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setembro 23, 2004

DIÁLOGOS ANACLETOS (2)

Kamaradas leitores,

É com o coração nas mãos que procedo a este agónico mas inadiável exercício de autocrítica. No entanto, sinto que, depois de ver publicamente expostas as minhas muitas deficiências e desvios enquanto revolucionário, se impõe um vigoroso e apologético mea culpa, berrado enquanto bato com o punho direito no peito, numa cadência adequadamente dolorosa.
Sim; confesso. É triste mas vero. "Já na escola primária o Lulu (?) explorava as crianças da classe trabalhadora. Comprava caixas de bombocas e depois vendia à peça aos outros meninos tendo com isso grandes lucros. Emprestava berlindes a juros e ficava com o lanche dos meninos da primeira classe a troco de cromos do Jordão e do Néné".
Mas que querem? Com as minhas raízes encravadas no âmago da aristocracia rural, como poderia eu ver a luz nesta tenra idade? Tive de esperar até ao dia em que a Rita, aquela deliciosa kamarada do 3.º ano, me ofereceu o meu primeiro autocolante "Eu sou comunista. E tu?" Soube logo que estava no caminho justo quando vi o chilique que deu à minha doce mas politicamente iludida mãezinha.
Nesses tristes anos de alheamento das lutas do proletariado, é verdade que revendia bombocas com grandes mais-valias; mas as dores de barriga que causava àqueles gulosos filhos-família não deixavam de ser uma espécie de proto-terrorismo de esquerda! E olhem que isso do Nené não é do meu tempo; cá para mim, era mais cromos do Tibi, membro oprimido de uma minoria étnica, mal pago, gozado por todos e, ainda por cima, sofrendo a ignomínia de ser guarda-redes do FCP! Lucrava com este comércio indigno, é certo; mas fazia-o de forma solidária com o mais explorado e infeliz futebolista da época...
Apresentadas as minhas débeis circunstâncias atenuantes, e sem querer colocar em causa o infalível julgamento do Kamarada Anacleto, pergunto-vos respeitosamente se eram mesmo necessárias aquelas coisas do "traidor da classe operária" ou o "desde pequenino, um perigoso filo-capitalista encapotado"... E a sentença exarada com cruéis frases como "Camaradas, não podemos ficar de braços cruzados enquanto este lacaio do imperialismo e do grande capital andar por aí a corromper a nossa causa. Divulguem esta denúncia. Abaixo o Luis Rainha!" não será severa demais, tendo em vista o meu empenhamento, nas décadas mais recentes, em todas as gloriosas demandas do nosso povo, superiormente enquadrado pela vanguarda dirigida pelo Kamarada Anacleto: os charros, o aborto, as salas de chuto, o cinema do Burundi, a liberdade para os oprimidos da Baixa Lapónia, etc, etc.?

E devo também declarar-me vítima de algumas injustiças. Não é minha ideia, de forma alguma, questionar a pertinência revolucionária do sistema de bufos que com tanta eficácia serve o Partido e o Kamarada Anacleto. Mas olhem que aquilo do "Eu conheço o Rainha. Já na escola ele tinha dúvidas sobre isto e mais aquilo. Não sabia se a direcção que o movimento contra o neoliberalismo estava a tomar era a mais correcta" não passa de uma falsificação grosseira: eu sou tão antigo que no meu tempo de liceu o liberalismo ainda não precisava do "neo" para se dar ares de coisa moderna... e que dizer de uma suposta acusação que é servida por esta frase: "O nome do Rainha em Inglês é Queen. Está tudo dito"? Aqui, as vossas iníquas fontes desmascararam-se por um momento decisivo: então isto lá é forma de falar d@s noss@s Kamaradas homo/bi/trans/tri? Que querem; não me parece coisa de esquerda, pronto!
Mas não desejo que subsistam dúvidas nos vossos iluminados espíritos sobre a profundidade do meu arrependimento. Assim, junto a minha à vossa voz, numa litania redentora e revolucionária: "Abaixo o Luis Rainha! Bush para a rua! Viva o Lula! Viva o camarada Henver Hoxa! O Kerry é nosso amigo! Viva o Pôncio Monteiro! A revolução triunfará!"

Publicado por Luis Rainha às setembro 23, 2004 12:06 PM

Comentários

AHAHAH!
Boa, Luis!
muito divertido :-D

Publicado por: Jotavê em setembro 23, 2004 12:17 PM

Nunca me enganaste!

Publicado por: Monty em setembro 23, 2004 12:35 PM


Tenho estado a ler este "Anacleto" e, sinceramente, ainda nao me consegui rir. Parece que estou a examinar a cabeça de um doido varrido ou a ler uma composição escrita por um paranóico, que, por acção de alguma droga, entrou em alguma realidade paralela. Como que num pesadelo, ouço as gargalhadas do louco vindas dessa realidade paralela, e sinto que o louco me quer puxar para o abismo, enquanto ri violentamente!

Vão aprender a fazer humor, caramba, leiam o "Inimigo Público".

Não deixa de ser curiosa como até os blogues da extrema-direita já anunciam este "Anacleto" como mais um "deles". Por mim é ignorar esta palhaçada, como se ignora as Riapas e coisas afim.

Publicado por: Ana Miranda em setembro 23, 2004 01:27 PM