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fevereiro 25, 2005

IN MEMORIAM CABRERA INFANTE (4)

A cor da memória*

Que cor tem uma recordação? Conserva ela as cores da realidade imediata ou essa realidade mediata e portanto fantástica, tornada irrealidade pela distância, muda de cor com o tempo? Será afectada pelos estados de ânimo, passados e presentes? Uma recordação triste, por exemplo, terá tons nostálgicos, digamos malva, se for recordada numa época alegre? E ao contrário, recordar tempos felizes na desgraça, além de ser uma dor dantesca, terá as mesmas cores ou diferentes? E perderá a memória cor com o tempo, como uma velha película colorida, deixando cor em cada recordação? Ou será que todas as recordações são uma mesma recordação? Será a minha memória da cor das plantas no jardim da minha bisavó, há mais de trinta anos, quase um terço de século, sempre a mesma, sem consumir-se um pouco que seja, sem gastar as suas bordas nítidas de cada vez que a recordo? Ou são as recordações diferentes em cada momento em que se invocam ou descontrolam? Terá a recordação repetida da peónia a cor da peónia actual? Será também da cor daquela flor naquele dia? Não há sonhos confusos a cores e sonhos de uma exactidão nítida a preto e branco, tão arbitrários como temerosos, uns e outros? Não acontecerá a mesma coisa com a recordação, com as recordações? Fechando os olhos e criando uma câmara escura, poderemos recordar a cor vívida ou a obscuridade apaga a recordação? As recordações melhor desenhadas pela memória — «como se as estivesse a ver, a viver, neste preciso instante» — são fiéis à realidade ou à recordação? Não será a recordação o negativo processado da percepção fotográfica de um momento? Ou é uma velha foto colada num álbum, que se olha de quando em vez ou que cai inesperada de uma gaveta quando buscamos outra coisa qualquer? É a memória deveras um mecanismo ou, como os sonhos, outra dimensão do tempo? Será o espaço da recordação idêntico ao espaço real recordado, ou maior e menor, como a recordação das coisas vistas na infância e que depois só voltamos a ver em adultos? As recordações de um cego que pôde ver até um certo dia são diferentes da recordação desse mesmo momento que tem um acompanhante de então que ainda vê? Não há duas recordações iguais ou será que não há duas coisas iguais, porque entre a primeira visão de um objecto e a segunda se interpõe a recordação? E a recordação das coisas quando as vemos pela primeira vez? Será toda a visão um déjà-vu? Será toda a recordação a recordação de uma recordação? Será a memória uma segunda visão, ou trata-se, realmente, da primeira e única visão do mundo, da realidade, que não é mais do que um momento da recordação?

Guillermo Cabrera Infante, in «Exorcismos de esti(l)o» (tradução de JMS)

* O título original deste texto é «El (c)olor de la memoria» (a que se acrescenta um "d" por cima do "c"). O jogo semântico, impossível de traduzir, sugere a contracção de três palavras: color (cor), olor (cheiro) e dolor (dor).

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 25, 2005 04:32 PM

Comentários

Bom. Sugestivo.

Publicado por: Valupi em fevereiro 25, 2005 07:49 PM