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fevereiro 16, 2005

O JERÓNIMO É UM BACANO

Do (pouco, e de uma perspectiva necessariamente limitada) que eu tenho acompanhado da campanha eleitoral portuguesa, parece-me que a principal surpresa é Jerónimo de Sousa. Não é propriamente uma revelação, pois Jerónimo já era conhecido em campanha das presidenciais de 1996. Mas quem estava (era o meu caso, e julgo que a maioria das pessoas) à espera de ouvir, em campanha, mais uma repetição da já tradicional cassete, enganou-se. Aparte as (velhas) tricas entre os partidos de esquerda, como as que o Jorge atrás referiu, Jerónimo de Sousa tem sabido apresentar propostas interessantes e tem conseguido comunicar com o eleitorado.
Não sou só eu a afirmá-lo, note-se. Comentadores totalmente insuspeitos corroboram. Há casos em que tal é afirmado por comentadores de direita; provavelmente, tal elogio não é inocente, uma vez que inegavelmente o principal objectivo da direita para as próximas eleições é que o PS não tenha maioria absoluta. É o caso deste elogio, e nem o aviso prévio («acrescento que não é estratégia para puxar pela CDU. É o que é!») nos convence de que não seja. O elogio de Luís Delgado é sincero e verdadeiro mas, vindo de quem vem, traz água no bico. Mas analistas de outros sectores, como Miguel Sousa Tavares na sua crónica da TVI, também confirmam a boa prestação do líder do PCP.
Tal boa prestação pode explicar-se pelo que eu aqui escrevi aquando da sua eleição para o cargo de secretário-geral: tal correspondeu a um processo de clarificação interna do PCP. Quando Carlos Carvalhas falava, tentava sempre agradar à ala ortodoxa e à ala renovadora. Por isso, nunca se notava convicção naquilo que afirmava. Durante doze anos, foi sempre um líder sobre brasas.
Jerónimo de Sousa nunca procurou ser unânime no partido. Representou a vitória de uma tendência num combate ideológico. Graças à clarificação interna que dele resultou, o líder do PCP pode defender causas em que genuinamente acredita, e falar à vontade, sem receio de críticas internas. Mesmo quando não se concorda com muitas das ideias que a tendência de Jerónimo representa, mesmo que muito da evolução recente do PCP represente um retrocesso, é sempre mais agradável de ouvir um político genuíno que acredita naquilo que diz. Se a CDU tiver um resultado razoável nestas eleições, Jerónimo de Sousa dará assim uma lição a todos os políticos cinzentos, ambíguos e carreiristas.

PS: Eu não vi o debate de ontem à noite, mas parece que então o Jerónimo não conseguia comunicar muito bem... Que a voz não lhe doa nos ataques à direita na recta final da campanha.

Publicado por Filipe Moura às fevereiro 16, 2005 08:56 AM

Comentários


"Não sou só eu a afirmá-lo, note-se. Comentadores totalmente insuspeitos corroboram. Há casos em que tal é afirmado por comentadores de direita; provavelmente, tal elogio não é inocente, uma vez que inegavelmente o principal objectivo da direita para as próximas eleições é que o PS não tenha maioria absoluta."

ORA NEM MAIS!!

Publicado por: corvo‡ em fevereiro 16, 2005 10:56 AM

Daqui nasce a questão: até que ponto merece aplauso um politico que passa seriedade e é capaz de comunicar as suas ideias com clareza mas cujas ideias deixam muito a desejar em termos de razoabilidade?

Lembra-me aquela história da "qual destes politicos gostaria de ver como seu representante" um bebado (churchil), um outro cheio de defeitos (o p. americano, nao vou agora arriscar qual)e um vegetariano que nao fuma nem bebe e nao tem nada na sua conduta que se lhe possa apontar. Os nomes surgem no fim, este é o Hitler.

Publicado por: homem_neves em fevereiro 16, 2005 11:22 AM


O PCP,no tempo de Cunhal, usava muito uma frase que dizia mais ou menos isto: "Quando os jornais burgueses falam bem de nós, alguma coisa estamos a fazer mal".
O que aconteceu ao PC quando tantos "comentadores insuspeitos" tipo Luís Delgado o elogiam agora ?

Publicado por: beatriz em fevereiro 16, 2005 11:53 AM