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fevereiro 13, 2005

É PORTUGUÊS? NÃO GOSTO

Não tenho conhecimentos de cinema aprofundados o suficiente para poder dar uma opinião que não seja algo superficial, mas essa minha opinião tenderia a coincidir com a do João Miguel Tavares (que tem esses conhecimentos de sobra). É o "caso Edgar Pera" de volta. Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto.

Publicado por Filipe Moura às fevereiro 13, 2005 01:27 PM

Comentários

Fui ler a artigo, que subscrevo, na íntegra. Só apetece perguntar: qual é a novidade? Não é assim em tudo, neste país? Cada um não olha, apenas, para o seu próprio umbigo, se transforma em eclético espectador da realidade, em cuja não se pode emiscuir, nem se pronunciar, porque tem de manter a sua "isenção"? Uma forma de "cumplicidade" com todo o tipo de desmandos, isso sim. Depois, se os outros não querem, nem "compram" essas obras ditadas pela covardia intelectual, a culpa é deles (nossa) que são todos estúpidos...
Enfim, fiquemo-nos por aqui, porque este tema, de tão podre, já cheira mal. Só que o barrete serve a muita gente, em muitos sectores de actividade... Sobretudo nos ligados às actividades intelectuais. Tem sido assim que se tem instalado, entre nós, esta situação infâme, de que urge sair, mas que parece estar de pedra e cal. Portanto, não é só o cinema...

Publicado por: Biranta em fevereiro 13, 2005 01:36 PM

Não percebes grande coisa de nada; mas quando é que isso te impede de mandar uns palpites? Que significa o post seguinte, sobre a obra do Christo? Nada.
Já agora, o "noite Escura" não é enfadonho nem impenetrável. Nem foi visto, estou capaz de apostar, por ti...

Publicado por: Ai ai em fevereiro 13, 2005 02:22 PM

O post de cima não é sobre a obra do Christo: é sobre o Central Park (e parques em geral). E o João Miguel Tavares jamais escreve que o "Noite Escura" é enfadonho e impenetrável. Você é que não sabe ler os textos, mas isso não o impede de mandar uns palpites. Eu pelo menos percebo um bocadinho da obra da Tonicha: ó ai ai, quem é que o acode?

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 13, 2005 02:40 PM

o problema é que o conhecimento não é chamado ao caso. Ser um zero em matéria artística serve tanto para não entender um filme como classificar de grande conhecedor alguém que não pesca nada do assunto. O JMT nunca diz nada que valha a pena ler.

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 04:03 PM

e que tudo indica ser mais um produto da "renovação delgadiana"...

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 04:26 PM

Vem a conversa sobre cinema e cá estou eu, mesmo de braço direito ao peito... fico à espera do Valupi, ZeroÀEsquerda e restantes.

Bom, a análise do JMT é simplista, excessivamente simplista. Ele dá como exemplos a França e a Espanha, mas também poderia ir buscar a Alemanha. Nestes países temos o cinema dobrado o que, parecendo que não, é factor importante. E porquê? Simplesmente porque habitua as pessoas a ouvirem a própria língua numa sala de cinema. Isso é importante, é um factor de aproximação entre o público e os filmes. Um Jarmusch não é menos impenetrável que a maioria do cinema português, mas sendo estrangeiro já é consideravelmente mais visto.

Além disso há que contabilizar a quantidade de filmes de comédia uns graus abaixo dos American Pies que são produzidas nesses países e que sobem a média de espectadores. Acresce ainda a qualidade de meios à disposição dos realizadores nesses países. Alguém conseguiria filmar mesmo que metade do Der Untergang em Portugal? o Non ou a Vã Glória de Mandar do Manoel de Oliveira talvez tenha sido o filme português mais caro de sempre (relativamente às épocas) e nem se deve ter aproximado do filme alemão. E os Táxi franceses? Algum realizador conseguiria autorização para utilização de ruas em Lisboa ou Porto como foi feito naqueles filmes? E orçamento para destruir carros?

Sejamos sérios. Com o número de filmes que é feito noutros países da Europa, é normal que os números de espectadores subam. Com a quantidade de dinheiro colocada à disposição dessas produções também. Afinal de contas ainda estou à espera de ver o primeiro filme português para crianças como já vi pelo menos na Alemanha ou Holanda.

Publicado por: João André em fevereiro 13, 2005 05:34 PM

"no final do ano passado, os resultados de um filme fizeram-me cair da cadeira. Noite Escura, de João Canijo, uma obra-prima sobre o mundo das casas de alterne, foi visto por míseros 12 mil espectadores. O cinema português ganhou tal fama de ser enfadonho e impenetrável que já ninguém se arrisca a pôr o pé numa sala"...
Ó Tonicha de trazer por casa: que quer dizer isto?
Quanto ao Christo, deves perceber tanto de arte pública e efémera quanto de parques em geral: népias.

Publicado por: Ai ai em fevereiro 13, 2005 06:24 PM

Ai ai, eu não sou obrigado a manter um debate com pessoas da sua laia. Mas se é assim que você quer, aqui vai um comentário ao seu nível. Se você anda sempre aos ais, da próxima vez use vaselina. Passe bem.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 13, 2005 06:53 PM

João, pá, por favor não venhas com as dobragens... Se o problema fosse a língua estrangeira, então haveria era mais espectadores nos filmes portugueses que nos estrangeiros. Na actual situação, pelos vistos do que os filmes portugueses precisavam era de uma dobragem em inglês e de legendas!
A grande questão que se pôe aqui, e para a qual eu não sou a pessoa mais qualificada para responder, é: será que é viável um cinema comercial português? Embora ninguém o assuma, a meu ver a maior parte das pessoas ligadas ao cinema implicitamente acha que não.
Já agora, João: eu GOSTO do American Pie. Acho um piadão. Bem melhor do que o "Doidos por Mary", por exemplo. O American Pie, no seu estilo, é do melhor que há.
E obrigado pelos teus comentários, mesmo de braço ao peito! Espero que voltes à melhor forma depressa.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 13, 2005 07:06 PM

http://canaldoesgoto.blogspot.com/2005/02/sugesto-de-leitura-ii.html

Analisando todo o percurso do cinema português, vendo as fitas que por cá são feitas, sabendo o que vai na carola dos merdas que atribuem subsídios e dos merdas que os recebem percebe-se bem a causa da mediocridade do cinema nacional.

Publicado por: esgoto em fevereiro 13, 2005 07:10 PM

Concordo com o João André, análise simplista. Porém, no simplismo há sempre uma parte da verdade. A ausência de uma indústria cinéfila em Portugal explica os filmes-tese, veículo para um nicho de realizadores que entrou na idade adulta nos anos 60 ou que saiu do Conservatório mandatado para deixar o nome nos ciclos da Cinemateca. Compreende-se: se tiverem a sorte de fazer um filme, sabe-se lá quando voltarão, se é que voltarão, a filmar... vai daí, dialogam com as suas referências, acertam contas com os seus professores, emulam os seus mestres. O resultado é de interesse académico, não popular.

Uma parte (principal, mesmo decisiva) do problema dos realizadores, e dos produtores, começa na falência dos argumentistas. Não há pessoas a escrever para cinema (ainda menos para teatro...) com qualidade suficiente, não é actividade que permita especialização. O "sangue novo" prefere fazer televisão, meio favorecido pela máquina de produção e de ganhos imediatos. Não temos histórias nem estórias para contar, pois ninguém as escreve. Portugal tem sido um deserto criativo.

De uma coisinha tenho a certeza, um filme que nos fale à inteligência e aos sentimentos é um sucesso inevitável, uma pasta medicinal Couto. Do que não precisamos é de ver as mamocas da Marisa (enfim...), antes o que lhe vai na cabeça (enfim...). Um filme que nos ilumine a experiência de sermos portugueses, europeus, ocidentais, de esquerda, direita, heterossexuais, homossexuais, castos, libertinos, laicos, crentes, humildes, orgulhosos, ambiciosos, generosos, novos, velhos, fêmeas, machos, miseráveis, abastados, desesperados, esperançosos, alegres, tristes, velhacos, probos, cínicos, românticos – ou seja, filmes que nos dignifiquem como seres humanos, que dêem vontade de falar deles.

Para tal, já não é preciso dispor de orçamentos hollywoodescos, a tecnologia permite fazer filmes ao preço da uva mijona. Haja neurónios e túbaros.

Publicado por: Valupi em fevereiro 13, 2005 07:44 PM

A minha opinião é bastante diferente da do Távares, do F. Moura ou do Valupi. O problema em Portugal não é com o cinema, com a arte ou com a Literatura contemporâneos, mas com a falta de educação estética generalizada. A maior parte das pessoas que ouve uma soperano a cantar desata-se a rir por achar rídiculo dentro do seu mundo demasiado estreito. Tem de haver uma educação para a fruição estética do objecto artístico, esse é o problema. A arte exige competência e o o nosso público é incompetente. Aliás o Tavares chega a espantar-se com o caso do Canijo, que apesar de ter um filme soberbo, foi muito pouco visto. De quem é a culpa? De quem faz ou de quem nem vê, nem se interessa? Claro que depois há o preconceitozinho, sempre o preconceitozinho para com o que é nosso.

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 14, 2005 01:16 AM

Sem dúvida, ZeroAesquerda, mas na definição de "educação estética" cabe este mundo, o outro e ainda sobra espaço para uma urbanização. A pergunta do Filipe vai noutra direcção: "será que é viável um cinema comercial português?"

A história do cinema, se esquecermos os irmãos Lumière (que tinham uma relação ambígua para como o invento), teve sempre na procura do povo a sua força motriz, começando por ser espectáculo de feira. Os exercícios intelectuais nesta arte nunca foram populares, tal como toda a expressão artística erudita não o é – e, vamos arriscar, não o pode ser.

Todos nós (claro, nem todos nós...) crescemos e fomos educados em famílias e escolas onde a experiência artística esteve ausente. Os partidos e as sucessivas equipas ministeriais nem sequer conseguem acordar num currículo e programas estáveis na Educação, quanto mais estarem preocupados com esse ente intangível e abstruso da "educação estética". As fontes actuais da educação estética, para o período de formação dos nossos concidadãos, são os videoclips, as revistas de moda e das modas, os jogos de computador, a Internet, o design gráfico e o cinema. Vai assim, e não é pouco.

Para se fazer cinema popular em Portugal é necessária uma geração que não faça do cinema um panfleto ideológico, mesmo se de uma ideologia estética. O cinema popular tem uma fórmula, com mais de 70 ou 80 anos. Consiste na satisfação da carência de fantasia, seja de referente quotidiano, histórico ou imaginado, adentro de uma técnica de "storytelling". Neste sentido, é um escapismo, uma panaceia psico-social, benéfica, plástica e fértil.

Griffith embrulhado em Eisenstein.

Publicado por: Valupi em fevereiro 14, 2005 05:53 AM

Pronto, indo directamente à pergunta, não acho que seja viável um cinema comercial Português. Porquê? Porque o monopólio do cinema comercial já está nas mãos dos norte-americanos há uns anos bons. E se alguns paises (como a França, a Itália ou a Inglaterra) têm a capacidade de, de vez em quando, furar esse monopólio, outros (como Portugal, o Brasil, o Canadá, e muitos outros) simplesmente não conseguem. Agora, vale a pena continuar a tentar ombrear com os norteamericanos por este tipo de cinema comercial, ou partir para outro cinema, diferenciado do primeiro, marcadamente Português, se quiser? Eu penso que apenas a segunda hipótese é válida, mas é uma opinião. Opinião, de resto, suportada pelas tentativas desastrosas (em todos os sentidos - desastres também de bilheteiras) de cinema Português ligeiro que foram o "Pesadelo Cor-de-Rosa" ou o "Zona Jota" (e houve mais).
PS: Eu não acho que em "Educação estética" caiba este mundo, o outro e mais não sei quê. Apenas ainda não vi nenhum ministério da Cultura Português seriamente preocupado em acções de divulgação cultural. No Brasil, por exemplo, de onde escrevo, já vai havendo muito disto (concertos de música com música e explicação; leitura ou dramatização de textos literários e interpretação dos mesmos - tudo para grandes auditórios) e vamos ver, se o esforço for continuado, a longo prazo que frutos dará.

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 15, 2005 03:47 AM

Peguemos no 'decano' - Manoel de Oliveira que tem um único bom filme, na minha opinião, e que é o Aniki Bóbó.

Os restantes são fruto do Alzheimer ou, quiçá, de uma insuspeita artrose músculo-esquelética (dos que vi: Non ou a Vã Glória, Vale Abrãao, Party, os Canibais, Vou para Casa, o execrável Soulier e este último). Longas e chatas como um dia sem pão, as películas de Manoel de Oliveira são uma lenta e torturante masturbação senil, borrifando ao ralenti o público comatoso com uma parafernália de actores que declamam como se estivessem no teatro do bairro, embrulhados em planos tão dinâmicos como o cadáver mumificado de São Francisco Xavier.

A última ejaculação rançosa de Oliveira, uma possidonice que dá pelo nome de "O Quinto Império" tem um Dom Sebastião tipicamente português - chegou a rei por ser neto do patrão -que, a dado momento, reza de joelhos, em pleno século XVI. Atrás de si, no décor da mise-en-scéne, um outro rei o olha, pasmado: é Dom João VI, o monarca do século XIX que fugiu para o Brasil.

Um anacronismo? Não, é um filme português.

É nestas alturas, quando comparo esta estopada com o magnífico (e espanhol) A Crónica do Rei Pasmado (sem falar em outro produtos de língua portuguesa como o Carandiru ou o Cidade de Deus) que sei que para que isto avance é preciso que alguns vacas sagradas do nosso meio pseudo-intelectual emigrem para Veneza ou que arrumem as botas de vez.

É que já não há mesmo paciência!

Publicado por: alexandre em fevereiro 15, 2005 12:12 PM

O cinema português (e eu até nem queria falar mal das nossas coisas, cioso que sou delas) sofre dos males gerais da nossa cultura: a desconfiança da imaginação, a falta do à-vontade que se permite um risco, a ausência da brincadeira com a vida.

Sisudos, melancólicos, isso sabemos sê-lo bem. Nalgum caso feliz, conseguimos imitar a descontracção, mas ela sai-nos falsa. Torcem-se-os os dedos dos pés, ao ver, ao ler. Porque o que se dá cinema dá-se na nossa ficção. Há coisas engraçadas no país? Pois há. Hoje só penso nas generalidades.

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 15, 2005 10:16 PM

Alexandre,
Há coisas boas e coisas menos boas na filmografia do Oliveira. De entre todos os filmes que citaste, não percebo como pudeste dizer mal do "Vou para Casa". Viste mesmo? É que este, na minha opinião, foi o último grande filme do Oliveira. Inovador e grande em todos os aspectos. Argumento bem feito, bons actores, forma de filmar extremamente rebelde, mas em harmonia com o todo, etc.

Fernando,
"a desconfiança da imaginação, a falta do à-vontade que se permite um risco, a ausência da brincadeira com a vida." - coisas que caracterizam o cinema actual Português. Então e o João César Monteiro? O que são os filmes do João C. Monteiro senão o reverso disso tudo que diz estar mal no cinema Português? O último filme dele (Vai-Vem) estreou ontem, por assim dizer. Quero dizer que ainda não se pode falar de um cinema contemporâneo que não inclua forçosamente a obra de João César Monteiro, apesar de este cineasta ter morrido.

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 16, 2005 03:52 AM

ZeroAesquerda,

Salve-se, sim, o João César Monteiro, de acordo. Só tive oportunidade de ver dois filmes dele - vivo longe, é o destino. Mas aí está alguém que escapava ao estático e ao miserabilista, as duas feições de cinema que o snobismo da nossa crítica - as vacas sagradas a exportar para Veneza, sonhemos, Alexandre - tanto preza. Falta-nos o sentido do lúdico, do jogo, da pilhéria amável e inteligente. Falta-nos? Não sei. Mas acabamos por não vê-lo. Os subsídios fluem para o experimental e para o tétrico. Que país o nosso!

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 16, 2005 05:59 AM

Concordo muito com o Fernando. E é ver o encanto com que retornamos vezes sem conta ao António Silva e ao Vasco Santana. São filmes marcados por um contexto político, pois sim, mas exercícios de cinema popular como não voltámos a ter. Fosse por inépcia dos realizadores e da indústria da época ou pelo seu reverso, essas obras concentram-se em contar a estória e veicular o trabalho dos actores, sem almejar qualquer golpe de asa artístico. O resultado é um sucesso, intemporal.

A comédia que ali se consome tem graça e está em estado de graça. Tem um corpo exterior de ingenuidade social (alvo de críticas ideológicas) mas também um corpo interior tão profundo e vital que vai parar ao Portugal de Camões e Gil Vicente. Faz-nos muito bem e muita falta.

Publicado por: Valupi em fevereiro 16, 2005 04:09 PM

De acordo, Valupi. Mas repara melhor no contexto desse cinema. Nessa altura o Estado não deixava entrar tudo em Portugal, pelo que este cinema não era atrofiado por outro com mais meios (de produção, de divulgação, etc.). Agora, estamos em contexto de livre-mercado na industria do cinema. Se optarmos pelo cinema comercial e ligeiro, não vamos a lado nenhum, porque não aguentamos a concorrência e superioridade dos EUA. O melhor, na minha opinião, é explorar outra via. Até por razões de mercado isto faz sentido: explorar as zonas onde o mercado não está saturado ou monopolizado.
PS: Fernando, aconselho a compra do pack de dez DVDs com a obra integral do João César Monteiro. Não é assim tão caro e vale muito a pena, sobretudo para quem está longe.

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 16, 2005 08:13 PM

ZeroAesquerda,

Obrigado pela sugestão dos DVDs. Hei-de segui-la.

Ainda mais isto: o cinema «ligeiro» (termo teu), mesmo português, ou exactamente porque português, pode atingir um «estado de graça» (termo do Valupi), e pode também prender a malta de imadiato. Basta dar oportunidade a criadores, jovens, ou nem tanto, gente com imaginação, comunicativa, amante do risco. A imaginação desarma, é uma força danada, é desestabilizadora, nunca sabemos o que virá depois.

E é disso que o nosso Establishment (prémios, subsídios, opinion makers, o diabo) anda sempre receoso.

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 17, 2005 11:27 AM

Só mais isto: no cinema, na ficção, o MEDO DE FAZER RIR é tremendamente bloqueador. E produz monstros.

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 17, 2005 11:34 AM

Zero (sem menosprezo na redução, antes simbólica de um absoluto), discordo. A via do César Monteiro é a de uma poética com um pé na genialidade e outro na loucura (não confundir com a doideira ou a maluqueira). É um registo eruditamente idiossincrático, que só quando se exercita na memória do burlesco nacional consegue cativar públicos transversais. Sem isso, é de uma exigência intelectual e fúria criadora que escapa ao gosto popular.

Por outro lado, haverá sempre espaço para um cinema português que fale em português aos portugueses todos. Inevitavelmente com concessões aos clichés, às rotinas e ao superficial, por comparação com as vanguardas e os locais do saber, permitirá mesmo assim o renovo de uma tradição. A tradição, pela sua própria natureza, exige a constante transmutação do essencial sem perda da essência. Dou só um exemplo: nos Lusíadas narra-se um episódio em que um dos marinheiros foge de um grupo de nativos e, ao chegar ao barco, é alvo do humor dos companheiros. Esse naco da arte do Luís coloca-nos no meio das energias vitais ali representadas, é de um realismo holístico, e manifesta o tipo do humor mais benigno, mais sábio - e até espiritual -, aquele que nasce da imersão na própria vida e no seu desconchavo permanente. Ao invés, o humor contemporâneo é cínico, agressivo, mono-maníaco, patológico, niilista.

Eu diria ao contrário, que nos faz falta maior comércio com as produções estrangeiras, aprendendo técnicas e soluções. Depois dessa propedêutica, venha a imaginação e o gosto pelo risco, que o Fernando tão acertadamente deixa em repto. Porque há aqui um dado incontornável, o da cultura. As técnicas são universais mas as culturas são únicas. Enquanto existir Portugal, pode sempre existir um cinema português que nos una, que transmita um legado comum, que moa farinha.

E, sim, que também liberte as divinas gargalhadas. O riso é a experiência mística mais acessível que eu conheço. E há lágrimas lamechas que transformam desertos em jardins babilónicos.

Publicado por: Valupi em fevereiro 18, 2005 02:30 AM

Fernando e Valupi,
A minha opinião é a de que não há espaço para o cinema comercial (o cinema com uma fórmula de sucesso, como disse e bem o Valupi lá para trás) português. O mercado não está disponível. Nada disto tem a ver com o fazer rir. A nossa comédia não pode é ser mainstream. É que ninguém arrisca ir ver um filme desses Português, quando na sala ao lado o filme Americano oferece mais garantias de qualidade (veja-se, por exemplo, o caso de "A mulher que acreditava ser Presidente dos EUA" - uma comédia ligeira, bastante bem conseguida dentro do género e, no entanto, o mesmo desastre de bilheteiras). O nosso cinema está condenado a ter que fugir à normalidade para encontrar o seu espaço vital e sobreviver. Fazer um cinema nas margens da normalidade é difícil, não está ao alcance de todos e há, claro, aberrações. Esta é a minha opinião, que pode ser revista daqui a uns anos. Era talvez bom sinal que alguma coisa acontecesse de modo a provar o meu erro de julgamento, porque pressupunha que as leis de mercado no cinema afinal até nem seriam assim tão selváticas (devoradoras).

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 18, 2005 03:29 AM

É claro que o João César Monteiro escapa ao gosto popular. Se ele fizesse os filmes de acordo com o gosto popular, não teria o sucesso que teve, porque não seria visto nem por gregos nem por troianos. Porque o grego não vê cinema nacional (teria de haver a tal educação para a fruição estética, de que eu falei lá muito para cima). E há por aí muito grego ainda ofendido com o "Branca de Neve," apesar de nem sequer o ter visto ("Nem preciso. Com o ecran todo preto, não há nada para ver" - resposta à grego). O troiano, ainda vá, se o convencerem, pode ser que sim, que se inetresse. O caminho para o cinema Português é assim tortuoso. Tem de ser mais visto, tem de dizer mais às pessoas, mas sem se tornar mainstream, mantendo uma diferença marcada com o cinema comercial da Indústria de Hollywood. Ajudava muito, mantenho, procurar criar interesse no nosso cinema com acções de divulgação, ciclos de cinema nacional nas cidades pequenas e grandes, com palestras explicativas (mas sem grande rebuço, porque toda a gente tem pavor de pedagogias), etc. Levar as pessoas de encontro ao cinema, em vez de o cinema ir ao encontro das pessoas. Porque já há um cinema que vai de encontro às pessoas. Esse lugar está ocupado. Quem foi ao ar...

Publicado por: ZeroAesquerda em fevereiro 18, 2005 03:52 AM

ZeroAesquerda e Valupi,

Acho que vocês os dois (nem é grande vantagem, tanto discernimento mostram um e o outro) vêem bem. Tu, ZeroAesquerda, quando lembras que no «mainstream» do cinema o lugar está tomado, e tu, Valupi, quando não desistes da capacidade do criador português. Mas estamos ainda, e sempre, a falar de cinema. Ora, porque teria de apostar-se só na sala ao escuro com pipocas?

Digo isto porque exactamente ontem à noite, quinta-feira, terminou na TVE a série «Cuéntame como pasó», que relatava, através da vida de uma família da classe média baixa, os últimos decénios da ditadura espanhola. Tema foleiro? Até certo ponto. Manutenção de «tipos»? Também. Simplesmente, a trama era tão bem conseguida, e os actores tão bons ou tão bem dirigíveis (eram nítidos a naturalidade, o domínio da expressão, a arte de mostrar-se surpreendido ao entrar numa casa desconhecida, mesmo ao «take» 12), que a série se tornou um sucesso de audiências.

É isso: também a televisão serve para investir a fundo na produção nacional. Onde existirem qualidade e capacidade de comunicação (diálogos autênticos, boa actuação, um ligeiro efeito «sitcom») pode esperar-se a adesão do público. E não é pecado, não é suspeito, ter boas audiências.

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 18, 2005 08:05 AM

Amigos

Concordo contigo, Zero, quando indicas a baixíssima probabilidade de sucesso para um filme comercial português. Para começar, Portugal é uma aldeia, ou seja, temos pouca gente. Daí vem a ausência de uma indústria, isto é, temos poucos técnicos (de realizadores a directores de fotografia, de actores carismáticos a produtores, etc.). Disto resulta um sistema perverso de concessão de verbas, o qual descamba no cenário que o Fernando descreveu, onde as capelinhas viabilizam exercícios egocêntricos (não pondo eu o seu valor artístico em causa, toda uma outra questão). Para rematar, a distribuição alimenta o público com o produto americano, o qual chega e sobra para as encomendas do povão.

Pois bem. Muito há aqui para analisar. A tua tese é a de que nos deveríamos especializar no registo da diferença, promovendo filmes com características nacionais (a respectiva visão de cada um dos autores) e não internacionais (as fórmulas da indústria hollywoodesca). Essa tese é sensata e fértil. Apenas lhe acrescento a crença de também ser possível competir com a superprodução pela via da relevância temática e acerto da realização. O exemplo mais fácil é o do Almodovar, autor forte que chega a públicos brandos.

Fundamento a minha esperança no facto de um miúdo de 15 anos em 2005 ser capaz de se fascinar por um filme português sem pinga de inovação artística ou tecnologia ofuscante e já com 70 anos no bucho. Esta ligação faz-se nos canais vitais, aquilo que nos liga uns aos outros numa dada cultura. Num país sem memória (com história mas não estórias) e sem objectos simbólicos activos (sem "inscrições", para usar o termo da moda, que em boa hora o José Gil nos ofertou), os filmes portugueses do ciclo do António Silva e Vasco Santana são o nosso Western - um espaço mitificado onde se projectam identidades sucessivas, diacrónicas. Até agora, ninguém conseguiu feito igual; mas a prova da ausência não é prova da impossibilidade da presença.

Fernando, não posso concordar mais. A televisão é uma maravilha, e não apenas em sentido etimológico. As facilidades produtivas são quase nulas, tão oleada está a máquina. Só faltam as cabecinhas.

Publicado por: Valupi em fevereiro 19, 2005 07:59 AM

Errata: "As DIFICULDADES produtivas são quase nulas [...]"

Acto falhado, fantasma de facilidades nulas para a criatividade.

Publicado por: Valupi em fevereiro 19, 2005 08:02 AM

Amigos,

(Enquanto não caímos pela borda do abismo...)

Almodóvar, sim, excelente exemplo. E, a partir de agora, também Alejandro Amenábar, com o imperdível «Mar Adentro» (candidato a Óscar), que estreará em breve em Portugal, se não o fez já.

Dá gosto termos vizinhos assim (desde que nós nos demos ao respeito).

ZM: não sei se estás propositadamente conservando esta discussão dentro da página visível. Se sim, obrigado. Mas quer sim quer não: não seria uma ideia prolongar, por princípio, a vida de «posts» que tivessem mais de, digamos, 10 comentários, dos quais alguns muito recentes? É só uma sugestão à comissão política editorial... Se tecnicamente exequível.

Publicado por: fernando venâncio em fevereiro 19, 2005 08:54 AM