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fevereiro 24, 2005

SIR WINSTON’S ELOPEMENT

Por razões profissionais, gastei recentemente algumas horas a pesquisar o relacionamento de Winston Churchill com a ilha da Madeira. Que sim, que o senhor esteve lá várias vezes, instalado em hotéis de sonho, a matutar nas suas memórias e a pintar lindos panoramas de Câmara de Lobos — então ainda livre da chaga dos "meninos das caixinhas".
A páginas tantas, dei com uma menção, ecoada até na pátria de Sir Winston, a um conto intitulado "Mr Keegan's Elopement", cuja trama tem lugar precisamente no Funchal dos fins do século XIX. Num site de promoção do turismo na Madeira, até lá vem a coisa reproduzida, com direito a ilustrações e tudo.
Como é sabido, o ex-premier até deve ter tido alguns méritos literários, a ajuizar pelo Nobel da Literatura que acabou por receber em 1953. Além de memórias e obras sobre a II Guerra, ainda escreveu um romance, «Savrola»; mas o alvo da nobélica distinção não foi este livro, descrito pelo Comité como sendo «desprovido de mérito», aquando de uma primeira candidatura.
Que tem então o conto acerca do tal "Mr. Keegan" de notável? Muito simplesmente, foi escrito pelo Winston Churchill errado.
Nos primeiros anos do século XX, um dos romancistas e historiadores mais populares dos EUA chamava-se... Winston Churchill. Aliás, o seu homónimo inglês conhecia bem este facto, pelo que introduziu um "S" na sua assinatura para evitar confusões. Anos mais tarde, chegou a sugerir ao escritor do Mississipi, também ele com alguma actividade política, que se deveria candidatar à Presidência, só para «confundir ainda mais os historiadores»...
Hoje, poucos conhecem a obra do Churchill americano, correndo ele a triste vergonha póstuma de ver a sua obra "reclamada" involuntariamente pelo líder inglês. Serve esta história para nos demonstrar que «aqueles que por obras valerosas se vão de lei da Morte libertando» podem apenas conquistar por uns fugazes anos essa tão duramente adquirida "liberdade". Por muitas e sonoras loas que se cantem à obra do artista, mal se calam as gargantas instala-se o atrito do tempo; e desse, ninguém sai vivo.
(João Garcez)

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 24, 2005 05:56 PM

Comentários

Eu dava um Nobel ao Liedson. Sinceramente. :-)

Publicado por: Francisco Curate em fevereiro 24, 2005 10:38 PM

Já vi isto noutro sitio. Pois è o blogue chama-se Matalanta.

Publicado por: MT em fevereiro 25, 2005 03:02 PM