« REGRESSO À IDADE MÉDIA | Entrada | PSL POR GMT »

fevereiro 03, 2005

DA MENTIRA EM POLÍTICA

Em «Sob Palavra», um livrinho editado pela Fim de Século (recolha de conversas com Jacques Derrida, ouvidas na rádio France Culture — recensão aqui), há um capítulo dedicado à «mentira em política».
Antoine Spire, autor do programa Staccato, pergunta: «Hannah Arendt dizia que a política é o lugar privilegiado da mentira, na medida em que esta é considerada como um utensílio necessário e legítimo, não só para o político, mas também para o homem de Estado. O que é que isto significa quanto à natureza e à dignidade do domínio político por um lado, da verdade e da boa-fé por outro? Tem-se a impressão de que em tudo o que se refere ao presente e ao futuro, o discurso político se situa para além da verdade e da mentira, mas que no que se refere ao passado, as coisas são mais complicadas.»
E Derrida responde: «Creio com efeito que o paradigma da mentira não é o melhor instrumento de análise do que se passa hoje com o discurso político. Um sociólogo necessita de instrumentos mais finos. No entanto, reconheço que isto não nos deve obrigar a abandonarmos a referência à mentira, a esquecermos a diferença entre o discurso mentiroso e o discurso verídico, porque a questão é sabermos como delimitar o político. Para Hannah Arendt, há uma história da mentira: nas sociedades "pré-modernas" de certo modo, a mentira estava ligada à política de maneira convencionalmente aceite no que dizia respeito à diplomacia, à razão de Estado, etc., mas circunscrevia-se no interior de um campo limitado do político por contrato. A mutação moderna da mentira, e Hannah Arendt analisa este fenómeno da modernidade na esteira de Koyré, é que esses limites deixam de existir, que a mentira atingiu uma espécie de absoluto incontrolável. É através de uma análise do totalitarismo ligado à comunicação dos mass media, à estrutura desta comunicação dos meios de informação ou de propaganda, com os olhos postos nesta mutação moderna, que Hannah Arendt declara que a mentira política moderna já não tem limite, deixa de ser circunscrita. Podemos perguntar-nos se o conceito de mentira ainda convém, se é suficientemente potente para a análise desta modernidade. A dificuldade para qualquer cidadão de uma democracia é a de ao mesmo tempo manter uma referência incondicional à distinção entre a mentira e a verdade, manter portanto o velho conceito, sem por isso se privar de instrumentos mais finos de análise da situação actual reforçada pelo marketing político, a retórica, as imposições dos papéis a desempenhar, etc.»

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 3, 2005 06:14 PM

Comentários

Não deixa de ser sintomático que ninguém tenha comentado esta poste. (nem eu)

Publicado por: Valupi em fevereiro 5, 2005 07:08 AM