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setembro 28, 2004

OS FRANCESES, TRABALHAM-T-ELES O SUFICIENTE? (TEXTO ALGO AFRANCESADO)

Já aqui levantei essa questão. Parece, no entanto, que não sou o único, como se pode ver na capa desta semana da revista Le Point.
Não li o artigo em questão (é a pagar). Creio no entanto que não é por acaso que este tema volta a estar na ordem do dia. É que o governo de direita e, principalmente, o patronato nunca aceitaram a lei das 35 horas de trabalho semanal, do anterior governo de esquerda plural de Lionel Jospin. E sobre este assunto a minha posição é clara: sou favorável à lei.
Aquilo a que eu me referia nem era necessariamente as horas que os franceses trabalham: era mais a atitude dos franceses no trabalho. Por aquilo que me é dado a ver, as pessoas que trabalham perto de mim são trabalhadoras e bastante prestativas. Já os funcionários públicos parecem-me enredados numa máquina burocrática pesadíssima que lhes diminui a eficiência (as voltas que eu tive que dar, os gabinetes que tive de percorrer para conseguir um cartão de acesso a um laboratório nacional!). Em Portugal há o mesmo problema.
A grande diferença está mesmo em tudo o que tenha a ver com atendimento ao público em geral (não só no comércio). Está certo que o Kramer que há em mim não costuma dar-se muito bem com o atendimento directo ao público. Mas os parisienses (falo agora dos parisienses) não gostam deste tipo de profissões. Acham-nas humilhantes. E tratam mal as pessoas que estão a atender. E aqui, podem crer que não sou só eu a achar isso. Pode ser que seja uma questão de antipatia natural parisiense. Que se revela noutros aspectos.
Há também os museus que estão abertos até às seis horas. Para mim (é a isso que estou habituado, e recuso-me a deixar de estar), se um museu está aberto até às seis horas, eu posso lá estar dentro até às seis horas. O conceito francês de "aberto até às seis horas" é às seis horas estar tudo na rua, incluindo os empregados, e o museu fechado à chave. E bem antes das seis horas começam a despedir as pessoas.
Pode ser que os franceses nem trabalhem assim tão pouco, mas quem os visita fica mesmo com a impressão de que não gostam de trabalhar. Era bom que pensassem nisto. Se calhar poder-se-ia evitar artigos como o do Le Point. Voltarei a este assunto.

Publicado por Filipe Moura às setembro 28, 2004 10:30 AM

Comentários

A sensacao que tenho, e que os europeus (ocidentais), regra geral, nao gostam de trabalhar.

Digamos que tenho uma taxonomia pessoal, completamente empirica, para dividir os Europeus:

1. Ingleses: Nao gostam de trabalhar, mas dao o melhor de si no trabalho e vestem a camisola. Querem reformar-se o mais cedo possivel
2. Norte Europeus: Nao gostam de trabalhar, assumem honestamente isso e pragamticamente organizam as coisas para produzir o maximo fazendo o minimo
3. Sul Europeus (com os portugueses no topo): Nao gostam de trabalhar, mas nao assumem isso, alias, mascaram de uma forma inutil. Substituiem a produtividade pelas horas (sobretudo na peninsula iberica).

1,2 tendem a respeitar muito mais qualquer individuo independentemente da profissao que teem. Tambem veem com muito mais bons olhos a mobilidade profissional (tal como nos EUA).
3 Ha muito mais o sindroma do senhor doutor.

Sociologia de pacotilha, mas a minhas intuicoes teem-me desenrascado bem.

Publicado por: Jean-Luc em setembro 28, 2004 11:02 AM

Parece-me correctissimo, Jean-Luc.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 28, 2004 11:17 AM

Gostei e já me aconteceu semelhante coisa num museu.
No entanto, coloco uma questão que compreendo não seja de resposta rápida e susceptível de caber num comentário: Não será que o pouco zelo profissional se deve (não apenas, mas acima de tudo) à sensação de emprego garantido? Não haverá muitas pessoas que têm emprego, mas não visualizaram que também têm um trabalho?

Publicado por: André em setembro 28, 2004 12:21 PM

Concordo em absoluto com o Jean-Luc.
De facto as pessoas não gostam de trabalhar, também dúvido que o trabalho exista para as pessoas gostarem :)
Dificilmente alguém gosta de se levantar às 6:30 da manhã para ir trabalhar.

Mas o não gostar , não implica que depois no local de trabalho sejam maus naquilo que fazem. Podem ser excelentes trabalhadores e profissionais.

Uma coisa não tem a ver com a outra.
De todas as maneiras a questão dos museus franceses, isso passa-se em todo o lado.
Experimenta ir a um sítio em portugal que fecha às 18:00, e tenta lá entrar ás 17:50 para ver se te deixam :)

Publicado por: cachucho em setembro 28, 2004 02:03 PM

Andre, estou a ver onde queres chegar. Nao creio que o problema se resolva com a flexibilidade nas leis de despedimento. Alem de isso introduzir outros problemas, bem mais graves, e ser injusto a meu ver. Creio que o problema e outro. Talvez volte a isto esta semana.
Cachucho, nao deturpes... Eu nao falei em ENTRAR num museu (quem quer entrar num museu dez minutos antes de fechar?). Eu falei em quem la estava dentro ter de sair antes da hora. Sem apelo nem agravo. Em Portugal, nos EUA, os visitantes saem do museu a hora marcada e nao mais de meia hora antes, como me sucedeu em Versailles e no Centro Pompidou.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 28, 2004 02:35 PM

Filipe, a questão que coloco não se refere directamente ao despedimento ou não despedimento. Relaciona-se também com as promoções. A sensação que ela virá, independentemente do esforço, não premeia apenas o que pouco faz, mas prejudica o que se esforça (ou aquele que se quer esforçar).

E aqui está o busílis (como acabou por descobrir, sem querer, o tal estudante) da questão: o espírito humano precisa de motivação e quando falamos de uma sociedade no seu conjunto, essa motivação deverá ainda ser maior. Até porque (e indo aos despedimentos) o não despedir um incompetente impede a contratação de quem quer ter a oportunidade de tentar.

Mas isto é discussão para muita fruta, muito texto e ainda mais tempo.

Publicado por: André em setembro 28, 2004 04:36 PM

Filipe,

Não é mais uma questão de definição do que outra coisa qualquer?

Em França fechar às 6 significa uma coisa diferente de em Portugal (e provavelmente no resto do mundo).

6 significa sair às 5.30 em França. Desde que estejas informado é só fazer a conversão mental.

Eu sou tudo menos relativista cultural, mas neste caso acho que é apenas açucar semântico.

hora_de_fecho(país, tempo) =
se país = frança então
tempo_real = tempo - 30 minutos
senão
tempo_real = tempo

Publicado por: Jean-Luc em setembro 28, 2004 04:43 PM

André,

Essa coisa do esforçar-se mais tem muito que se lhe diga.

Eu não quero competir com alguém que trabalhe 12 horas por dia.

Numa sociedade pos-scarcity (que podia já ser fosse a distribuição de riqueza menos desigual) qual é a vantagem de trabalhar mais? A distribuição do trabalho vai ser um dos maiores problemas do séc XXI (já é).

Estamos às portas de viver numa sociedade em que uma boa parte está desempregada e os que têm emprego trabalham sem parar para o manterem.

Se a distribuição do trabalho fosse mais equitativa não havia necessidade de haver mais esforço (pelo menos se medido em horas de trabalho). Só o esforço de trabalhar bem durante o (curto) horário de trabalho.

O capitalismo está a tornar-se desnecessário. De vantagem está a transformar-se em problema.

Mas isto é mesmo mudar o rumo da conversa, oh well...

Publicado por: Jean-Luc em setembro 28, 2004 04:53 PM

Andre, tu e que falaste de emprego seguro! O oposto de emprego seguro e flexibilidade de despedimento, a meu ver. Quanto as promocoes por merito, nao posso estar mais de acordo, se bem que por vezes se torna dificil passar da ideia a pratica.
Jean Luc, o que eu escrevi nao tem nada a ver com horarios de funcionamento, que -diga-se - sao bem piores nos paises anglo-saxonicos. Quanto ao novo rumo da conversa, e um rumo muito interessante mesmo. E mesmo isso! Mas vai ter que ficar para outra altura.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 28, 2004 05:36 PM

Li melhor o teu penultimo comentario, Jean Luc. Pois e isso, mas fica sempre a sensacao de que eles querem e sair mais cedo.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 28, 2004 05:37 PM

Olhem que pelo menos o Centro Pompidou deixa a coisa bem clara. "Musée et expositions 11h - 21h, fermeture des caisses à 20h, fermeture des salles à 20h50"...
Ou seja, tratem de se pôr a andar 10 minutos antes da hora do fecho.

Publicado por: Luis Rainha em setembro 28, 2004 06:00 PM

só para o preto é que não é real trabalhar 35 horas,que de qualquer jeito comem de outra maneira são lhes retirados direitos a prémios, de horas extras(que no meu tempo seriam pagos por fora para não serem incluidos impostos),etc,para o resto do pessoal é diferente,para os outros que penso é uma benção,ficam com mais tempo para curtir e realmente viverem uma vida fresca. Posso dar alguns exemplos do que falo,mas creio que iria desarmar alguns dos que aqui escrevem e eu quero-me isento!

Publicado por: triciclo em setembro 28, 2004 08:05 PM

Devo ser totalmente anormal, mas eu gosto de trabalhar!!!
Não gosto de ter de trabalhar fora de horas, prinipalmente se não for compensada por isso, mas gosto de trabalhar.
Deve ser de família, a minha mãe também adora o trabalho dela, até fica doente se não puder ir trabalhar!

Publicado por: daisy em setembro 29, 2004 09:00 AM

Pois, Luis, so que nq pratica o fecho das salas é pouco depois das oito.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 29, 2004 12:57 PM

Correndo o risco de me repetir, eu usei a expressao "regra geral", o que quer dizer que nao se aplica a toda gente.

Nao quer dizer que alguns individuos nao se desviem da norma (e nao ha nada bom ou mau implicado por ser um desvio a norma).
Falando no meu caso pessoal ja houve trabalhos em que eu vesti a camisola e outros que odiei.

Mas, REGRA GERAL, acho que o europeu medio vai mais ao menos pelas regras que falo.

Publicado por: Jean-Luc em setembro 29, 2004 02:13 PM