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fevereiro 09, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

Do último livro de Carlos Bessa («Em Partes Iguais», Assírio & Alvim):

desenhos

Aos poucos tornei-me indiferente,
já não tenho paciência para
levantar a voz. Os prédios altos
passaram de moda. Acontecerá
o mesmo com a continência e
com a anedota? Quando cheguei
à escola era a guerra, o
cimento, o petróleo. Agora,
é a comunicação, o chewing
gum. Felizmente os garrafões são já
de plástico. Tudo isto seria homenagem,
não fora o cúmulo de pó, no
armário, em cada canto, no
mais pequeno e escondido quarto
do fundo, no sofá de ver tv.
O silêncio e o incómodo
passaram. Lembrá-lo é dizer de
um gramático que entrava na
conversa à bofetada, do excesso
de escoriações e pesadelos
que fez da infância uma quase
surdez. E quando se olha para trás
regressa o império do pormenor
em ritmo e atmosfera pop.
Como se pode, pálido coração,
tanto silêncio? Como suportar
o sonho do que já foi, como não
aborrecer ninguém com o feltro
dessas doze cores industriais?

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 9, 2005 01:23 PM

Comentários

Belo.

Publicado por: Valupi em fevereiro 9, 2005 01:42 PM

Mais do que belo, uma dúzia de linhas em forma de verdade. E a verdade é poesia em movimento.

Publicado por: Pastel de Nata em fevereiro 9, 2005 06:16 PM