janeiro 22, 2004

VINTE ANOS É MUITO TEMPO

Comenta uma mãe, maravilhada, que os livros da Anita fazem as delícias da filha, como fizeram as dela. «São histórias intemporais», conclui, «pena tê-las deitado fora.» A minha pena não vai para o destino que aquela família deu aos livros, antes para o destino daquela filha que repetirá a história da mãe. E assim por aí adiante. O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?

Publicado por Margarida Ferra em janeiro 22, 2004 10:14 AM | TrackBack
Comentários

Deixa ver se percebo... É mau para as nossas filhas contactarem com as histórias da Anita...?

Afixado por: jcd em janeiro 22, 2004 11:02 AM

Eu, quando não estou a ler ao meu filho o Pequeno Livro Vermelho de Citações do Presidente Mao Tsé Tung, costumo ler-lhe as histórias da Anita. Achas desaconselhável?

Afixado por: o proletário vermelho em janeiro 22, 2004 11:30 AM

Como te compreendo... a Anita era a típica filha abusada, violada, forçada pelos pais a trabalhar nas fábricas de sapatos do Vale do Ave. E, claro, sempre me repugnou aquele hábito que a Anita tinha de masturbar página sim, página não, fantasiando com um homem que a desposasse e a levasse ao altar, entre um cigarrito de canabis e um copo de vodka bisonte, impostos pela sociedade de consumo que é tão glorificada nessa série - sempre achei que a miúda, para a idade que tinha, era um pouco avançada demais... caraças, se calhar até vota PP!

Resumindo, estou contigo. Se precisares de ajuda para adaptar a Valerie Jane Solanas para o público infantil, cá estou eu.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 11:34 AM

Acho muito bem que as filhas leiam e conheçam as histórias da Anita. Acho melhor ainda que sejam ajudadas a desmontar o mecanismo por detrás das pequenas narrativas para que possam preferir não perpetuar toda a fórmula em que assentam: Anita, dona de casa, cozinha; o irmão, engraxa os sapatos. Não me pareceu nada que fosse a intenção da mamã deliciada. Preocupou-me, como me preocupou a senhora que preferiu a Anita à "História do Menino Que Não Gostava de Ler" porque era um presente para uma rapariga. Ouço demasiadas vezes: "não ponha um laço azul, ponha o cor-de-rosa que é para uma menina!" ou "pode fazer um embrulho para um rapaz, por favor?".

Ok, se calhar exagerei e atirei sobre a querida Anita a frustração de outras mulheres. Mas, sinceramente, não me apetece nada ser menos exigente.

Afixado por: Margarida em janeiro 22, 2004 12:11 PM

Também gostaria de entender melhor quais os malefícios de continuar a dar a ler os livros da Anita às minhas filhas e quais as alternativas sugeridas.

Afixado por: JFS em janeiro 22, 2004 12:14 PM

Sim, para além de serem livros de má qualidade, mal escritos, publicados pela Verbo, sexistas, destinados a convencer as raparigas das maravilhas do trabalho doméstico e terem ilustrações kitsch, qual é o mal dos livros da Anita?

Afixado por: J em janeiro 22, 2004 01:35 PM

urge a chegada da Anita à modernidade. Para quando a "Anita fuma cavalo" ou "Anita faz um piercing"?

Afixado por: Pedro Vieira em janeiro 22, 2004 01:47 PM

Ou "Anita Simplesmente Nao Quer Ser Dona de Casa".

Ou "Anita Quer Ser Dona do Seu Proprio Destino".

Afixado por: Maria das Flores em janeiro 22, 2004 02:09 PM

Risos. Ou:

"Anita é desflorada no jardim de infância por um dildo da amiga Guidita"

"Anita ganha a sua primeira tatuagem"

"Anita exige o seu primeiro wonderbra"

"Anita torna-se empresária da noite e contrata uma ucraniana para as lides domésticas"

"Anita pede aos papás uma laqueação das trompas para evitar o martírio futuro da gravidez"

"Anita pede ao Governo mais quotas na Administração Pública para as mulheres"

"Anita soldadora na Lisnave"

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 02:57 PM

Não tenho agora aqui nenhum livro da Anita dos meus tempos. Só tenho um, que é da minha filha, da série «infantil»: «A Anita e as Quatro Estações». Anita e Pedro regam e colhem flores (Pedro aliás em pose airosa e feminil com perninha direita avançada e insinuante), observam pássaros de Inverno e empurram uma bola de neve. É verdade, o Pedro não usa os mesmos brincos de cereja que a Anita, mas a Anita vindima sozinha. Geralmente ela usa saias, mas também aparece de calças. Eu cá gosto das ilustrações. A Inês Pedrosa escreveu sobre a Anita numa «Crónica Feminina» do Expresso há pouco tempo: dizia ela que a «Anita Dona de Casa» fora substituída pela «Anita Mamã» e, se no primeiro, tinha o Pedro sempre por perto a «ajudar» (pois, não partilhava, e pelos vistos só engraxava os sapatos, mas sempre é qualquer coisa), no segundo ela via-se a braços sozinha com a precoce tarefa da maternidade infligida às bonecas. Ora precisamente, o que me irrita não é a minha filha ler as mesmas Anitas que eu li há vinte anos, é ler todos os recentes livros infantis (e manuais escolares) em que as meninas vão às compras e os meninos vão ao parque, em que as mães estão na cozinha e os pais estão na garagem, em que os lobos maus são pretos e os lobos bons são brancos. Mais: irrita-me os expositores de brinquedos nas grandes superfícies, com alamedas pra «menina» a cor de rosa e pra «menino» a azul. Irritam-me os infantários onde se dão bebés às meninas pra brincarem e carrinhos aos meninos. Etc.

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 22, 2004 03:36 PM

Nem mais, Margarida(s). Ainda bem que põem o dedo na ferida, uma vez que também houve muitos meninos a ler, há 20 anos, o sub-texto de todas as Anitas e quejandas fábulas cor-de-rosa. Pelo que se lê nestes comentários, o sexismo é uma doença congénita e muito difícil de erradicar.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 04:07 PM

Caro JMS,

Ver na Amita um preconceito ou atitude de discriminação em função do sexo é como ver neste blog o pior do politicamente correcto a desenvolver-se.

Por exemplo, se no século XVI era moral e economicamente correcto fazer-se escravos dos guanches, africanos e mouros que nos passavam pelas mãos, porque carga de água havemos de fazer revisionismo histórico e condenar a sociedade dessa altura com os nossos olhos moralistas e moralizantes do século XXI?

Já agora, já ouviram falar da Colecção Caminhos da Liberdade, da Terramar?

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 04:25 PM

Alexandre Monteiro, a questao aqui nao e' condenar a sociedade dessa altura, mas sim a sociedade actual. Ter um escravo ou uma Anita poderiam fazer todo o sentido antigamente.

Embora eu ate' goste das ilustracoes da Anita...

Afixado por: Maria das Flores em janeiro 22, 2004 04:36 PM

Nao queria dizer "condenar a sociedade actual", mas sim "repensar".

Afixado por: Maria das Flores em janeiro 22, 2004 04:38 PM

Caro Alexandre Monteiro,

Caso não tenha reparado, o título do post era: «Vinte anos é muito tempo». Se a "discriminação em função do sexo" dos livros da Anita já não fazia sentido há duas décadas, agora devia fazer ainda menos. E olhe que isto não tem nada a ver com o politicamente correcto, como pretende insinuar. Esta formatação cultural dos géneros e das tarefas que supostamente cabem a cada um dos sexos é muitíssimo perniciosa. Se as Anitas não o incomodam, ainda bem para si. A mim, sinceramente, preocupam-me.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 05:23 PM

Não se trata simplesmente de ver na Anita como discriminação em função do género, Alexandre, mas na forma como estes textos podem servir para perpetuar (e tornar intemporais) as histórias de quem as lê.

A colecção da Terramar parece-me muito interessante, mas nunca li nenhum título. Ainda assim, propunha um novo volume: as diferenças entre os géneros explicadas às crianças aos jovens. E a nós, supostamente adultos, também, que bem precisamos de perceber quais são.

A mim parece-me é que este é daqueles assuntos sobre os quais as opinões são num ápice empurradas para um dos extremos. O maniqueísmo explicado também podia ser editado. Às vezes, tenho dificuldade em escolher o lado.

Afixado por: Margarida em janeiro 22, 2004 05:54 PM

Não se trata simplesmente de ver na Anita como discriminação em função do género, Alexandre, mas na forma como estes textos podem servir para perpetuar (e tornar intemporais) as histórias de quem as lê.

A colecção da Terramar parece-me muito interessante, mas nunca li nenhum título. Ainda assim, propunha um novo volume: as diferenças entre os géneros explicadas às crianças aos jovens. E a nós, supostamente adultos, também, que bem precisamos de perceber quais são.

A mim parece-me é que este é daqueles assuntos sobre os quais as opinões são num ápice empurradas para um dos extremos. O maniqueísmo explicado também podia ser editado. Às vezes, tenho dificuldade em escolher o lado.

Afixado por: Margarida em janeiro 22, 2004 05:54 PM

Caro JMS,

A formatação cultural está na personalidade de cada um. A mim chateia-me muito mais a gravidez precoce ou a história micaelense da filha de 15 anos que desculpa o pai, alegado consumidor de sexo com adolescentes, por "ele ser homem e as miúdas de 15 anos sabem-na toda, olhe, por exemplo, eu que fui mãe com 16 anos e nessa altura já sabia muito bem o que queria" do que a questão da Anita.
Se houver realmente uma evolução das mentalidades, as pessoas deixarão de dar a Anita aos filhos (diga-se de passagem, que concordo com o facto de ser um livro mal escrito e mal concebido - só não engulo é essa história do 'não ser apropriado por ser sexista').

Por outro lado, dizer que "a formatação cultural dos géneros e das tarefas que supostamente cabem a cada um dos sexos é muitíssimo perniciosa", gostava que me explicasse porquê... faz crescer pêlos nas mãos? Cega? Leva ao suicído os adolescente que se descobrem homossexuais?


Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 05:57 PM

Cara Margarida

Há uma diferença óbvia entre raparigas e rapazes: são os caracteres sexuais primários e a diferente concentração e produção de hormonas na vida adulta.

O resto é produto da sociedade e das idiossincrasias de cada um. Falho em ver porque é que é tão importante explicar essas diferenças - será para prevenir a opressão da mulher pelo homem? Para evitar que os meninos se confundam e se vistam de menina no carnaval? Para obviar a que as meninas deixem de usar soutien e fiquem com o peito descaído?

Como eu costumo dizer, o que é realmente importante é cada um ser como é e ter orgulho naquilo que é. O resto são dúvidas, inseguranças e conflitos pessoais.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 06:06 PM

À pergunta final do post:"O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?", estes senhores responderam "Nada!", mesmo que o tenham dito da forma subtil e manhosa como a Direita trata os assuntos que NÃO QUER resolver, como por exemplo o da IVG...

Afixado por: zás!pás! em janeiro 22, 2004 06:15 PM

E depois, esta história de que " estes textos podem servir para perpetuar (e tornar intemporais) as histórias de quem as lê" significa que as devemos proibir? Inseri-las num Index qualquer?

Para isso proíbe-se a "Cabana do Pai Tomás" que promove o paternalismo em relação ao esclavagismo ou os livros da Enyd Blyton porque apoiam a separação de classes e lançam anátemas contra os ciganos? Ou a "Alice no País das Maravilhas" porque se supeita que o autor fosse um pedófilo incipiente e por aí fora, ad aeternum?

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 06:15 PM

Caro Alexandre,

Não, não acho que "significa que as devemos proibir ou inseri-las num index qualquer". Acho que não devemos oferecê-las em exclusivo (como fazia a mãe do post). Acho que devemos lê-las num contexto e perceber que as histórias que contam não são intemporais, são datadas. Como, aliás, as ilustrações que, precisamente por isso, quanto a mim, são a parte mais interessante dos livros da Anita.

Afixado por: Margarida em janeiro 22, 2004 06:26 PM

A minha filha leu a "Anita dona de casa" mas insiste em deixar essas tarefas para os pais. Será que tenha algum problema?

Afixado por: António em janeiro 22, 2004 07:00 PM

Camarada António

Esse comportamento da tua filha é porque ela ainda não interiorizou o modelo comportamental da Anita. Lê-lhe antes o Livro Vermelho das Citações do Camarada Mao Tsé Tung. Se mesmo assim não reproduzir a ideologia dominante nos livros da Anita é preciso mandá-la para um campo de reeducação.

Afixado por: o proletario vermelho em janeiro 22, 2004 07:16 PM

Mas o que vamos dizer às nossas filhas: "Não, não leias a Anita, que agora somos mulheres emancipadas, não lemos dessas coisas."?
Tem medo que a Anita perverta as mentes inocentes das crianças? Se calhar devíamos acabar com os contos de Grimm também. E com os outros todos. Essa coisa da Princesa fragilzinha, bonitinha... Olhem a Branca de Neve, a esfgregar as lajes do pátio, olhem a Cinderela a limpar a lareira... É exploração da mulher. Mais vale acabar com isso tudo.

Afixado por: Ofélia Queiroz em janeiro 22, 2004 07:28 PM

Parabéns pelos 23 comentários!
Apenas vou deixar aqui uma sugestão à Margarida Ferra; seria óptimo que escrevesse contos para crianças, decerto que essas iriam adorar... ou talvez não, mas isso é a ordem natural das coisas!

(E que tal, aproveitar os títulos (fantásticos! ) do Alexandre; será que lhe agradam mais ?

Afixado por: Frederico Penteado de Chardin em janeiro 22, 2004 07:36 PM

Alexandre,
Existe outra diferença óbvia entre homens e mulheres: engravidar e parir é exclusivo das segundas, o que levava a menina micaelense a «sabê-la toda» (e que mais a levaria?)
Depois: não me lembro de os livros da Anita estarem mal escritos, muito menos mal conseguidos, as ilustrações são do caraças, repito, mas agora há por aí umas adulterações modernaças.

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 22, 2004 07:45 PM

Álvaro Cunhal, Fidel Castro, todos têm origem burguesa.
Quando eu era miúdo, o meu ídolo era o Tio Patinhas.
Isto para dizer que não devemos menosprezar as vantagens de uma educação conservadora.
Quanto aos livros da Anita (comparados com, por exemplo, os livros da Enid Blyton), acho que o seu principal defeito não é serem conservadores, é serem maus.

Afixado por: Filipe Moura em janeiro 22, 2004 07:49 PM

Já vamos em 27 comentários? É incrível. Nunca pensei que a pobre da Anita, tão sonsa e previsível, fosse capaz de despertar tamanhas paixões.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 07:50 PM

Já agora, uma sugestão: deixem as Anitas a ganhar pó nas livrarias e levem os vossos filhos a ver o filme de que se fala no post acima. Vão encontrar miúdos como eles, a aprenderem as primeiras letras e a fazerem as primeiras contas, e um professor memorável.
Ganham os putos e ganham os pais.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 22, 2004 07:53 PM

30 comentários a propósito de livros sobre uma garota pequena. Vivemos mesmo na era da pedofilia...

Afixado por: J em janeiro 22, 2004 08:04 PM

A meu ver, as qualidade destes livros deixa muito a desejar. E as ilustrações são péssimas, não acrescentam nada aos bons livros de literatura infantil que existem no mercado português.
Sinceramente, tenho pena que se discuta tanto sobre uma falsa questão de livros que já passaram à história.
Margarida Gato: se acha as ilustrações destes livros assim tão boas, vai ficar estupefacta com outras bem melhores que se fazem por cá, como as do André Letria ou da Manuela Bacelar.

Afixado por: Sofia em janeiro 22, 2004 08:04 PM

Gosto de seguir o conselho do Jorge Silva Melo: "Nunca Ninguém Duas Vezes". Hoje abro uma excepção. A Anita despertou a ditadura das massas. O JMS convida-nos a ver o "Ser e Ter". Atenção... foi visto massivamente em França!

Afixado por: António em janeiro 22, 2004 10:07 PM

O problema neste post, não foi, a meu ver, a Anita. Foi o tom politicamente correcto com que o mesmo foi escrito. Daqui a pouco seremos obrigados a suprimir o "Atirei o pau ao gato mas o gato não morreu" do cancioneiro infantil porque o mesmo é apologista da crueldade para com os animais...

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 22, 2004 11:26 PM

Eu e a minha filha, pluralmente, também consumimos Bacelar e Letria, mas não deixam por isso de ser apetecíveis as figurinhas bem torneadas da Anita e do Pedro, concebidas pelo respeitável Sr. Marlier (o seu a seu dono). Agora a sério: julgo que a Margarida Ferra focou uma questão importante, e creio de facto que se as criancinhas não fossem REPETIDAMENTE confrontadas com modelos (imagens, histórias, canções, exemplos) em que as mulheres se confinam ao espaço doméstico e os homens vão arejar para o mundo da aventura, talvez já se admirassem mais com abusos disfarçados de escapadelas. Não estou a falar de revisionismo. O Sr. Delahaye (autor dos textos da Anita), a Blyton e a Ségur cabem sem peso no meu coração. Estou a falar do que continua a aparecer, o mais das vezes nem sequer mascarado. E há que lembrar também que os livros para crianças, mesmo sendo literários (e não será, reconheço, o caso da Anita) têm uma forte vertente didáctica, e que os crescentes cérebros das crianças absorvem como esponjas as «morais das histórias».

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 01:27 AM

de tanto se falar aqui na Anita não tarda temos o livro "Blogue de esquerda no DIAP", que é por causa das tosses...

Afixado por: Pedro Vieira em janeiro 23, 2004 01:31 AM

Cara Margarida Gato:

Sente-se um pouco defronte do televisor, ao sábado de manhã, e veja lá que tipo de programas consome 90 das nossas crianças... depois volte cá e diga o quer achou e, principalmente, se continua a achar a Anita affair relevante para alguma coisas.

Por outro lado, continuo sem respostas à minha perguntas: se "as criancinhas não fossem REPETIDAMENTE confrontadas com modelos (imagens, histórias, canções, exemplos) em que as mulheres se confinam ao espaço doméstico e os homens vão arejar para o mundo da aventura" o que aconteceria?

Seria um mundo onde as mulheres fariam bungee junping e os homens cozinhariam? Um mundo onde as mulheres iam à tropa e os homens usavam cremes anti-rugas? Um mundo onde as mulheres podiam ser homens e os homens, mulheres? Hello, toc, toc: esse mundo já está aqui, é o "hoje"... portanto, continuo sem ver a perniciosidade da leitura da Anita e dos seus estereótipos na formação das mentes infanto-juvenis....

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 01:42 AM

Errata: onde acima se lê 90, deve-se ler, obviamente, 90%... ;o)

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 01:43 AM

Além de outras gralhas mais: jumping, concordâncias de pronomes, etc.... é da hora.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 01:45 AM

Alexandre,
Eu própria disse que a Anita não era o relevante. Por outro lado, o seu mundo não está aqui. Para ilustrar o que disse, transcrevo apenas, na íntegra, a canção preferida da minha filha Alice, assaz reveladora da mentalidade da miúda micaelense. Trata-se de uma modinha deliciosa, acompanhada por gestos catitas, assaz estimulantes do desenvolvimento psicomotor, e eu própria, confesso, a trauteio entusiasticamente com a minha petiza. Afinal, é só uma canção sobre animais do campo. E posto isto vos deixo, que hoje a minha filha falta à escola para irmos ao teatro, comprar um triciclo e levar as bonecas a passear ao parque.
«Doidas, doidas, doidas andam as galinhas
Para pôr o ovo lá no buraquinho,
Raspam, raspam, raspam pr'alisar a terra,
Bicam, bicam, bicam pra fazer o ninho.

Arrebita a crista o galo vaidoso,
Cocorococó canta refilão,
E todo emproado lá vai majestoso,
É o comandante deste batalhão.»

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 08:54 AM

Alexandre,
Eu própria disse que a Anita não era o relevante. Por outro lado, o seu mundo não está aqui. Para ilustrar o que disse, transcrevo apenas, na íntegra, a canção preferida da minha filha Alice, assaz reveladora da mentalidade da miúda micaelense. Trata-se de uma modinha deliciosa, acompanhada por gestos catitas, assaz estimulantes do desenvolvimento psicomotor, e eu própria, confesso, a trauteio entusiasticamente com a minha petiza. Afinal, é só uma canção sobre animais do campo. E posto isto vos deixo, que hoje a minha filha falta à escola para irmos ao teatro, comprar um triciclo e levar as bonecas a passear ao parque.
«Doidas, doidas, doidas andam as galinhas
Para pôr o ovo lá no buraquinho,
Raspam, raspam, raspam pr'alisar a terra,
Bicam, bicam, bicam pra fazer o ninho.

Arrebita a crista o galo vaidoso,
Cocorococó canta refilão,
E todo emproado lá vai majestoso,
É o comandante deste batalhão.»

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 08:55 AM

O Alexandre Monteiro insiste em ver um "tom politicamente correcto" onde ele não existe e assim toda a discussão fica enviesada. Gostava só que olhasse à sua volta e me dissesse se vê mais mulheres com a "formatação" Anita (donas de casa e mamãs, conformadas com os sacrifícios das "obrigações" femininas) ou a fazer "bungee jumping"?
Pois é, bem me parecia.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 09:42 AM

Eu li livros da Anita, a minha filha lê livros da Anita e ambas adoramos os livros da Anita. Eu, pior ainda, li os livros da Condessa de Ségur e posso assegurar que só tiveram em mim o efeito de aguçar o meu sentido crítico. Muito mais importante do que ler ou não os livros da Anita são as mensagens que podemos transmitir aos nossos filhos, sobretudo com os nossos exemplos de vida. Sinceramente acho que a Margarida F. adoptou uma postura bem próxima da das mulheres que há uns anos queimavam sutiãs.

Afixado por: isabel em janeiro 23, 2004 09:48 AM

Isabel,
Não me parece que a Margarida tenha sugerido que se queimassem os livros da Anita, ou que estes fossem erradicados das nossas livrarias, ou outra medida qualquer mais radical. Não se tratou de um post "politicamente correcto" nem militantemente feminista. Ela apenas se insurgiu contra a euforia daquela mãe que considerou a Anita "intemporal". Porque a Anita não é intemporal. Aqueles valores e aquela maneira de mostrar o mundo correspondem a um tempo que já passou, que hoje não faz sentido, e os pais devem saber explicar aos filhos essa diferença.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 10:07 AM

Já agora, uma dúvida.
Toda a gente vem aqui dizer que gosta que as filhas leiam a Anita. Então e os filhos? Também dão a Anita a ler aos vossos filhos? Ou eles andam entretidos a brincar com carrinhos da Matchbox e a montar estruturas da Meccano?

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 10:10 AM

Caro JMS

Basta ver a alteração da mentalidade feminina nos últimos 20 anos para ter a certeza que a Anita teve pouca ou nenhuma influência.

Essa alteração não passa necessariamente por fazer bungee jumping...

Afixado por: Miguel em janeiro 23, 2004 10:19 AM

Miguel:
Não fui eu que puxei o exemplo do bungee jumping... E quanto à "alteração da mentalidade feminina", parece-me evidente que ela se fez "apesar" de todas as Anitas que lhe puseram no caminho, dentro e fora dos livros.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 10:54 AM

Caro JMS,

Se não existem mais mulheres a fazer bungee jumping será talvez porque a nossa classe média - citadina, suburbana, mal paga, aquela de que se fala aqui, porque a classe agrícola de Unhais da Serra foge um pouco a esta discussão.. - optou por constituir família. Essas mulheres esfalfar-se-ão para manter um emprego, ir de carro ou de transportes públicos para ele, manter a casa e os filhos, se os houver, sem ter tempo, ou dinheiro de sobra, para praticar actividades radicais. Acredito que os maridos dessas mulheres ajudarão no que for preciso em casa, sem que tenham de haver mulheres formatada a la Anita - afinal, têm os dois de trabalhar com salários de miséria, no seio de uma inflação galopante para manter as prestações da casa, do carro, os filhos, a comida, e um ou outro luxo supérfluo que possam manter.

O que não há dúvida é que, quem pode, paga a uma ucraniana para lhe limpar a casa, consome comida take-out ou janta fora, paga ao jardim de infância, ao ATL ou ao colégio, ou engaja os avós maternos ou paternos na educação dos rebentos - sintomático deste dependência é o coro de protestos que se levanta de cada vez que as escolas decidem fazer um período intercalar de reflexão - serão essas mulheres que farão bungee jumping?

Volto a perguntar, já que todos assobiam para o lado: o que há de errado em cada sexo ser condicionado por aquilo que a sociedade julga ser as características de cada género? Lembro-me que, quando eu andei na escola, um rapaz usar brincos era é como andar com alvo na testa que dizia "batam-me porque sou paneleiro"; hoje em dia, com a cultura rap/hip-hop que grassa nas nossas escolas, não ter pelo menos dois brincos em cada orelha é que é factor de exclusão...

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 10:56 AM

Por outro lado, que raio são "os sacrifícios das "obrigações" femininas"?

Se eu passo a roupa a ferro, se cozinho (tartes, estufados, estrugidos, caris), se aspiro o pó, se sei pregar um botão e cholear uma bainha, se faço a minha cama - graças a Deus pelos Escuteiros e pelo serviço militar - estarei for das minhas obrigações masculinas?

Se eu não caço, não pesco, não gosto de bola, não jogo à bisca, não vou ao Passerele, o canal 18 dava-me bocejos, não bebo até cair para o lado, não espanco a cara metade, não faço trabalho braçal, estarei a fugir às minhas obrigações masculinas?

Mais uma vez, quem fala de estereótipos é o JMS...

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 11:02 AM

Caro Alexandre:

Por acaso reparou que a palavra obrigações estava entre aspas? Agradecia que não me inventasse estereótipos que nunca tive e muito menos partilho ou tolero.
Antes de disparar a torto e a direito, convinha tentar perceber o que o "outro" quis dizer com aquilo que escreveu.
Vai ver que não custa nada.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 11:09 AM

Vinte anos é muito tempo. Cinquenta comentários é muito comentário.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 11:22 AM

Especialmente sobre uma publicação "tão influente"...

Afixado por: Miguel em janeiro 23, 2004 11:31 AM

Das duas, três: ou eu não sei interpretar um texto; ou o JMS não se soube exprimir.

Quando me sugere que "gostava só que olhasse à sua volta e me dissesse se vê mais mulheres com a "formatação" Anita (donas de casa e mamãs, conformadas com os sacrifícios das "obrigações" femininas) ou a fazer "bungee jumping"? Pois é, bem me parecia." - parece-me a mim que entende que o que mais há à nossa volta são "mulheres com a "formatação" Anita (donas de casa e mamãs, conformadas com os sacrifícios das "obrigações" femininas)....

Obrigações todos as temos, homens e mulheres. As aspas parecem-me desnecessárias aqui.

A discussão começou com uma intolerância e um paternalismo - ou, melhor dito, um "maternalismo - execráveis, pouco dignos de quem se afirma ser de esquerda. Com "blogs de esquerda" assim, daqui a pouco até eu começo a votar à direita... ;o)

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 11:31 AM

"Com "blogs de esquerda" assim, daqui a pouco até eu começo a votar à direita... "

Uma excelente ideia! :D

Afixado por: Miguel em janeiro 23, 2004 11:35 AM

Mais alguns contributos a esta linda discussão (apropriada em tão canhoto blog) por parte de um admirador de sempre:
"Anita Camionista vai de viagem"
"Anita na montra - aventura em Amesterdão"
"Anita e os implantes: silicone ou bortax?"

ou algo mais doce:

"Anita aprende a fazer a barrela"
"Anita e o funeral das Bonecas"
"Anita mãe solteira"

... e por aí adiante. Porque não dar uma volta a esta personagem e transformá-la do icone da luta feminista?

Afixado por: Palheirão em janeiro 23, 2004 11:57 AM

Caro José Mário Silva

Disseste:

"Já agora, uma dúvida.
Toda a gente vem aqui dizer que gosta que as filhas leiam a Anita. Então e os filhos? Também dão a Anita a ler aos vossos filhos? Ou eles andam entretidos a brincar com carrinhos da Matchbox e a montar estruturas da Meccano?

Afixado por José Mário Silva em janeiro 23, 2004 10:10 AM"

Ora eu tinha dito isto antes:

Eu, quando não estou a ler ao meu filho o Pequeno Livro Vermelho de Citações do Presidente Mao Tsé Tung, costumo ler-lhe as histórias da Anita. Achas desaconselhável?

Afixado por o proletário vermelho em janeiro 22, 2004 11:30 AM

Só tens como desculpa pensares que o que eu digo é puro non-sense e não vale pena pensar muito.

Afixado por: o proletário vermelho em janeiro 23, 2004 12:15 PM

Como é óbvio, camarada proletário, não era a ti que me referia. Mas olha que entre as citações do Mao e os estereótipos da Anita, venha o diabo e escolha.
;)

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 12:27 PM

É por isso que já me cansam os blogues e mais as suas páginas de verborreia estéril.
Será que a MF não tem mais com que se indignar?

Todas as pessoas, todos os dias dizem frases (e muitas que são perfeitamente inconsequentes) e retirá-las de um contexto e abaná-las como uma bandeira parece-me um bocadinho desonesto. Eu militante aguerrida das igualdades de direitos e oportunidades (o meu marido que o diga) vejo-me perfeitamente a dizer uma coisa dessas no sentido de: bom é intemporal, eu há 20 anos gostava, a minha filha agora gosta. Enfim!

A minha filha lê livros da Anita e brinca com Barbies (as bonecas mais estúpidas e sexistas que existem), o meu filho de 10 anos nunca teve o mínimo interesse por livros da Anita, já brincou com as bonecas da Carolina mas agora não se interessa muito pelo assunto. Ambos gostam de futebol. Longe de mim censurar qualquer destas actividades. Já por exemplo não deixo o João comprar jogos de computador daqueles em que se matam muitas pessoas e coisas do género e explico-lhe porquê. Felizmente ambos são leitores ávidos e tento que leiam coisas bem escritas, mas tanto os apanho a ler a Odisseia de Homero e poesia da sophia de mello Breyner como porcarias. E acredito que só assim saberão separar o trigo do joio.

E reafirmo mais importante do que os modelos que possam tirar dos livros da Anita ou outros, são os modelos q nós lhes transmitimos - aí não temos desculpa.


E já perdi muito tempo com isto

Afixado por: isabel em janeiro 23, 2004 12:35 PM

Caro Alexandre:
Nós até queríamos ser intolerantes e paternalistas (ou maternalistas), mas depois percebemos que há quem tenha muito mais talento nessa área do que nós... :D
Enfim, se pretende continuar com o "one-man show", faça o favor. A partir de um certo limiar, já não me enervo. E até começo a rir dos exageros. Olhe, se calhar é porque afinal sou mesmo tolerante e visceralmente de esquerda. Sendo assim, escusa de ir desperdiçar votos lá para o outro lado do espectro político. ;)
Um abraço,
ZM

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 12:36 PM

Risos. Ok, ficamos por aqui. Até porque, pregar o catecismo aos já catequizados é chover no molhado.. :)

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 12:45 PM

Muitos dos comentários a este post foram do estilo "ena, já chegámos aos X comentários", etc., o que falseia claramente a contagem dos mesmos. Este comentário é um exemplo disso mesmo.

Afixado por: alexandre andrade em janeiro 23, 2004 01:52 PM

Pronto, já cá faltava esta. (Sim, aproveitei a sesta da Alice, porque confesso que o assunto me inquieta) Sempre que uma tipa ousa questionar a pretensa harmonia dos papéis sexuais na sociedade moderna, há logo quem lhe salte em cima com a cena dos sutiãs (confesso que desconhecia esta grafia mas deve ser por isso que o flip me censura sempre que uso outras)queimados. Sinceramente, já vi muito pior do que queimarem sutiãs, sobretudo tendo sido (como creio) os próprios. De qualquer forma, o horror à imagem seminal da queima dos ditos leva-me a pensar que é certeiro o alvitre do meu marido de que o feminismo não funciona porque não tem glamour. À exepção das famosas pernas longiudinais da Germaine Greer, a imagem pública que fazem de nós é a de lésbicas matrafonas que descuram até a firmeza dos seios. A causa precisa de gajas boas e heterossexuais. Aceitam-se inscrições (abertas também para homens de lustrosos bíceps; favor enviar fotografia de tronco nu e wonderbra).

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 02:31 PM

Margarida, esse comentário é extremamente homófobo e ofensivo para as lésbicas e perpetua o estereotipo das lésbicas camionistas. É altura de olharmos de modo diferente para esta questão!

Afixado por: Carlona em janeiro 23, 2004 03:41 PM

Tens razão, Alexandre (Andrade). Não entendo como há pessoas que vêm aqui só para assinalar que este post chegou aos 64 comentários.
;)

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 03:57 PM

65, s.f.f.

Afixado por: Pedro Vieira em janeiro 23, 2004 04:33 PM

"A anita aprendeu a montar numa semana e depois a um concurso hípico e ganhou, a anita foi anita mamã e tomou conta do pantufa e do irmão pequenino e fez a comida e lavou tudo e disse adeus aos pais da janela, a anita foi à quinta e mugiu a vaca, a anita foi ao supermercado pela primeira vez e comprou tudo para casa, a anita gosta de pizza e de crianças, a anita fazia tudo rápido e bem, a anita está pronta."

Nuno Moura, em "Calendário das Dificuldades Diárias"

Afixado por: Carla Major em janeiro 23, 2004 04:34 PM

Esse Nuno Moura tem um problema com o português.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 04:40 PM

o único erro que encontro e pelo qual peço desculpa é na primeira frase: onde se lê "aprendeu a montar numa semana e depois a um concurso hípico", deve ler-se "aprendeu a montar e uma semana depois foi a um concurso hípico e ganhou", de qualquer modo, não me parece que isso seja o mais relevante neste comentário...que lancei precisamente para ilustrar a imagem que a anita tem junto da maioria: a anita perfeita, que é feliz, que está sempre bem, que faz as compras como uma mulherzinha...não há nehuma anita verdadeira que seja assim, nem do outro lado do espelho...bem como não há mãe como a da anita, ou tia: que lhe possa ler uma história e ainda tenha tempo, antes de ir lavar a roupa, para explicar que os meninos também tomam conta dos irmão e que também devem fazer compras para a casa...

Afixado por: carla em janeiro 23, 2004 05:19 PM

aliás, deve ser por não haver tempo para isso, que se pode observar o comportamento da maioria dos homens solteiros a viver sozinhos(eu disse maioria,o.k.?): comem comida de lata, ou comida da mãe, ou da namorada e vivem regra geral em casas muitos semelhantes a bunkers, a não ser quando tem a boa sorte de ter uma mãe ou uma namorada que tenha lido a colecção inteira dos livros da anita e que por isso os ajuda nas tarefas da casa, ou a boa sorte de encontrar uma anita ucraniana que cobre menos que 5 €/hora. Talvez devessemos conduzir uma experiência piloto e dar-mos a ler aos nossos filhos homens os livros da anita durante os próximos 20 anos. Assim poderíamos , quem sabe, assistir à verdadeira emancipação feminina.

Afixado por: carla em janeiro 23, 2004 05:28 PM

quando digo não haver tempo para isso, quero dizer tempo para as mães ou pais ou tias que lêem histórias explicarem, ou fazerem o arranjo final do que leram...fazendo valer a ideia de que somos todos iguais e de que a todos cabe fazer tudo... e que a anita, no fundo acaba por ter um universo de interesses muito reduzido (quinta,casa,piscina, casa da tia, casa da vizinha : aliás, deve ser por isso que trago na ideia que o meu livro favorito foi quando a anita foi andar de comboio...)

Afixado por: carla em janeiro 23, 2004 05:35 PM

O que eu acho curioso(tendo em conta as minhas atentas observações ao univerwso feminino lusitano) é que as mesmas mulheres modernas e emancipadas que tanto pugnam, e muito bem, pela paridade sexual, guardam ainda dentro de si uma faceta decalcada do estereótipo 'Anita'. É o grande paradoxo da mulher moderna portuguesa.

Afixado por: amuado em janeiro 23, 2004 06:09 PM

71 (desculpa Zé Mário, as massas populares sempre me fascinaram)

Afixado por: o proletário vermelho em janeiro 23, 2004 06:10 PM

72

Carla, essa imagem dos homens em bunkers também cola em muitas mulheres que não sabem estrelar um ovo e que vestem cuecas requentadas de um dia para o outro porque se esquecem de as lavar ou não têm OMO em casa, porque se esqueceram de o comprar e o frigorífico até está vazio mas cheio de comida fora de prazo... como dizia o outro, a altura das meninas que aprendiam francês, não gostavam de futebol, sabiam fazer ponto cruz e coravam púdicas quando o homem delas se servia, acabou....

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 06:49 PM

O machismo do Alexandre Monteiro é como um gato com o rabo de fora.

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 23, 2004 07:05 PM

O gato do atirei o pau ao gato? :)

(agora vou ali bater na mulher e já volto para comentar a resposta)

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 07:13 PM

Caro Alexandre, parece-me que quem tem um problema com o português não é o Nuno Moura mas o Alexandre. Talvez uma perturbação de tipo obsessivo-compulsiva. Cuidado. No caso, os enfermos transformam-se em insuportáveis Edistes Estrela.

Afixado por: hmbf em janeiro 23, 2004 08:21 PM

76
(para quando um referendo, Zé Mário?)

DIDASCÁLIA:no meu post anterior, «lésbicas», «gajas boas» e «heterossexuais» deve ser lido com ironia. O mesmo não se aplica aos homens entroncados de wonderbra, onde se optará por um tom manso e mendicante.

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 08:44 PM

77
Alexandre Monteiro,
Na verdade estou com uma grande enxaqueca mas não me queria ficar pela chalaça. Portanto, voltando à vaca fria: li no seu blog o «compacto» dos seus argumentos. Dois reparos:
1. ainda não percebi o que o incomoda tanto afinal na questão da miúda de S. Miguel. Gostaria que esclarecesse este ponto visto que me interessa saber o que terá a dizer.
2. quando a Leonor, que aprendeu agora a ler, folheia os catálogos de brinquedos no Natal, passando rapidamente pelas páginas de pistas de carrinhos e jogos de construções porque está lá escrito «menino» e aquilo claramente não lhe diz respeito, não me parece que «a formatação cultural esteja na personalidade de cada um».

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 23, 2004 09:24 PM

A questão aqui parece-me simples: a ANITA é mal escrito e mal ilustrado, um exemplar tipico de mediocridade e banalidade, mais nada. Fossem os livros bem escritos e bem ilustrados, não estaria em causa a "mensagem" sexista e atrasada mental que veiculam. Seriam bons livros. Tudo o resto é conversa.

Afixado por: Balao em janeiro 23, 2004 10:58 PM

Esta "conversa" já chateia.

Afixado por: Sofia em janeiro 23, 2004 11:10 PM

Cara Margarida,

Faça um esforço de imaginação. Imagine que o seu pai, casado com a sua mãe, tem relações sexuais com uma menor de 15 anos - quiçá uma amiga sua da rua ou do bairro.

O que faria você? Desculpava o seu pai, aceitava a coisa com naturalidade, dizendo que a sua amiga sabia bem o que queria?

Se responder negativamente, considere a sua pergunta respondida.


(vivi 11 anos nos Açores, dei aulas lá e sei bem o que é a pobreza cultural entranhada de alguma daquela gente - é algo que só se resolve esperando que os mais velhos morram, enquanto se educam os mais novos nas mais elementares regras da conduta social)

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 23, 2004 11:53 PM

Se existe algo comum a todos os comentários (supra/sub citados), é de que todos leram os livros da Anita. Mais, uma grande parte dos comentadores (sem aspas), têm muito tempo livre, para dissertar.
Já agora deixem-me atirar uma acha para a fogueira. Por acaso, já cogitaram sobre a ideia que o J.M.Mello teve de nos juntarmos a Espanha para nos chamarmos Ibéria?; ou então sobre a ideia que os sindicatos e sindicalistas querem fazer passar, de que Portugal é um grande pais e que é o governo do Furão que é masoquista e gosta de fazer sofrer os funcionários publicos.

Afixado por: Asinus em janeiro 24, 2004 03:31 PM

Alexandre,

Resta-nos então esperar que a personalidade do filho(a) da menina de 16 anos possa ser formatada pelas «mais elementares regras de conduta social». Para a mãe, já não parece haver grande esperança. Curiosamente, vivo desde sempre em Lisboa (embora também conheça os Açores), fui professora do Secundário, e haveria muitas ex-alunas minhas capazes de adoptar a mesma atitude da miúda de S. Miguel...

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 24, 2004 03:44 PM

Jasus! Nunca tinha visto uma coisa assim! Só mesmo nos comments do Pipi! (embora lá sejam mais absurdos).

Pobre geração, esta, que faz estes comentários PORQUE leu a Anita! Mais valia não terem lido! Eu li e não me fez mal.

Afixado por: Paulo em janeiro 24, 2004 04:44 PM

Eu, que acho a Anita kitsch, sexista e tudo o mais, e que não gostaria de ver alguns 'valores' destes livros passados às gerações seguintes, digo-vos ainda assim uma coisa: lembro-me de ser pequena e não achar a mínima piada à maioria dos livros contemporâneos escritos para crianças - aqueles com ilustrações que pareciam feitas a lápis de cor, pouco naturalistas, com histórias sem moral nenhuma em particular, que se passavem em mundos de fantasia inefáveis e com títulos linguisticamente desafiantes. Eu não percebia nada daquilo, e acho que é esse o mal de muita literatura para crianças politicamente correcta - é feita mais ao gosto do adultos que querem reencontrar o que acham que é o mundo mental das crianças. Tirando os livros da Sophia, do Petzi e do Asterix, acho que pouco mais retive. Não era leitora assídua da Anita, porque me enjoava um pouco todo aquele cor-de-rosa esfumado das ilustrações e a leveza do enredo. E se é certo que a história do que agrada ou não às crianças e dos clichés sociais é como a do ovo e da galinha, a verdade é que muita literatura para crianças agrada sobretudo às expectativas dos adultos que a fazem e lêem.

Afixado por: galinhola em janeiro 24, 2004 06:57 PM

Aos 85, a Anita já devia estar na reforma, a fazer bolinhos para os bisnetos. Para quando o best-seller «Anita no lar da terceira idade»?

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 24, 2004 11:45 PM

Eu li a colecção completa dos Cinco, e ainda não consegui ter uma ilha; li montes de BDs do Super-Homem e mesmo com o meu Cocó de treinador ainda não consigo voar; li todas as biografias do Adolfo Simões Müller, e continuo (felizmente) cem por cento anónima; li toda a colecção dos Sete, e nunca desmascarei um ladrão - também, nunca tive um cão.
Mas todas as leituras me levaram a outros mundos que não tinha hipóteses de conhecer, e ajudaram a que escreva bem e sem erros.

Afixado por: Vitriólica em janeiro 25, 2004 02:24 AM

Na madrugada de sábado vi a Anita a vomitar numa esquina do Bairro Alto. A coisa estava mesmo feia. E a ressaca ainda deve ter sido pior. Coitada da miúda. Tenham dó.

Afixado por: thirdbacus em janeiro 25, 2004 06:16 AM

Aqui está um bom exemplo de como a intelectualidade e a inteligência são muitas vezes oposição. Aposto que amanhã a Margarida vai censurar o Mickey; afinal ele trata os filhos por sobrinhos e não assume a relação com a Minie. Meu Deus, tenho saudade da simplicidade dos sábios que pensavam antes de escrever.
Margarida, que o tempo te adoce!

Afixado por: João Mãos de Tesoura em janeiro 25, 2004 03:26 PM

Vós não andareis um bocado doudinhos, não?

Afixado por: Turra em janeiro 25, 2004 04:32 PM

João,
Sobre a Minnie e o Mickey já existe o clássico «Para Ler o Pato Donald» de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Recomenda-se.

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 25, 2004 07:07 PM

Bem recomendado Margarida Gato.

Afixado por: thirdbacus em janeiro 25, 2004 08:47 PM

Margarida, provoquei-a e obtive uma resposta intelectual. Assim, reforço a ideia com um dos capítulos da obra que referiu; "Uncle, Buy Me a Contraceptive ..."

Afixado por: João Mãos de Tesoura em janeiro 26, 2004 12:14 AM

Confesso que estou desiludido. Pensava que hoje Eduardo Prado Coelho reflectiria sobre o tema mais quente da reflexão pós-moderna («Anita, arquétipo conservador ou ícone desconstrucionista?») mas o nosso guru preferiu falar sobre Jane Birkin.
Enfim, vou ali à FNAC afogar as mágoas. Pode ser que encontre o volume «Anita vai à praia e encontra Heidegger» ou até mesmo essa preciosidade alfarrábica que é «Anita no gabinete do Dr. Lacan».

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 26, 2004 10:18 AM

Alguém me explica como é que um texto tão simples e tão OBVIAMENTE claro pode gerar tamanha confusão, polémica e leituras divergentes? O que a Margarida Ferra escreveu não é sequer discutível. É uma evidência. A Anita não é criticada pela função que já teve (por muito questionáveis que sejam os seus estereótipos), mas pela manifesta inadequação aos nossos tempos. Não querer ver isto releva da cegueira ou, pelo menos, da má vontade.
Parabéns, Margarida. Estou contigo a 100%.

Afixado por: LD em janeiro 26, 2004 12:22 PM

Mas será que a saga da Anita nunca mais acaba!?!? Please...

Afixado por: saguim em janeiro 26, 2004 12:24 PM

LOL, JMS.
Mais alguns títulos que talvez se possam encontrar na FNAC:

- «Anita visita Pina Bausch em Wuppertal»
- «Anita curadora da Tate Gallery»
- «Anita entre Derrida e Deleuze»
- «Anita e os Painéis de S. Vicente»
- «Anita Dadá o corpo ao Manifesto»
- «Anita assistente de realização de Ingmar Bergman»
- «Anita deixa o Prozac»

Afixado por: mk em janeiro 26, 2004 12:35 PM

Li alguns dos comentários a este tema que me deixaram os cabelos de pé. Pela ignorância e pela falta de inteligência, revelam afinal os maniqueísmos que encerram.

Os livros da Anita têm de ser vistos à luz da época em que foram escritos, numa sociedade patriarcal em que o papel da mulher era delineado desde a nascença para a função da maternidade e da família e na qual o seu trabalho se resumia a funções domésticas e quanto muito na lavoura ou em actividades profissionais ditas femininas.

É óbvio que os tempos mudaram e que hoje o papel da mulher extravazou esse espaço fechado, permitindo-se um papel mais interventor enquanto ser humano.

A leitura dessa escrita hoje não significa forçosamente, tal como nessa época, que quem o fizesse tivesse de repetir esses modos de vida e pensar.

O ser humano possui inteligência e capacidade de decisão sobre a sua vida.

Mesmo para os que nasceram nessa geração dos livros da Anita, mesmo para quem os leu, tal não significou que perpetuasse essa forma de agir e ver o mundo e a sociedade.

A prova está que a mulher dessa geração é hoje uma mulher liberada e que assume outro papel bem diferente das Anitas dessa geração.

Pensar que a leitura deste tipo de literatura infantil condiciona o comportamento e a replicação de estereótipos ultrapassados é o mesmo que pensar que os filhos de um assassino só podem vir a ser assassinos pelos exemplos de vida que receberam na infância.

Quem assim pensa, está a tentar passar um atestado de imbecilidade ao ser humano.

Eu leio e vejo muita violência e muito relato de assassinatos nos jornais e nas televisões e nem por isso me torno uma assassina.

Tudo passa pelo uso da nossa capacidade de decidir e de pensar pela nossa cabeça.

Afixado por: LC em janeiro 26, 2004 02:09 PM

Aparentemente, ler o "Mein Kampf" faz de nós nazis; ler "Das Kapital" faz de nós marxistas... deve ser isto o Lamarckismo literário.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 26, 2004 04:37 PM

Aparentemente, ler o "Mein Kampf" faz de nós nazis; ler "Das Kapital" faz de nós marxistas... deve ser isto o Lamarckismo literário.

Afixado por: Alexandre Monteiro em janeiro 26, 2004 04:37 PM

Tinha que ser. Só para ficar com a "honra" do centésimo comentário a este post histórico, o Alexandre Monteiro até se faz de sonso e carrega duas vezes seguidas no botão de Afixar...
;)

Afixado por: José Mário Silva em janeiro 26, 2004 05:10 PM

Só hoje li os comentários à Anita. Neste momento sinto-me muito confuso. Quando a minha filha era pequenita nós oferecemos-lhe vários livros da Anita. Isso já foi há quase 20 anos pelo que não me lembro das histórias. Mas com tanto comentário pernicioso (não sei se com razão ou não dos detractores da Anita), vou atentar melhor ao comportamento da minha filha. Será que nunca reparei se ela é anormal por ter lido a Anita? Ah.. desculpem esqueci-me de referir um facto que me parece importante... A minha filha tem 22 anos e já sabe cozinhar! (que pai mais sexista este; devia era ir todos os dias ao restaurante)...

Afixado por: Predatado em janeiro 26, 2004 06:37 PM

isto parece uma sala de chuto... neste caso, chuto n` Anita

Afixado por: João em janeiro 26, 2004 06:46 PM

A senhora tem razão.
Em miúdo os meus pais também não me queriam dar armas. Eu bem pedi uma bisnaga, e depois uma pistola de fulminantes. Eles não queriam dar, mas lá cederam, eu pedi muito e descobriram que eu usava armas emprestadas. Aí renderam-se.

Foi por isso, decerto, que me tornei neste assassino compulsivo. Malditos brinquedos.
Já para não falar naqueles livros do Karl May.

Afixado por: atirador em janeiro 26, 2004 10:06 PM

Eu sei que isto já está no post cento e tal e que já toda a gente se marimbou para a Anita. Eu também. Mas sempre digo isto: a questão não está naquilo em que o indivíduo se torna, mas na visão do mundo que lhe é apresentada e eventualmente tomada como adquirida, possível ou mesmo «natural». E repito que é uma questão especialmente premente nos livros, brinquedos ou modelos que são facultados às crianças. Está tudo na Revista X. Aconselha-se leitura atenta a quem quiser negar esta evidência. ;)

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 28, 2004 12:05 PM

Mais: não é, portanto, de estranhar que alguém, como o A. Monteiro, que se recusa a aceitar ter sido culturalmente condicionado por estereótipos de papéis sexuais, ache natural que, numa família em que «têm os dois de trabalhar com salários de miséria», seja o marido a «ajudar» a mulher em tudo [?! vá lá, não exagere, A.] o que é preciso.
Pronto. A verdade é que a causa não pode desperdiçar uma única oportunidade. A Anita é tão boa como qualquer outra. Ainda podemos chegar aos 200.

Afixado por: Margarida Gato em janeiro 28, 2004 12:53 PM

Eu cresci a sonhar com os livroas da Anita porque nunca tive nunhum, aprendi a oração Pai nosso num dos livros. Sonhei verdadeiramente ter aquela mãe, aquele irmão, as férias, as festas d e anos, sonhei em ter isso tudo, ... nem os livros consegui ter.
Mas fui na realidade a verdadeira Anita, com a idade dela. Fui mamã (do meu irmão), fui às compras e tudo o resto que diz respeito às actividades domésticas, mas nunca as festas e as coisas boas.
Espero dar às minhas filhas (se as tiver) as coisas boas da Anita, daí não dar os livros ou selecionar os temas.
Eu e o meu marido dividimos tudo em casa, elas cresceram com exemplos, e não com ilusões de propaganda.

Afixado por: Eduarda Pinto em junho 11, 2004 12:50 PM

teen amateur

Afixado por: teen-amateur em julho 19, 2004 08:51 AM
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