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fevereiro 14, 2005

JARDINS, PARQUES E CATURRICES

Nunca esperei que o meu texto anterior, que julgava inofensivo, gerasse tantos comentários. Vou tentar, então, sumarizar as minhas ideias.
Embora não seja especialista em arquitectura paisagista, sei o suficiente para saber que há dois tipos distintos de superfícies arborizadas urbanas: os jardins, de tradição francesa, e os parques, de tradição anglo-saxónica. Nos primeiros, é assumido que se está numa superfície humanizada, e estes traços não são escondidos, seja sob a forma de plantações em canteiros e todo o tipo de arranjos florais, seja com a presença de estátuas... No segundo, é suposto reproduzir-se a natureza o melhor que se puder e esconder-se ao máximo a presença humana. Em português, muitas vezes não somos cuidadosos a distinguir o "jardim" e o "parque", até porque os poucos jardins/parques que temos nas cidades portuguesas, em geral, são híbridos, mas em inglês e francês essa distinção é clara. Aqui em Paris, dois exemplos perfeitos foram dados por mim: o Jardim do Luxemburgo e o Parc Montsouris, a dois passos da minha casa. De qual dos dois tipos se gosta mais, é uma questão de gosto pessoal. Eu, claramente, prefiro um parque a um jardim. Dão-me licença?
Era esta a principal ideia do meu texto anterior. E limitei-me a manifestar um receio de que, com as "portas" de Christo, o Central Park se "ajardinasse" um pouco. Bem sei que as "portas" são arte efémera, que se trata de uma exposição temporária. Mas tenho sérias dúvidas de que seja essa a vocação natural do Parque. Por isso fiquei satisfeito por só durar duas semanas - manter esta exposição a partir da Primavera, quando os nova-iorquinos se reencontram com o Parque, seria desvirtuá-lo completamente. Ao mesmo tempo, admiti que gostaria de ir ver a exposição - oh, se eu gostaria de voltar a Nova Iorque! -, e que, se ainda estivesse lá, naturalmente não a perderia. Iria desconfiado - à partida, escrevi eu duas vezes, e só à partida, não gostei. Mas obviamente admitiria mudar de ideias se a visse. (Nunca, no entanto, sobre o seu carácter temporário.) Agora no Inverno até é natural que dê outra graça ao Parque, que está com as árvores todas despidas. Permitem-me, até lá, manifestar a minha opinião?
Sobretudo, nunca dei nenhuma opinião sobre a obra de Christo, que de facto desconheço. Mas não percebo tanta exaltação com o meu texto por parte de alguns comentadores.
Há ainda outros aspectos que seria muito interessante discutir. Conforme reparou o Sérgio, e parece-me que bem, a exposição chama a atenção para o espaço onde intervém. Para o mal e para o bem, todo o mundo fala agora do Central Park. Mas este projecto já tinha muitos anos. O Mayor Michael Bloomberg sempre o apoiou, mas só este ano se concretizou. Já pensaram que a campanha de reeleição de Bloomberg, com as eleições no fim deste ano, pode ter começado aqui?
Ainda sobre o Central Park, refiro que se trata de um dos meus três locais preferidos de Nova Iorque, e se ainda não é Património da Humanidade acho que deveria ser. A este respeito, recordo as sábias palavras do excelente maestro Cruges "esqueceram-me as queijadas!", n'«Os Maias», de Eça de Queirós, aquando da sua visita a Sintra com Carlos e Alencar:

«Para o gozar mais docemente, sentou-se adiante, num bocado de muro baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas arvores assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o relógio, as horas que fugiam para ir ver o palácio, a Pena, as outras belezas de Sintra - o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo correr a água, a ver monumentos caturras...
- Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto é um paraiso!...»

Eu concordo com Cruges e acrescento: digo o mesmo do Central Park. Para resumir a minha opinião: prefiro a placidez do Parc Montsouris aos monumentos caturras do Jardim do Luxemburgo; prefiro o meu Central Park sem as caturrices do Sr. Christo.

Publicado por Filipe Moura às fevereiro 14, 2005 08:08 AM

Comentários

E estou completamente d'acordo,mesmo que acho que é feio..nâo o Bulgaro, mas o que ele faz.O Central Park merecia melhor,o Bundestag etc é tudo de inutelidades,quanto a New York é preciso sair dos routeiros turisticos para conhecer a sua alma,mesmo se existe certos sitios nâo recomendaveis..exatamente como Lisboa onde estou contente de a ter percorrido a pé imensas vezes,porque éra pobre,onde se ve as feiçôes das pessoas com quem te encontras.

Publicado por: calhordus em fevereiro 14, 2005 09:08 AM

Filipe, acho que deves ser o blogger que mais pancada leva nos comentários. Reconhecem-se quase sempre as boas intenções mas parece-me que tens tendência para um tipo de escrita, por vezes demasiado simplista que tende a ser mal interpretada e a gerar comentários muitas das vezes absolutamente desmedidos e despropositados. O que é certo é que é recorrente isto acontecer nos teus posts. Portanto, de futuro, o melhor é teres isso sempre presente por forma a justificares com a máxima consistência possivel as tuas opiniões. Neste teu segundo texto aliás, já se percebe francamente melhor o que pretendias dizer no primeiro.

Publicado por: Bruno Parente em fevereiro 14, 2005 10:26 AM

Filipe Moura, disseste no post anterior que não te agradava a ideia (à partida) de The Gates. E explicaste porquê. Estás bem. Mas tens uma caixa de comentários de aberta, o que quer dizer que se pode comentar. A mim pareceu-me um texto ao lado, uma vez que referindo The Gates o ignorou por completo, nem mesmo referindo o site dos artistas. É uma posição, mas a intervenção tens aspectos tão peculiares que na minha opinião não devia ser assim referida tão... tão... de passagem. pela minha parte agradeço as explicações, mas a questão fundamental permanece, atiraste ao lado.

Publicado por: Luis Ene em fevereiro 14, 2005 10:54 AM

Filipe,
Quando a ignorância e a falta de cultura mais absoluta se aliam ao convencimento de se ter algo a dizer, surgem textos com os teus.
Falas do que não entendes, passas sobre temas importantes com a leveza dos néscios, e ainda te dás ao luxo de ser mal-educado e grosseirão. Se eu quisesse descer ao teu nível, explicava-te o que poderias fazer com a tal vaselina e com a tua mãezinha... pode ser que um dia ainda te conheça, cara-a-cara, e tenha ocasião para te explicar duas ou três coisas.

Publicado por: Ai ai em fevereiro 14, 2005 11:15 AM

Insisto que o C.P. não é nenhum exemplo de «vingança da natureza». Insisto que 'a natureza' não é aquilo - então dar o exemplo dos esquilos... Quanto ao Christo: claro que as suas propostas são discutíveis (quando uma obra de Arte não é discutível não é uma obra de Arte); mas daí ao entendimento de que a intervenção não tem nada que ver com a «vocação natural do Parque» - é obra... Finalmente, há aqui também algumas confusões nesta separação tão clara entre 'parque' e 'jardim': a única separação que V. faz, Filipe, é entre a'sua' ideia de Parque e uma 'certa ideia' de jardim. Um jardim, como é óbvio, não é necessariamente um espaço com «plantações em canteiros e todo o tipo de arranjos florais [e com a] presença de estátuas»...; e, se o homem intervem num espaço procurando «reproduzir» o melhor possível «a natureza» e «esconder o melhor que se puder (...)a presença humana» - bem, então estamos no domínio dum espaço 'cultural' na verdadeira acepção da palavra, onde a 'natureza' é uma espécie de 'segunda natureza' planeada em estirador.

Publicado por: Onan em fevereiro 14, 2005 11:38 AM

ok. Já deu para entender. O Filipe fez um post sobre uma inervenção do Christo sem fazer a mínima ideia quem era o gajo. Desconhecendo completamente o que ele faz há mais de 30 anos.
Tudo bem. Isto não tem nada de mal. Só que não diz respeito ao gosto, nem aos jardins, nem às estatuetas nem a nada. Apenas deve dizer respeito à falta de cuidado em se informar ou colocar um link para os leitores.

Foi um tanto fiasco dentro da qualidade cultural do bde. Mais nada.

Agora não vale a pena é insistir. Até porque o Filipe quando lê disparates acerca da Ciência costuma ser implacável.

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 14, 2005 01:28 PM

Ai ai, você comenta aqui com esse original pseudónimo desde o dia 29/01/05. A sua contribuição resume-se a sete comentários, todos dirigidos a mim, seis são em textos meus e um num texto do Jorge como resposta a um comentário meu. Dos seus comentários podem extrair-se partes como "estás mas é a ficar parvo", "não percebes grande coisa de nada", "ó Tonicha de trazer por casa". Portanto, ao menos seja honesto e não me chame grosseirão: limitei-me a responder ao seu nível. Quem o baixou foi você. E repito que não estou disposto a prosseguir um diálogo com pessoas do seu nível. Que deixam comentários destes, não se identificam e nem deixam um email válido. Creio que isto diz tudo a seu respeito. Acho graça como ainda tem o desplante de vir falar em "conhecer-me cara a cara". Qual é o seu conceito de dar a cara, ai ai?
Dito isto, você tem o direito de pensar o que quiser de mim, da minha ignorância, da minha baixíssima cultura e dos meus textos. Eu não lhe devo satisfações nenhumas. Só quero deixar bem claro que não tenho problema nenhum em admitir que não sei algo, quando for esse o caso. Faço isso frequentemente. E por essa razão procuro evitar falar de assuntos que não domino. Tenho dito e chega de conversa com comentadores baixos e anónimos.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 14, 2005 06:27 PM

Luís Ene e Miguel m., pela última vez: aquele NÃO ERA, e nunca pretendeu ser, um texto sobre Christo e a sua obra. Recuso portanto que me digam que "passei ao lado". Se insistem nesse ponto, vocês é que passam ao lado do texto! Em particular, Miguel, não era um "post cultural", nem tinha nenhuma pretensão desse tipo.
Mesmo assim é uma boa ideia falar na obra do Christo, embora eu não seja a pessoa indicada. Mas agradeço o link que o Luís indicou no comentário do texto anterior.

Onan, se ler o artigo do Público, vê que quem usa essa expressão de "vingança da natureza" aplicada ao Central Park é o próprio Christo! E eu não disse que a divisão parque/jardim fosse estanque.

Respeito no entanto as vossas opiniões e agradeço os vossos comentários, mesmo que, no caso dos do Miguel, a meu ver tenham sido desnecessariamente duros.

E agora, vamos passar a outro assunto, que este já deu o que tinha a dar.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 14, 2005 06:29 PM

Bruno, obrigado não só por este mas também por todos os teus comentários e intervenções. Se algum dia o Zé Mário quiser criar a posição de provedor do BdE, creio que tu és uma das pessoas mais indicadas. Um abraço.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 14, 2005 06:30 PM

Irra, que nem copiar consegues! Eu escrevi sim: "estás mais é a ficar parvo". Respeitinho pelos meus insultos, por favor.

Um texto que começa por "não vi; se estivesse lá não resistiria a ir ver; mas à partida a ideia não me agrada" e acaba com "quanto a esta exposição, pode ser engraçadinha mas ainda bem que só vai durar até 27 deste mês" não é sobre a obra que refere? Então é sobre o quê? Sobre nada, que é sempre o caso no teu caso...

Quem é que, ó meu pedaço de ar quente, foi buscar referências a vaselina? É por aí que anda o teu alto "nível"?

"Provedor do BDE"? Não tens a menor noção do ridículo, pois não?

Publicado por: Ui ui em fevereiro 14, 2005 07:52 PM

Já agora: também não tens ideia do que significa a palavra "caturrice", não é verdade? Sendo que esta é sinónimo de "teimosia", onde parará o sentido da oração "prefiro o meu Central Park sem as caturrices do Sr. Christo"??

Publicado por: Ai! Ui! em fevereiro 14, 2005 07:58 PM

Quem fala em "monumentos caturras" é o Eça. Serão "monumentos teimosos"? Não. Poderia recomendar-lhe tratados do João Gaspar Simões e outros que tais sobre a originalidade do estilo do Eça, o seu emprego inovador e sugestivo dos advérbios e dos adjectivos. Tal como falo dos monumentos caturras, poderia falar-lhe dos óculos burocráticos ou do cigarro pensativo. Mas não vale mesmo a pena. Caturra é o que eu sou de ainda estar a perder tempo consigo.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 14, 2005 08:25 PM

pois,com esses comentários pouco fica pra eu dizer,que mens!!

Publicado por: triciclo em fevereiro 14, 2005 09:08 PM

O que verdadeiramente me irrita na blogosfera é ver discussões que, à partida, são interessantes, estarem constantemente a ser bombardeadas por gente que deve ter tempo de sobra para gastar e diverte-se a insultar comentadores e bloggers. Qual é o gozo desta gente? Adiante.
Filipe: já percebi onde querias chegar. De qualquer modo, acho que se pode usufruir das duas coisas, a obra de Christo e o Central Park, complementam-se. E se investigares bem, verás que Christo teve outros méritos. Por exemplo, quando envolveu a Pont Neuf em Paris, os parisienses lembraram-se de um monumento que, de outro modo, passaria despercebido no quotidiano da cidade. Arte revolucionária, a de Christo?

Publicado por: Sérgio em fevereiro 14, 2005 09:38 PM

Hmmm... acho que era mesmo isso que o Eça queria dizer: é fácil, instrutivo e divertido imaginar um "monumento teimoso". Agora apor a mesma qualificação a uma obra de arte efémera já não me parece ideia assaz produtiva...
Não é Eça quem quer nem quem copia um ou outro maneirismo.

Publicado por: Pensativo em fevereiro 14, 2005 11:55 PM

Pensativo, imaginar um monumento caturra (ou uma obra de arte caturra, por que não?) é tão divertido como imaginar uns óculos burocráticos ou um cigarro pensativo. Divertido e sugestivo. É esse o estilo do Eça. Mas, por favor, longe de mim comparar-me ao Eça.
Estive a pensar: o meu erro foi ter posto o "não gosto" no título. Mas é que o "não gosto" já vinha do título do texto anterior, e eu achei que tinha graça relacioná-los... Eu não posso não gostar, se não vi. Os leitores extrapolaram o "não gosto" para toda a obra do Christo, e a partir daí foi o que foi. "Torço o nariz", em vez de "não gosto", seria o melhor título.
Nestes comentários chamaram-me tanta coisa, e niguém me chamou o que eu merecia ouvir - esteticamente conservador. Então tu, Sérgio (até por este teu último comentário), ou tu, Luís Ene, tinham toda a moral para me chamarem assim...
É provável que seja esteticamente conservador. Sou muito agarrado às "minhas" coisas. Um dia hei-de escrever uns textos sobre as coisas de que gosto em Nova Iorque, e então este meu texto vai fazer mais sentido.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 15, 2005 02:08 AM

Ai ai, grande maluco, eu nem devia se calhar estar a dar-te mais trela, mas olhei para o que me chamaste, "pedaço de ar quente", e tenho de te dar valor, pá. É que nunca ninguém me tinha chamado algo assim. Estou verdadeiramente impressionado. Desde que o Rui Tavares chamou "esplendor da ninharia" ao João Pedro Henriques que eu não lia nada assim. "Pedaço de ar quente"... Tem tudo a ver comigo! Principalmente hoje, que almocei andouillette com feijão branco! Se me tens chamado "pedaço de ar quente" antes, se calhar tudo teria sido diferente.
Olha, deixa-me só dizer-te uma coisa. É que não é ar quente... Quando é ar, não é quente. Faz barulho e não cheira (por isso é ar...). Quando é quente, geralmente não faz barulho (faz só um pffff suave), e cheira. Sobretudo cheira. Por isso não é ar, é um hidrocarboneto qualquer, creio eu, um alcano, não sei qual. O João André, se me ler, que esclareça. Vê lá se metes isto na tua cabeça, ó aiai, e sobretudo se a arejas um bocadinho (com ar frio, e sem alcanos). Se ganhas um pouco de calma. Percebeste, ó pedaço de alcano quente caturra?

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 15, 2005 02:10 AM

Filipe, tudo bem, só insisti porque insististe. :) Continuo a dizer que passaste ao lado, no sentido até de que foi um mau silogismo. Pode até não se gostar de Christo, e percebi que até não era dele que querias falar; ele, the gates, era um mero pretexto para dizeres outra coisa, mas era um mau exemplo, desde logo, como foi referido, pela transitoriedade da obra, e pelo respeito que os artistas têm em deixar tudo como antes. E depois, passar ao lado acontece aos melhores :) Aos piores acontece é com mais frequência. Andava eu por estes dias muito entusiasmado com o exemplo de Christo - que não aceita por exemplo apoios ou donativos - e este post caiu-me mal por de certa forma o menosprezar. E é mais que tudo que tenho para dizer. :) Um abraço.

Publicado por: Luis Ene em fevereiro 15, 2005 09:27 AM

Eduardo Prado Coelho lembrou-nos que se os resultados das sondagens fossem preisos não seriam necessárias eleições.É preciso votar contra um governo que não está preparado para governar e contra um primeiro-ministro que não foi eleito.Mais:é preciso afastar de vez um Portas que,sedento de poder,insiste em tentar ganhar votos junto de uma população que rapidamente esquece.Já ninguém se lembra da cerimónia de entrega de medalhas aos ex-combatentes quando aqueles homens foram buscar,qual cães,os seus méritos a um caixote.Já ninguém se lembra das dúvidas que ainda persistem no caso Moderna.É por estas e por outras que certos homenzinhos(pois de político nada têm)nunca ganham vergonha na cara.

Publicado por: Maria Teresa Burgos em fevereiro 19, 2005 03:09 PM