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fevereiro 03, 2005

DEBATE? QUE DEBATE?

A 26 de Setembro de 1960, os grandes debates políticos encontraram uma nova e decisiva arena, de onde nunca mais se retirariam: a TV. Nesse dia, Nixon e Kennedy discutiram assuntos internos, no primeiro de quatro debates programados. O vice-Presidente, recém-saído do hospital, pálido e magro, enfrentou as câmaras sem maquilhagem e mal barbeado. O jovem Senador do Massachusetts chegou aos estúdios vindo de uma semana de campanha na Califórnia; belo, bronzeado e confiante.
O resultado é bem conhecido: os votantes que seguiram a refrega pela rádio atribuiram a vitória a Nixon. Mas os 70 milhões de tele-espectadores não hesitaram em penalizar o desempenho suado e obviamente desconfortável de Richard Nixon. Pouco depois, as eleições selavam a vitória final do estilo sobre a substância, das máscaras semânticas e somáticas sobre a ideologia.
O combate político passou, desde essa transmissão pioneira, a assentar em batalhas de posturas e escaramuças de empatias, onde a camuflagem se substitui à força e onde a única estratégia que pode garantir a sobrevivência dos combatentes é a definida pelos consultores de imagem. Projectar convicção, imitar simpatia, mimar confiança ou agressividade; sempre com um olho na última sondagem.
Anos depois da vitória de Kennedy, o império da televisão dava o passo seguinte, lógico e inevitável: para quê apostar em políticos se podemos ter um actor profissional? Ronald Reagan foi, talvez até aos dias de Clinton, o rei incontestado do carisma televisivo, do histrionismo programado ao milímetro. O neurologista Oliver Sacks, no seu fascinante livro «O homem que confundia a mulher com um guarda-chuva», relata um episódio revelador: numa enfermaria de um hospital psiquiátrico, deu com um magote de doentes afásicos a rir convulsivamente... de um discurso televisionado do Presidente Reagan. A afasia é uma condição, muitas vezes associada a hemorragias no hemisfério cerebral esquerdo, que corrói as capacidades verbais, deixando um doente incapaz de perceber ou produzir frases elaboradas; e aguçando a percepção de mensagens não-verbais. Os pacientes de Sacks riam-se do Grande Comunicador simplesmente porque, mesmo sem entenderem nada do que ele dizia, percebiam facilmente que ele estava a mentir. Por entre os olhares decididos para as câmaras e as pausas dramáticas, nem Reagan conseguia evitar pequenas mas reveladoras "fugas" de significado. A mentira continuava óbvia; nós, os "normais", é que já não a conseguíamos captar.
Hoje, a entrada dos candidatos nas vidas dos eleitores é mediada pelos tubos catódicos de uma forma menos ritualizada e mais contínua. Um debate, mesmo que aparentemente crucial como o de hoje, é apenas mais uma instância de avaliação, lugar mais previsível que emocionante.
E que poderemos esperar do debate entre Sócrates e Santana? Este irá apostar na agressividade, tentando provocar a conhecida irascibilidade do oponente. A Sócrates bastará resistir e "fazer passar" uma "imagem" séria e compenetrada: a do "Grande Estadista", pronto para o desafio de ajudar a Nação neste momento difícil para que Santana Lopes a arrastou. Nada de surpresas não previstas pelos scripts, claro está. Mais um desfile de títeres a pavonear camuflagens utilitárias.
Mas, se pudessemos ser afásicos por uma noite, o que veríamos? Talvez algo muito mais próximo da essência das coisas: duas matrioskas com camadas cuidadosamente decoradas, deixando-se revelar em profundidade apenas em momentos escolhidos. Abrindo cuidadosas janelas de emoção sempre que seja conveniente. permitindo-se um tremor de voz aqui, um embargo na voz acolá. Até que, descartada a última boneca plástica, nada restaria. Apenas a grande mentira de duas criaturas teleguiadas que acreditam numa só coisa: eles próprios.
(João Garcez)

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 3, 2005 07:29 PM

Comentários

True.

Publicado por: Valupi em fevereiro 3, 2005 10:54 PM

Estes doentes afásicos são mais eficazes que um polígrafo.

Publicado por: caznocrat em fevereiro 4, 2005 01:07 AM

Suponho que para os afásicos todos os filmes são uma comédia... E o Reagan era um actor, na verdade e na mentira.

Publicado por: caznocrat em fevereiro 4, 2005 01:16 AM

Relendo os comentários, dei conta que o modo como me referi aos doentes afásicos pode ser entendido como derrisivo. Lamento, a intenção era apenas criticar uma parte do texto.

Publicado por: caznocrat em fevereiro 4, 2005 01:52 AM