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setembro 03, 2004

VIVER PARA TRABALHAR OU TRABALHAR PARA VIVER?

Temos tido uma discussão interessante entre o Jorge Palinhos e o André Amaral de O Observador.
As estatísticas e informações que o Jorge apresentou são interessantes e merecem a nossa reflexão. Contrariam algumas ideias feitas (e confesso que, em parte, contrariam a minha experiência empírica, baseada na observação, que pode ser muito parcial). Em qualquer dos casos creio que o texto do Jorge revela um optimismo exacerbado (eu é que tenho fama de optimista!) e (o Jorge que me desculpe) não é capaz de olhar para além do próprio umbigo (umbigo europeu, não umbigo do Jorge!), algo que frequentemente criticamos nos americanos mas que também se nos aplica.
Por outro lado, o texto do André revela, a meu ver, uma crença profunda, de apóstolo, no "sonho americano", no ideal da América. Esta crença parece-me pura e bem intencionada, mas algo ingénua e longe da realidade. A mobilidade social de que o André gosta (e eu também) nos EUA é um mito.

(Desculpem-me os autores se fui demasiado "cru" na minha apreciação aos textos.)
Uma das grandes razões para o poderio dos EUA é que conseguem (e têm condições geográficas e económicas para isso) atrair imigração de países muito mais pobres. Esses imigrantes ganham muito mais dinheiro que nos seus países e têm regalias sociais muito superiores às dos seus países, mas isso não torna o modelo social americano bom. Os EUA aproveitam-se assim da pobreza de outros países, ao não tratarem os imigrantes condignamente. Os europeus devem orgulhar-se do seu modelo social, das regalias conquistadas pelos seus trabalhadores e devem mantê-las.
É falso que os americanos defendam o seu modelo social e não queiram optar por um modelo de um tipo mais europeu. Franklin Roosevelt utilizou uma receita keynesiana, estatista, para desenvolver a economia, e durante a sua presidência muitas regalias sociais foram conquistadas. Recentemente, Bill Clinton sempre teve como objectivo democratizar os sistemas de saúde e de educação, e se não conseguiu mais foi porque tinha o bloqueio do congresso, de maioria republicana. Por outro lado, na Europa vamos assistindo a tentativas sucessivas, por parte dos governos de direita, de adoptar um modelo mais semelhante ao norte-americano. A qestão não é o "modelo europeu" versus o "modelo americano": é o modelo da esquerda versus o modelo da direita. Agora, é verdade que na Europa vai prevalecendo o primeiro e nos EUA o segundo.
Refiro isto porque esta discussão também envolve valores diferentes, expectativas diferentes em relação à vida. Isso foi bem evidente nos comentários ao texto do Jorge. Este é mesmo um tema em que não se deve fugir à dicotomia esquerda-direita; bem pelo contrário, ela é indispensável para analisar o assunto com clareza. Por exemplo: o André fala em "liberdade acima do bem estar". Primeiro há que ver o que entendem a esquerda e a direita por "liberdade" e "bem estar". São coisas bem diferentes.
Tendo vivido nos EUA e agora na Europa, é para mim inegável que nos EUA há uma maior vontade de progredir, de subir na vida. Há uma cultura de trabalho e de responsabilização individual maior. Na Europa, pelo contrário, há uma tendência para a acomodação, que os exemplos de "preguiça" que tenho vindo a dar ilustram. Esta acomodação deve ser vista com preocupação; se por um lado pode significar uma vida mais fácil para os "acomodados" de hoje, ela significará, se não for modificada, menos riqueza e uma pior vida para os europeus de amanhã. Há que inverter esta tendência, sem pôr em causa conquistas e progressos essenciais: a educação e a saúde universais, as férias, os sindicatos... A meu ver, há que saber motivar os trabalhadores.
Termino com duas curiosidades. Para dar informações sobre o livro de Rifkin, o Jorge faz uma ligação à Amazon.com, um exemplo verdadeiro de progresso e utilização das novas tecnologias ao serviço do consumidor. Vem dos EUA. Dificilmente uma empresa como a Amazon (de que eu sou cliente com todo o gosto) poderia provir originalmente da Europa (é claro que, quando chega à Europa, tem sucesso). Na Europa a principal preocupação seria não estragar o negócio aos pobres livreiros retalhistas.
Já o Observador, blogue do trabalhador André, tem como lema uma citação do preguiçoso professor Agostinho da Silva que não poderia ser mais eloquente: "O homem não nasceu para trabalhar, mas para criar."
É isto que este outro preguiçoso vos queria dizer; agora, privilegiado que sou, deixem-me voltar até ao fim de semana para as minhas férias.

(Devo esclarecer que, frequentemente, escrevo os meus textos com alguma antecedência, antes de os publicar, principalmente se eles dizem respeito a temas que não perdem actualidade, e vou-os publicando quando posso. Tal é especialmente verdade nesta altura, em que me encontro no distrito de Aveiro profundo (ou nem tanto), dependente de um modem. Quando escrevi sobre a preguiça ainda nem havia a discussão que referi, pelo que a ideia não era meter-me nela. Mas agora não resisto. Tentarei ser sucinto. Não vou conseguir.)

Publicado por Filipe Moura às setembro 3, 2004 12:58 AM

Comentários


Nivelamento por baixo? Por que e que varios paises da UE aparecem a frente dos EUA no indice de desenvolvimento humano das nacoes unidas: http://edition.cnn.com/2004/WORLD/europe/07/16/norway.best/
Curiosamente os paises mais "social-democratas".

Outro mito e que se se trabalhar muito nos EUA consegue-se aceder a riqueza. Nos EUA e standard trabalhar muito, e isso nao faz de todos os americanos ricos, pelo contrario.

Liberdade? E a liberdade de ter direito a uma vida fora do trabalho? De ir de ferias, de ter tempo para a familia e amigos? Eu quero trabalhar (no maximo) das 9 as 5. Ter 25 dias de ferias. Isso nao impede que no meu trabalho nao faca o melhor que sou capaz e seja profissional. Mas eu nao vivo para trabalhar.

E a preguica nao e uma coisa ma. A preguica inteligente gera eficiencia. Trabalhar o minimo, produzir o maximo, vide Holanda. Nao ha nada mais estupido do que trabalhar sem eficiencia, vide Portugal e a simpatia de que gere/manda por longas horas de trabalho (coisa que nunca vi noutro pais europeu desenvolvido).

Publicado por: Jean-Luc em setembro 3, 2004 08:55 AM