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fevereiro 01, 2005

AUSCHWITZ SOMOS NÓS

Há uns dias, lá se cumpriu um número redondo de anos sobre a libertação do campo de Auschwitz. E lá ecoou de novo por jornais, TV's e conversetas de café a litania costumeira sobre a "inexpressabilidade", a "incompreensão", "o Mal".
Bem podem afixar os espantos do costume, bradados por opiniões de cíclica lágrima ao canto do olho enevoado pela contemplação do indizível: "mas como é que gente normal se deixou arrastar por um tal turbilhão de negrume?"; "mas como é que o país de Mozart e de Goethe foi capaz de crimes assim?"
Bem podem agora tentar circunscrever a infecção a uma mão-cheia de nazis semi-humanos, a um bando de ogres bem conhecidos. Facto é que nunca custou à indústria da morte nazi angariar funcionários; fosse entre militares alemães – que poderiam sempre pedir transferência para uma frente de combate, se o trabalho num matadouro humano os incomodasse -, fosse entre prisioneiros de delito comum polacos, que não se negavam a laborar como kapos, servindo a suástica com um empenho que quase obscurecia o denodo dos seus amos.
Não. Não se tratou de obra de extraterrestres ou de uma qualquer epifania de um Mal absoluto vindo de fora da nossa querida humanidade à imagem de Deus concebida. Nem foi a primeira ou a última de semelhantes loucuras a ditar e executar sentenças de morte para "os outros".
Jerusalém foi tomada por cruzados que chapinhavam sobre riachos de sangue infiel. Em Béziers, os hereges cátaros foram chacinados juntamente com os "verdadeiros cristãos", talvez em obediência à ordem do abade Amaury: "matem-nos a todos; Deus reconhecerá os seus". A Europa enriqueceu às cavalitas de milhões de africanos agrilhoados e massacrados num genocídio lento de séculos. E que dizer, em anos mais recentes, das obras de Estaline e Pol Pot?
Eis apenas algumas das páginas em que a História desta criatura admirável, o Homem, se escreveu com o seu sangue, usando um alfabeto de massacres capaz de preencher volumosos compêndios da infâmia.
Hoje, quando os sinos dobram pelos 60 anos da libertação dos sobreviventes de Auschwitz, todos gostaríamos de acreditar que as fotografias de cadáveres vivos, as imagens aéreas de chaminés a cuspir para os céus milhares de vidas por dia, que todo aquele horror ocorreu num passado longínquo, numa espécie de idade média bárbara, longe dos nosso dias e impenetrável ao nosso entendimento. Os discursos sinceros de chefes de estado nas ruínas de Auschwitz ciciam-nos esse sentimento reconfortante. O ar vetusto dos filmes a preto-e-branco garante-nos que se trata de acontecimentos desligados do nosso mundo contemporâneo, hiper-colorido e imaculado. Não esquecemos; arquivamos.
Mas não: aquilo foi há apenas 60 anos. O meu pai poderia – tem idade para isso – ter sido uma das crianças chorosas que desembarcam dos vagões em todos os documentários sobre a Shoah. A minha mãe ainda se recorda bem dos dias da Guerra, dos incómodos do racionamento, dos refugiados judeus que chegaram em levas desamparadas à sua cidade.
Não nos iludamos: somos contemporâneos de Auschwitz.
Por outro lado, os optimistas continuam a decretar que a natureza sistemática e industrial do Holocausto lhe dá o lugar de monstruosidade única, portanto – e esperançosamente – irrepetível.
Mas será assim? Hitler tinha a Tesch para produzir o gás que permitiu a mecanização da "Solução Final", tinha a Topf & Soehne para construir crematórios concebidos para incinerar seres humanos em massa. E dispunha de uma mão de obra especializada e tremendamente produtiva. Mas houve quem o imitasse, empregando ferramentas mais primitivas e apelando à energia dos colaboradores para suprir a escassez de meios avançados...
Quase meio século depois de ter sido proclamado o solene "nunca mais!", os hutus do Ruanda decidiram que os tutsis com que partilhavam o seu país não mereciam viver. Poucos meses antes de eclodir a matança trataram, com toda a previdência de amanuenses letais, de importar meio milhão de catanas. Depois, hordas de pacatos cidadãos abandonaram os seus empregos e optaram por uma nova ocupação: a chacina metódica de toda uma etnia. Saíam de casa a horas certas e esforçavam-se em turnos rigorosos por cumprir as suas quotas de "produção" de cadáveres. Às vítimas que sobravam de um dia para o outro, cortavam-lhes os tendões de Aquiles para não poderem fugir enquanto os verdugos repousavam. Quem tinha dinheiro pagava para morrer mais depressa, com uma bala. Assim morreu um milhão de tutsis.
Há apenas 10 anos.
Religião, preconceitos, fronteiras, dinheiro, ideologias; tudo parece poder servir de gatilho para mais um genocídio. O que se move por debaixo destas erupções incompreensíveis?
Será que a nossa "psicosfera" também tem a suas placas tectónicas, continentes entrechocando-se subterraneamente em falhas sísmicas que, mais dia menos dia, explodirão em vulcões pavorosos?
Um sobressalto na Jugoslávia, um abalo violento no Congo, um cataclismo no Sudão... e a seguir? O próximo Krakatoa pode já estar a acumular tensões, a desenhar as linhas de fogo que decretarão o destino de mais alguns milhões de inocentes. E, mais uma vez, só vamos dar por isso tarde de mais.
(João Garcez)

Publicado por José Mário Silva às fevereiro 1, 2005 10:52 PM

Comentários

O egoísmo é concentrador de sentimentos e conduz todo o olhar para um só lugar... mas existem sentimentos tão altos, mas tão altos que conseguem levar as pessoas comuns a fazer coisas extraordinárias... meu caro joão garcez, ainda vivemos em um planeta selvagem...

Publicado por: norton em fevereiro 2, 2005 02:02 AM

uma discordancia:
os discursos dos chefes de estado não são sinceros, são politicos, interesseiros, falsos. também eles têm nas mangas o sangue de cumplicidades várias, o peso de muitas misérias.

abraço.

Publicado por: jorge em fevereiro 2, 2005 02:03 AM

Muito bem. Assino por baixo este, excelente, texto do João Garcez.

Transportamos uma herança animal. Ainda não somos humanos, embora se consiga vislumbrar essa natureza. Será o próximo passo evolutivo, a acontecer.

Publicado por: Valupi em fevereiro 2, 2005 02:48 AM

Ok, esta litania de João Garcez não é como as outras litanias. É mais moderna e burilada no estilo, trás-nos as novidades do costume, mas chegou quando a maior parte já estava a tomar a bica e a esquecer o assunto. Pitty.. Notas frias sobre história repetida: se tivessem nascido quinhentos anos mais cedo, Mozart e Goethe teriam ido, ou não ido, nunca se sabe, tocar o instrumento da altura, ou ler os salmos que ainda não tinham sido escritos, atrás dos soldados de Deus e do Diabo que foram à Palestina fazer correr os ”riachos de sangue infiel”, porque era tudo gente com as mesmas crenças privadas. But check the dates for me, please. Os homens que seguiram o megalomaníaco do Hitler não foram só recrutados entre os polacos tornados kapos. Havia gente de todo o lado da Europa Central e até da US, da França, da Bélgica e da Espanha do nosso “amigo” Franco, que nunca foi pedido contas por isso. Antes pelo contrário, Dona Tarragona. “A Europa enriqueceu.... .” (escravatura) graças, também, à participação no negócio de muitos antepassados religiosos dos que vieram a perecer nos campos de concentração nazis. Check it out. Seria aliás interessante saber quem, neste aspecto de malvadez conectada com côr de pele ou religião, superintendia essa barbaridade dos gulagos de Staline (recente? morreu em 53, se ainda recordo bem) e dos seus sucessores, especialmente quando não se quer perder de vista que os últimos escritos do homem do Arquipélago (Solzhenitsin)sobre outras corrupções e injustiças já não cativam o interesse de certos livreiros. Wonder why. Join the club of forgotten gods, says Garaudy. “Religião, preconceitos, etc.. O que se move por debaixo destas erupções incompreensíveis?”. Bloody good question. Don’t keep asking it, though, or you may join me in the asylum.

Publicado por: Germano Filipe em fevereiro 2, 2005 10:30 AM

E tinha também a IBM e outras empresas americanas(o avô bush parece que era segundo os arquivos americanos um financiador e cumplice nos negócios)mas agora não se fala disso,pois o poder americano e a sua influência no sionismo pós 1948,não o permite.

Publicado por: Afonso em fevereiro 2, 2005 11:04 AM

Ainda sem olhar a livros ou enciclopedias, poderei estar a confundir a data da morte de Staline, que esticou o pernil de certeza na década de 50, com a eliminação de Beria, outro rapaz muito importante do "reseau" de espremer testículos aos opositores.Deixo esse trabalho de encontrar datas exactas aos "bookworms" do blogue.

Publicado por: Germano Filipe em fevereiro 2, 2005 11:22 AM

GF: o camarada Josef esticou mesmo o dito membro em 53. Mas há que dizer que, como todos os grandes "works in progress", o seu legado sobreviveu mais uns anitos...

Publicado por: João Garcez em fevereiro 2, 2005 11:43 AM