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fevereiro 17, 2005

O AUTOR DO HUMOR

Uma questão que de vez em quando ponho a mim mesmo quando gosto de algum trabalho que envolva criatividade e que tenha um cunho do autor, um trabalho assinado, é se eu gostaria do mesmo trabalho se tivesse sido outro o seu autor. Mesmo que eu também goste do trabalho desse outro hipotético autor (quero destacar este aspecto em relação ao que se segue). Um trabalho de um autor tem de ser apreciado no conjunto da sua obra, e em autores diferentes surgiria em contextos diferentes.
Isso é particularmente sensível no humor. Acho graça a uma piada contada por um humorista; será que acharia graça à mesma contada por um outro, mesmo de quem eu também gostasse? Em assuntos sensíveis, não necessariamente.
Tenho opiniões fortes e um humor algo cáustico. Os leitores do BdE talvez já se tenham apercebido disso. Uma das minhas maiores amigas disse-me, um dia: "in order to tell jokes about fags or negers, you have to be one". Na altura achei tal opinião um disparate politicamente correcto. Afinal, o humor não vale por si só? Hoje compreendo-a melhor.
Tudo isto veio acerca deste post, a que eu achei um piadão por o seu autor ser, além de um dos três melhores bloguistas portugueses, também um proletário ribatejano, como Jerónimo de Sousa: o Rui Tavares. O mesmíssimo post, com o mesmo título e fotografia, irritar-me-ia sobremaneira se tivesse sido escrito (como poderia, perfeitamente, ter sido) pelo Daniel Oliveira. Obviamente, não é nada de pessoal; simplesmente, é assim.

Publicado por Filipe Moura às fevereiro 17, 2005 08:41 AM

Comentários

"Humor cáustico"? Onde? É engraçado ver estas pessoas que gostavam muito de ser mázinhas e ficam todas contentes quando alguém lhes diz meia vez que o são, tipo:
-Tu pá, és lixado!
-Epá pois sou não sou? Dizem que tenho um humor cáustico! Eh!Eh!Eh!
Uma piada contada pelo Bin Laden deve ter mais piada do que a mesma contada pelo Khadafi! Com o Khadafi até já sabíamos à partida que teríamos que nos rir, com o Bin (que à parte de ser um conard tem um ar catita) devia ser uma barrigada de riso.

Publicado por: Zangalamanga em fevereiro 17, 2005 09:58 AM

Concordo com o Zanga... onde pára esse famoso "humor"? Isto para nem perguntar o que será isso das "opiniões fortes".
A sério: quem se preocupa tanto com a palavra "eu", fazendo dela o centro de tudo o que escreve, dificilmente poderá sequer saber o que é ter sentido de humor.

Publicado por: Ai ai, mau Maria... em fevereiro 17, 2005 11:13 AM

Esta atitude parece-me preconceituosa... É a individualidade a preverter os valores que a esquerda defende.

Publicado por: p em fevereiro 17, 2005 11:22 AM

Claro que a questão é relevante. Uma vez, num pequeno avião com cinco passageiros, o piloto, pronto a iniciar a partida, virou-se ligeiramente para trás e insistiu: «peço desculpa, mas já toda a gente apertou o cinto?». Um dos passageiros era ministro dum Governo onde a obsessão com o défice o impedia de praticamente qualquer nova despesa ou investimento; e respondeu: «eu desde que entrei para o Governo ainda não fiz outra coisa»... Claro que a piada não era a mesma se, em vez do ministro, a resposta fosse de um proletário ribatejano. O mesmo com o humor involuntário. Num dia mundial da floresta, o sr. presidente da república, dr. Mário Soares, fez uma visita à Tapada de Mafra. Havia uns problemas de protocolo, e o início da cerimónia arrastava-se penosamente. Então o sr. Presidente, para meter conversa, virou-se para o director-geral das florestas e perguntou: «Ó sr. engº, e que árvore é aquela?» O engº respondeu: «é uma oliveira, sr. Presidente»... Claro que a coisa não teria piada se em vez do sr. Presidente a pergunta tivesse sido feita por um proletário ribatejano. É como esta outra do sr. dr. Mário Soares, também numa cerimónia oficial, esta em Valença, com altas individualidades espanholas. Alertado pelos assessores para a presença de dois secretários de estado do país vizinho, o sr. Presidente andava de nariz no ar, a rondar. Às tantas vê um matulão de bigode, muito moreno, com ar obviamente espanhol, e pergunta-lhe qualquer coisa como: «e usted, é sécrétário de Éstado de qué?» E António Taveira (que chegou a ser candidato do PSD à Câmara do Porto), respondeu-lhe: «Sou secretário de estado do Ambiente, senhor Presidente». Ora a coisa não teria a mesma piada se fosse respondida por um natural de Múrcia...

Publicado por: Onan em fevereiro 17, 2005 11:51 AM