juntas de freguesia estiverem a abarrotar de concidadãos entusiasmados com a defesa dos seus interesses individuais, veremos a utopia democrática realizada. Vai ser o bom e o bonito.

Publicado por: Valupi em março 3, 2005 04:21 PM

O teu texto é como a espada do Afonso Henriques.
Chata e comprida.
Porque não te dedicas à pesca? Poderia ser um bom futuro para ti até porque a concorrência nem é lá muito grande.

Publicado por: fazdeconta em março 3, 2005 07:11 PM

Não digas isso do texto do Frederico, fazdeconta. Que deselegância... tss,tss...

Publicado por: Valupi em março 3, 2005 07:48 PM