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fevereiro 18, 2005

O GRANDE MERGULHO

Em jeito de boas-vindas para a Alice, o leitor João Garcez enviou-nos este post (texto e foto) que muito agradecemos:

«Algo se alterara subtilmente na caverna. As suas paredes irregulares delimitavam um volume de água que já não era acolhedor. Ela deu por isso com a ajuda de indícios que quase passavam ao lado dos seus sentidos: a escuridão que se mostrava um tudo nada mais absoluta, o próprio espaço que parecia encolher e distender-se como uma criatura perto do pânico. De súbito, entrara ali uma sensação de ameaça, um vago pressentimento que tingia a água quente com uma poluição medonha mas invisível.
Um leve estremecimento no ritmo do seu coração pareceu-lhe ecoar por minutos entre as paredes da caverna. Com a elegância de um animal aquático, ela rodou o seu corpo até perscrutar tudo à sua volta; mas o que poderia ali deixar-se ver que não estivesse lá desde o início dos tempos? Nada.
Encerrada naquele poço escuro, sempre se soubera envolvida por um manto de segurança. A caverna era mais do que um espaço familiar; era o centro de um universo onde tudo era ordem, imutabilidade, paz. Aos seus ouvidos, apenas chegavam ecos tão fracos do mundo lá longe, um sítio onde ela pressentia um caos ruidoso que, imaginado dali, soava incompreensível. Mas naquele dia, tudo iria mudar.
Quase sem dar por isso, a sua mão direita afagou o fio que a prendia à vida, o tubo que lhe trazia oxigénio e segurança. Mas este talismã não chegou a tranquilizá-la: sem aviso, algo a esmagou, comprimindo todo o seu corpo num abraço sufocante.
Ela deixou que o medo tomasse conta dos seus gestos: nadava desordenadamente, sem rumo nem plano, apenas para longe daquela dor absoluta. Segundos depois, regressou de chofre a calma. Mas ela não teve tempo para se recompor. De novo se viu apertada num torno vindo de nenhures. Terror: seria a própria água a congelar-se num casulo sólido onde não havia espaço para ela?
Uma terceira agressão. E mais uma. Só então conseguiu vislumbrar a incrível verdade: eram as paredes da caverna que se encolhiam em seu redor. O que antes lhe parecera rocha acetinada e imutável pulsava agora com um propósito assassino: comprimi-la, expulsar o sangue do seu coração, despedaçá-la. Nada a poderia ter preparado para algo assim.
Ela tinha de sair dali. Tinha de nadar, fincar os pés algures, debater-se para alcançar a segurança anunciada pela luz que se derramava da saída da caverna. Deixou que o instinto a comandasse. Cega pela agonia de mais uma compressão mortífera, abriu a boca para lançar um grito de desafio à dor. E lançou-se em frente, para a luz.

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Ela ainda não silenciara o seu primeiro grito quando se viu suspensa pelos pés, no meio de um mundo insuportavelmente luminoso e frio. Com gestos rápidos e económicos, a parteira tratou de seccionar o seu cordão umbilical e de a embrulhar num pequeno cobertor. A primeira coisa que ela encontrou foram os olhos da sua mãe, abertos com todo o espanto do mundo.»

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 18, 2005 10:49 AM

Comentários

Parabéns ao João Garcez pela capacidade de nos levar "para dentro".

Publicado por: aurora em fevereiro 18, 2005 11:34 AM

Sempre me pareceu que a descriçãao da luz ao fundo do túnel daqueles que quase morreram, tinha haver com a memória do nascer.
BRRRRR, talvez este verão vá às Berlengas, aprender mergulho.

Publicado por: rosa em fevereiro 18, 2005 12:07 PM

Bonito.

Publicado por: Margarida F. em fevereiro 19, 2005 06:41 PM

Um texto muito bom na minha opinião,parabéns João.

Publicado por: Cândida Neves em fevereiro 21, 2005 05:16 PM