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fevereiro 20, 2005

DO APEGO AO PODER

Tal como previ às nove horas da noite, Paulo Portas apresentou a demissão de líder do PP, apesar da sua derrota ser bem menos catastrófica do que a do PSD. Como de costume, o tom foi demasiado teatral, com ameaças de choro, beicinhos e alguns comentários ridículos (a referência a Deus, «sabendo que amanhã me vão criticar por isto», ou a extraordinária frase segundo a qual «em nenhum país civilizado os trostskistas ficam a um ponto de distância dos democratas-cristãos»). Mas o certo é que Portas fez o que tinha obrigatoriamente de fazer: assumiu o fracasso completo dos seus quatro objectivos eleitorais e demitiu-se. Na hora da derrota, não tergiversou nem fugiu às responsabilidades. Chegado ao "fim de um ciclo", teve a dignidade de largar o poder que construiu para si, ao longo dos anos, dentro do CDS. Honra lhe seja feita.
Já Santana Lopes, que falou mais tarde, foi igual a si próprio. Após a demissão de Portas, ele só podia seguir o mesmo caminho, até porque o seu desastre eleitoral assumiu proporções bastante mais trágicas. Mas não. Com o seu ar de vítima e a pose de "menino guerreiro" perseguido e abandonado por todos (sobretudo pelas grandes figuras do partido), ele lá se vai agarrando ao poder com unhas e dentes, num estrebuchamento patético de quem diz, nas entrelinhas, "daqui não saio, daqui ninguém me tira". A marcação de um congresso extraordinário para definir a nova liderança, da qual não se exclui à partida, mostra o carácter e a falta de escrúpulos de Santana. Mesmo perdido no meio das ruínas, ele não admite as suas culpas. Mesmo depois de ter levado o PSD ao naufrágio, ele ainda ameaça perturbar a inevitável sucessão, sabe-se lá com que armadilhas, boicotes e arremedos de luta interna. Não me espantaria, de resto, vê-lo avançar, finalmente, para a criação de uma força política feita à sua medida — o em tempos sonhado Partido Social Liberal (PSL), previsível "ladrão" de votos à direita, como o PRD foi à esquerda.
Em suma: no dia da verdade nua e crua, na noite da descida à terra, Santana podia ter saído com um último gesto de grandeza. Mas nem disso foi capaz.

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 20, 2005 11:56 PM

Comentários

Eu não gosto de Portas, mas acho que a frase «em nenhum país civilizado os trostskistas ficam a um ponto de distância dos democratas-cristãos» é a mais pura das verdades... Sendo de direita, não me incomoda os resultados das eleições, acho até a maioria uma óptima situação (não haverá lugar a desculpas), mas preocupa-me seriamente o crescimento destes senhores da mentira, calúnia e manipulação. A única coisa que me tranquiliza é que grande parte dos media que levaram estes senhores ao colo já perceberam que estes senhores são gente perigosa para a nossa democracia e sociedade. Garanto que na próxima não duplicam coisa nenhuma...

Publicado por: Camacho em fevereiro 21, 2005 08:15 PM

Responsabilidade, dignidade e honra não condizem com o Paulo Portas que ontem simulou uma demissão. Assistimos a uma cena gaga, que nenhum dos comentadores levou a sério (ou não soubessem eles o que a casa gasta). Quem pode substituir o Paulinho das Feiras? O que vai o Portas fazer fora do CDS?

Acho divertido, Zé, que reproduzas inocentemente o argumento do abandono do poder, precisamente quando o poder lhe foi retirado. Se for séria (enfim, tudo é possível), a demissão é mais um episódio da fuga lusitana ao combate político. Foi o que imediatamente disse a Maria João Avilez, pseudo-indignada com a "demissão" numa altura em que a Direita precisa de cerrar fileiras e assumir a oposição.

Mas não. A artificialidade da pose, aquela retórica do tempo da União Soviética, a liturgia fajuta para consumo (i)mediato, o melodrama canastrão, tudo compõe o retrato de um manipulador simultaneamente hábil e desastrado. O Narana já veio dizer o óbvio, que Portas deverá suceder a Portas.

E faz sentido. Nem o Portas aguentaria o vexame de falhar os 4 objectivos sem ter um gesto dramático para os desdramatizar. Eis, em segundos, resolvido o problemas da derrota: cria-se o falso problema da sucessão.

Donde virá a nada democrática ideia que uma derrota eleitoral implica uma inevitável demissão? É fazer dos partidos organizações que se medem pelos resultados eleitorais, como se fossem empresas em balanço comercial ou clubes em crise classificativa. É a lógica do consumismo, vendo no líder um produto que se retira da banca quando parece não ter comprador. É fazer da política um concurso de Misses, promovendo o voto em imagens afectivas e não em pressupostos teóricos.

O que leva a este bizarro corolário de vermos no Santana, apesar de tudo e contra todos, a chama de um combatente. Quando o Portas anunciou a demissão não havia uma única alma na sistema solar que não tivesse a certeza que se iria seguir a demissão do Santana, restando só saber qual seria o teor do discurso, se ele iria partir a loiça toda e até fazer uso do vernáculo. E o que nos saiu pela culatra não foi só um Godot, foi a gana, o tom, a linguagem não-verbal em que a demissão não se consumou.

Santana pode estar alucinado, pode ser um pândego à moda antiga ou pode ser um político que precisa de estar em baixo para se conseguir elevar. Uma coisa é certa, não parece um desesperado.

Publicado por: Valupi em fevereiro 21, 2005 08:46 PM

Teste

Publicado por: Valupi em fevereiro 22, 2005 02:07 AM