fevereiro 17, 2004

LER ÀS AVESSAS

A importância do primeiro parágrafo de um romance está mais do que cartografada. É o "anzol" com que o escritor rapta a atenção do possível comprador, do leitor, do crítico. Existem tantos exemplos de primeiros parágrafos fabulosos que ninguém me convence que esta não é uma disciplina cuidadosamente cultivada por grandes crânios de todo o mundo. Coisas como "Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo Lee Ta." não surgem no início de um romance por acidente (desculpem a reincidência na cabotinice do Inglês, mas nem imagino como é que isto terá sido traduzido por cá). Ainda há pouco, o Zé Mário partilhou connosco um destes arranques de génio.

No entanto, julgo eu que temos andado a descurar uma estrela igualmente merecedora de aplausos: o parágrafo final.
Se a abertura por norma encerra em si as sementes, o "programa" das páginas que se seguem, o último suspiro da obra talvez seja igualmente eloquente, a seu modo. Pode revelar-nos a harmonia –ou a fractura- de um fecho de abóboda; pode, como o trecho de "Julian" que citei abaixo, encapsular todo o espírito da obra; pode revelar-nos um caos sem solução nem acalmia à vista; e por aí adiante.
Inspirado por estas conjecturas, decidi escolher a minha próxima leitura avaliando os finais de dois romances "concorrentes". Eis os candidatos, anónimos como convém a estes testes:

a- "Mas eu estava a pensar num outro tempo, um breve período em que Chelsea Marina foi um local de promessas reais, quando um jovem pediatra persuadiu os moradores a criarem uma república única, uma cidade sem sinais, leis sem castigos, acontecimentos sem significado, um Sol sem sombras."

b- "Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, mesmo enquanto as lágrimas jorravam, eu estava feliz, mais feliz por estar vivo do que alguma vez me sentira. Era uma felicidade para lá da consolação, para lá da miséria, para lá de toda a fealdade e beleza do mundo. Por fim, as lágrimas pararam e fui ao quarto vestir roupas lavadas. Dez minutos depois, eu estava de novo na rua, caminhando em direcção ao hospital para ver Grace."

Qual escolheriam, tendo por base apenas isto?

Publicado por Luis Rainha em fevereiro 17, 2004 05:52 PM | TrackBack
Comentários

Eu escolhia um destes:

Madame de Rênal fut fidèle à sa promesse. Elle ne chercha en aucune manière à attenter à sa vie; mais, trois jours après Julien, elle mourut en embrassent ses enfants.

"I don't hate it," Quentin Said, quickly, at once immediately; "I don't hate it," he said. I don't hate it he thought, panting in the cold air, the iron New England dark; I dont. I dont! I dont hate it! I dont hate it!

...Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não?O senhor é um homem soberano, circunspecto.Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.

Afixado por: André em fevereiro 17, 2004 06:37 PM

Escolhia o romance "a", Luis.
Gosto pouco de lágrimas em literatura (já em música é outra história) e ainda menos quando "jorram".

Afixado por: José Mário Silva em fevereiro 17, 2004 06:40 PM

Só mais uma coisa... a opção "a" parece dar indicios de má tradução (voltando ao tema do post do peter hammill)"Chelsea Marina" e "promessas reais" não me convencem, mas teria que ver o original antes de crucificar o tradutor. De qualquer forma o texto tresanda a burguesismo made in NY e isso não é culpa do tradutor.

Afixado por: André em fevereiro 17, 2004 07:08 PM

André,
Não tarda nada, podemos montar uma biblioteca de famosas últimas palavras. "Chelsea Marina", se bem percebi a coisa, é nome de bairro; e o tradutor merece mesmo ser torturado.

Zé Mário,
É com enorme mágoa que atribuo nesse "jorrar" algumas culpas ao apressado tradutor de ocasião: eu mesmo. No original lê-se "poured out of me" :-(

Afixado por: Luis Rainha em fevereiro 17, 2004 07:08 PM

Tendo por base apenas isso não escolhia nenhum, francamente. Só se fosse obrigado. Aí, escolheria o primeiro.

Afixado por: Jorge em fevereiro 17, 2004 09:17 PM

CARTA ABERTA A CARLOS CRUZ
Sei que está na cadeia e que os juízes Adelino Salvado e Rui Teixeira, os procuradores João Guerra e Souto Moura, a Ministra da Justiça Celeste Cardona e a jornalista Manuela Moura Guedes (sua ex-amante?) estão empenhados em acabar consigo, em destruí-lo psicologicamente, fisicamente e financeiramente.
O Bando dos Seis, como são conhecidos estes elementos entre a esquerda não partidária são suspeitos do crime de corrupção ao mais alto nível do Estado, visando destruí-lo a si para limpar do barão cavaquista do PSD x, e dois actuais ministros y e z, acusados de pedofilia pela revista Le Point.
Enquanto todo o Bando dos Seis não estiver na cadeia você não tem hipóteses! Foram apagadas provas, algumas mesmo queimadas na fogueira e fabricadas outras. A impunidade do Bando dos Seis é a sua desgraça. Não se limite a defender-se, chegou a hora de passar ao contra-ataque.
O Bando dos Seis é o bando mais perigoso que opera em Portugal e quer acabar consigo.
Acredito na sua inocência enquanto não for provado inequivocamente o contrário. O que o Bando dos Seis provou até agora foi que é uma grave ameaça à Declaração Universal dos Direitos do Homem, a si tratam-no como um animal inferior.
A sua honra está manchada. Honroso para o poder actual é roubar petróleo no Iraque e praticar genocídio de mais de 13 mil pessoas para tal. Somos governados por ladrões de petróleo e assassinos para tal roubo. Pior que um assassino ladrão é um ladrão assassino, que mata para roubar petróleo, isto é Honroso!!!!!
Não assuma a fatalidade geográfica, fora desta República das Bananas e das Laranjas há o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem – acuse lá o Bando dos Seis, que está a torturá-lo e a tentar destruí-lo.

Afixado por: j.silva em fevereiro 17, 2004 10:02 PM

Um dos meus favoritos:

"This was a Golden Age, a time of high adventure, rich living, and hard dying... but nobody thought so. This was a future of fortune and theft, pillage and rapine, culture and vice... but nobody admitted it. This was an age of extremes, a fascinating century of freaks... but nobody loved it."

E um clássico:

"The sky above the port was the color of television, tuned to a dead channel."

Afixado por: Luís em fevereiro 17, 2004 10:33 PM

Sou um idiota. O que escrevi acima são inícios. :) Agora não me apetece procurar finais, fica para outro dia.

Afixado por: Luís em fevereiro 17, 2004 10:46 PM

Ballard parece-me bem.

Afixado por: Francisco Frazão em fevereiro 18, 2004 04:50 AM

Luís, Chelsea é um bairro de NY que tem um grande porto. "Chelsea marina" deve ser esse porto.
André, quando estiveste em NY não te queixaste do "burguesismo"!

Afixado por: Filipe Moura em fevereiro 18, 2004 03:13 PM

Cá para mim vais ler primeiro o Millenium People, do ... ... não me lembro mas foi o mesmo que escreveu o Crash.

Se for bom avisa, está lá em casa na estante dos não-lidos à espera de oportunidade.

jcd

Afixado por: jcd em fevereiro 18, 2004 04:11 PM

Pronto. O vosso voto foi decisivo.
Vou mesmo ler primeiro o "Millennium People", do Ballard. Depois do "Super Cannes", já só espero daqui o melhor possível...

A opção b era o "Oracle night" do Paul Auster.

PS: Esta "Chelsea" é perto de Fulham; Inglaterra, portanto.

Afixado por: Luis Rainha em fevereiro 18, 2004 04:33 PM

Desculpa lá. O André falou em NY e eu fui atrás.

Afixado por: Filipe Moura em fevereiro 18, 2004 05:26 PM

Vamos lá ver, Chelsea ao pé de Fulham, (e ao pé de westminster e de kensington) é um bairro no centro de Londres, por sinal chiquissimo. Eu de facto julguei q a chelsea marina fosse a chelsea de NY, pq chamar marina a um ancoradoro no Tamisa é um bocado esticado (alem disso uma marina num rio deveria chamar-se fluvina)
Filipe, lê com atenção o texto e percebes a que burguesismo me refiro (tanto faz ser de NY como da conchichina)
Luís, Os 3 fins "famosos" que eu mencionei são muito menos famosos do que deveriam ser, por isso os mencionei, mas quem fica a perder é quem não os lê... :-)

Ah!... e também há a Chelsea Clinton...

Afixado por: André em fevereiro 18, 2004 06:42 PM

Parecem-me muito bem escolhidos. Da deixa de Mr. Compson, ainda me lembrava. Mas confesso: tive de andar de Google em punho à caça dos restantes...

Afixado por: Luis Rainha em fevereiro 19, 2004 10:31 AM

Quentin Compson só há um de facto (também há uma)mas Faulkners há vários (thank god)e as aparências podem iludir.
Este em questão tem uma tradução para português intitulada "O esplendor de Portugal" por A.L. Antunes

Afixado por: André em fevereiro 19, 2004 10:09 PM

Maldade...
;-)

Afixado por: Luis Rainha em fevereiro 19, 2004 10:51 PM
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