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fevereiro 13, 2005

TAMBÉM NÃO GOSTO (E NÃO É PORTUGUÊS)

Não vi; se estivesse não resistiria a ir ver; mas à partida a ideia não me agrada.
O que é especial no Central Park é, como aqui se indica, ser «uma espécie de "vingança da natureza no meio da selva de construção». Ou seja, com um mínimo de intervenção humana. Com os esquilos à solta. Como são todos os parques em Nova Iorque. Como era em Lisboa o Jardim da Fundação Gulbenkian antes da recente e infeliz intervenção do (ironicamente, autor original) arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. Como, aqui em Paris, são o Bosque de Bolonha e o (bem perto de mim) Parc Montsouris. Curiosamente, ambos bem menos valorizados do que os Jardins das Tulherias ou do Luxemburgo, dois bons exemplos daquilo que eu não procuro num parque: canteiros ajardinados e estátuas e fontes... Por esta razão, não gosto à partida desta intervenção no fantástico Central Park. Ao princípio, quando li "portões do Central Park", ainda julguei que fosse aquele projecto, de que há algum tempo se falava, de instalarem grades a toda a volta. Creio que essa aterradora ideia foi suspensa. Antes assim. Quanto a esta exposição, pode ser engraçadinha mas ainda bem que só vai durar até 27 deste mês.
(Já agora: graças a esta exposição, a Câmara de Nova Iorque pensa arrecadar uma receita extraordinária de 2.4 milhões de dólares. Como? Com impostos municipais sobre as vendas extraordinárias. À atenção dos liberais.)

Publicado por Filipe Moura às fevereiro 13, 2005 01:31 PM

Comentários

Caso para dizer o que tem o cu a ver com as calças. Acho que é o que se chamar passar completamente ao lado.

Bom, porque não deixar as pessoas pensarem também por si mesmas e apontar para o site dos artistas -http://www.christojeanneclaude.net/tg.html

Uma espécie de contaditório :)

Gostei da fotografia.

Publicado por: luis ene em fevereiro 13, 2005 02:46 PM

santa ignorância...

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 03:52 PM

"ainda bem que só vai durar até dia 27"

... pois, é o que costuma acontecer com a arte efémera...

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 03:55 PM

Olha eu acho bem engraçado...Podiamos fazer algo aqui no Parque eduardo VII.


www.blocoesquerdaprocaralho.blogspot.com


Publicado por: Pantera em fevereiro 13, 2005 04:03 PM

"Quem mora num subúrbio, cujo carácter ajardinado tem como intenção destacar-se do carácter escabroso de deserto de pedra do centro urbano, experiencia o jardim não como uma zona vedada ganha à natureza, mas como uma tentativa, um pouco ridícula, de introduzir um pouco de natureza na a cultura. Isto é uma experiência muito característica para o homem actual, e se não fosse ocultada pelo hábito, poderia servir como chave para a descodificação da nossa existência moderna. Porque isto é uma experiência que mergulha a nossa vida numa disposição completamente diferente daquela, em que provavelmente viveram os nossos antepassados "históricos". Nós os atrasados da história não deambulamos, como os nossos antepassados, em jardins risonhos, mas em jardins ridículos. O sorriso - visto a partir d'aqui - arcáico transformou-se em nós numa ligeira careta do ridículo. Nós vestimos outras mâscaras do que os nossos antepassados, somos pessoas de uma espécie diferente, e a diferença entre a nossa mâscara de jardim e a deles é um exemplo para a diferênça entre pessoas da história e da emergente pós-história. [...]"

(em Vilém Flusser: Dinge und Undinge)

Visto por esse prisma, a profanação da natureza falsa - do Central Park, que aliás não conheço - não me incomoda...

Publicado por: Lutz em fevereiro 13, 2005 06:42 PM

Lutz, ora aí está um ponto de vista de que eu discordo, mas que respeito.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 13, 2005 07:11 PM

o texto é um disparate pegado e só faz sentido se for aplicado aqueles jardinzecos sub-urbanos com muita relva e palmeirinhas tropicais que por cá também se usa.
Como é óbvio o Central Park não tem nada a ver com isto e muito menos os embrulhos provisórios do Christo.

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 07:30 PM

Miguel m., não sei de onde vem o "cá também se usa". O Central Park não tem nada a ver com jardinzinhos e palmeiras; por isso, gosto dele assim mesmo, como é. Não tenho nada contra a arte do Christo; limito-me a dizer: neste caso, ainda bem que é efémera. Passe bem você também.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 13, 2005 07:54 PM

A arte éfemera de Christo tem essa vantagem: ser efémera. Mais que uma obra de arte, é uma intervenção num espaço humano, coisa que o Central Park não deixa de ser. Quando a instalação for desmontada, apenas ficará a memória dela. Chamar a atenção para o espaço onde intervem, será o principal objectivo de Christo. E pelas imagens que conheço, será das coisas mais interessantes que ele já fez.

Publicado por: Sérgio em fevereiro 13, 2005 08:07 PM

Filipe:

referia-me ao texto que o Lutz disponibilizou. Não se enxofre tanto por tão pouco. Se tivesse o cuidado em reparar que é efémera não a comparava com as estatuetas e fontezinhas e outros pindericalhos que é óbvio que são mais tradição de jardim à francesa que outra coisa.

Publicado por: Miguel m. em fevereiro 13, 2005 08:22 PM

O que eu gostava era de ir ver a obra ao vivo... no money, no fun

Publicado por: Francisco Curate em fevereiro 13, 2005 10:41 PM

Ó Filipe, tudo bem: todos temos o direito de ser infelizes. Não me parece que venha nenhum mal ao mundo por V. ter sido tão infeliz neste texto. Acontece aos melhores - não há mal. Mas: «Vingança da natureza», diz V.? Qual vingança da natureza? Os jardins são feitos pelos homens. Um jardim é sempre (deveria ser sempre) um espaço marcado pela diferença, pela oposição, relativamente à sua envolvência. Num deserto, o jardim é exuberante e tem muros altos; num espaço naturalmente luxuriante, o jardim é o osso, a pedra, o fio minúsculo da água. Todos os jardins que cita, já reparou?, foram feitos pelo homem. «Vingança da natureza»?... Essa é forte... É não compreender nem lateralmente, nem perifericamente... A questão é simples: a intervenção de Christo tem tanto de artificialidade (de marca 'cultural') como o jardim onde se desenvolve (ambos criação do homem). De resto, como alguém já lhe lembrou aqui, é uma intervenção efémera - não fique tão incomodado. Efémera como as folhas das árvores do Parque que nascem e morrem, como a árvore que há-de morrer e a árvore que alguém plantará em seu lugar. Tá a ver, Filipe?

Publicado por: Onan em fevereiro 13, 2005 11:06 PM

O gosto, de facto, não se discute.

Contudo, alguns esclarecimentos:
O «Central Park» de Nova York (Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, 1858-1876) faz parte de uma tradição de Jardim anglo-saxónico, cujas características, como referiu, são uma artificial aproximação às regras da paisagem natural (percursos sinuosos, vegetação densa e aparentemente desordenada, percursos de água a imitar os riachos naturais) conjugada com pequenos elementos construídos, muitas vezes pequenas pseudo-ruínas (este tipo de Jardim desenvolveu-se a partir dos finais do século XVIII e por todo o século XIX, em que as correntes de gosto romântico e neo-gótico deu um alento enorme).

Lá fora (no século XIX), sobretudo no espaço anglo-saxónico este tipo de jardins teve imensa adesão e permitiu testar soluções urbanísticas em grande escala (as cidades-jardim de Inglaterra, por exemplo), numa tentativa de conciliação entre cidade e campo. (veja-se «As origens da urbanística moderna», Leonardo Benevolo, Presença, 1994).

De modo que o Central Park é também a resposta «à anglo-saxónica» a um problema da modernidade: a necessidade de ar puro e de divertimento de uma população gigantesca.

Em Portugal, durante parte do século XIX e depois durante o Estado-Novo, teve grande adesão este tipo de Jardins. Mas o Jardins da Fundação Gulbenkian não são propriamente o melhor exemplo de um jardim anglo-saxónico; Será necessário ir a Sintra ou ao Buçaco para se ter uma aproximação mais exacta. Os jardins da Gulbenkiam são a resposta do «modernismo português» às demandas de uma paisagem organizada e ligada aos pressuposto do «modernismo internacional» (obviamente tem ligações à tradição anglo-saxónica, mas tem uma estrutura e inúmeros elementos construídos ligados mais à estética «moderna» que à ruína oitocentista).

Quanto à obra de Christo, nada a dizer senão que deve ser espectacular.

Publicado por: hetero_doxo em fevereiro 13, 2005 11:35 PM

A obra de Christo tem o mérito de ser uma presença de modernidade num espaço de tradição, o que apenas valoriza esse espaço. Mau seria se a obra separada do local nada dissesse. Mas julgo que basta olhar para as fotografias (lá está, o dinheiro faz falta para estas coisas) para perceber a beleza da instalação.

Publicado por: Sérgio em fevereiro 13, 2005 11:43 PM

Lamento informar, mas o Central Park é tudo menos essa ideia romântica de que é "natural". Não!, foi desenhado no final do séc. XIX, seguindo o plno de expansão de Manhattan e de combate à especulação. (daí os "rígidos" quarteirões). A sua fauna e flora é um "apanhado" do que existia antes naquela zona. os esquilos foram "importados". não há que ter pruridos em brincar com a natureza. aliás, a história da nossa vida é a história da luta "contra" a natureza. e depois, aquilo passa...

Publicado por: móveis correia, arquitectos em fevereiro 14, 2005 08:44 AM

Miguel m., espero que no texto de cima tenha ficado mais claro que a associação da exposição às "estatuetas" não é para ser levada tão à letra. Admito que tal não fosse muito claro neste texto.

Moveis Correia, lda (cada nome que aqui aparece...): eu sei que o Central Park foi desenhado! Já agora, não foi "no final do séc. XIX": foi inaugurado em 1853. Ninguém disse o contrário.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 14, 2005 08:54 AM

o quê?!?!? não gostas do nome da minha empresa?!?! ó! e eu a pensar que poderia rivalizar com as gentes de paços de ferreira!
sim, foi inaugurado nesse ano, ainda não completamente estruturado como o conhecemos hoje. só refilei contra a "naturalização" artificial que querem fazer ao central park. aliás, se há monumento a essa tarefa que é a nossa, de lutar contra os elementos, será a ilha de manhattan. a capital do mundo!

Publicado por: móveis correia, arquitectos em fevereiro 14, 2005 11:43 AM

Eu estive lá. Percorri-o no sentido longitudinal(tarefa pesada). Devo dizer que a obra, não sendo fenomenal, tem a sua graça. E os nova-iorquinos invadiram o Central-Park em massa.

Publicado por: João Pedro em fevereiro 15, 2005 01:15 AM