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setembro 01, 2004

DESCOBRIR A PÓLVORA

É uma das características sociais que mais me impressionam, a capacidade de as pessoas acreditarem e venderem mitos porque lhes convém.
A actual história do Barco da IVG já fez correr uma quantidade enorme de declarações, alegações e argumentos perfeitamente ridículos - e nem estou a falar de se ser a favor ou contra a IVG - de que talvez depois fale.
Felizmente, há ainda algumas pessoas lúcidas que volta e meia abanam o castelo de cartas. Como este livro que vem dar uma machadada no "sonho americano".
Rifkin diz que:

O sonho americano era baseado no dinheiro, trabalho e eficiência, o sonho europeu baseia-se na qualidade de vida, que foi melhorada ao longo das últimas duas décadas. E assim, hoje em dia, os europeus vivem mais anos, têm melhor educação, riqueza pessoal, melhores objectivos de vida, menos pobreza e crime, mais férias, menos stress; resumindo: melhor qualidade de vida que os americanos. Enquanto os americanos «vivem para trabalhar», os europeus «trabalham para viver». Ao mesmo tempo, a União Europeia é já a maior economia do mundo, as multinacionais europeias dominam e fizeram com que as americanas não passem hoje quase de um mito folclórico.

Basta ver, por exemplo, que os EUA estão em 48.º lugar em termos de esperança de vida, atrás de praticamente todos os países da UE, em 14.º lugar na educação, também atrás dos principais países europeus.

Mais importante ainda, apesar de os trabalhadores americanos trabalharem quase 60 horas por semanas, terem 15 dias de férias por ano e pouquíssimos direitos laborais, Rifkin prova que:

até os trabalhadores franceses, conhecidos pelo curto horário de trabalho semanal e pelas férias prolongadas, têm produtividade superior à dos americanos. E se globalmente os EUA se proclamam reis da inovação e tecnologia, Rifkin mostra que os europeus estão na liderança.

Em 2002, por exemplo, apesar de os franceses trabalharem metade das horas médias de um americano, já tinham uma produtividade quase igual.

A conclusão é óbvia, apesar dos velhos do Restelo desejosos de enterrar a cabeça na areia, a União Europeia está a caminhar rapidamente para o que se pode chamar uma nação não territorial de 455 milhões de habitantes e um produto nacional bruto de 10,5 triliões de dólares, que eclipsará os Estados Unidos em decadência.

Aguardam-se as refutações indignadas dos liberais.

Publicado por Jorge Palinhos às setembro 1, 2004 10:57 AM

Comentários

Grande parte dos americanos nem férias pagas tem! Não estou a falar de subsídio de férias; é mesmo o oredenado que falta nesses escassos dias...
Em 99, a média nos EUA era de 23 dias de licença paga por ano. E isto incluía 11 feriados.

De acordo com a mesma fonte,(a confederação alemã dos empregadores) os portugueses tinham direito a 36 dias e os italianos lideravam atabela, com 45.

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 11:59 AM

Não vou lançar nenhum protesto indignado mas digo-lhe só para tomar atenção à França onde as grandes empresas querem aumentar o horário de trabalho. Quanto ao livrinho parece metade opinião, metade ilusão. Dessa prosperidade europeia ainda não me calhou nenhuma e dessa falência dos EUA ainda não calhou nenhuma aos meus familiares nos EUA. O senhor diz que a Europa já é maior economia do mundo. Se calhar é melhor avisar o durão Barroso de que o objectivo de 2010 que ele quer adiar já foi alcançado e ainda ninguém tinha dado por isso.

Publicado por: Bruno em setembro 1, 2004 12:01 PM

De repente, perdi a minha fé nisso da esperança de vida enquanto indicador de boas condiçoes de existência. Macau em 2º lugar??

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 12:07 PM

Mas não é um facto que a UE possui mesmo a maior economia do mundo, em termos de PIB?

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 12:12 PM

Uma das caracteristicas que mais me impressionam é a cegueira anti-americana. “Anti-americana” não no sentido em que as pessoas queiram que os americanos morram todos, mas naquela vertente rebarbada de quem pensa que perdeu alguma coisa do ponto de vista histórico (e perdeu, claro que perdeu). O Jorge Palinhos nem precisa de me contar a sua história, apesar de não o conhecer nem nunca ter ouvido falar nele: é mais um dos casos saído do imenso caldeirão dos utopistas de esquerda. Como perderam a Russia e o Leste, agoram agarram-se ao “modelo social europeu” para fingirem que não sairam derrotados de nada; insultam a nossa inteligencia ao quererem fazer-nos querer que a Europa Capitalista (a França, a Alemanha, a Holanda) sempre foi o seu lado. É que não foi.. Falam na Suécia e assim, sem saberem o que é ou o que foi a Suécia ou do que se fala hoje na Suécia.

O Capitalismo venceu. A Europa e os EUA divergem pelo detalhe. O Jorge Palinhos tenta laborar num detalhe para inventar uma Dorsal Média Atlantica ideologica entre América e Europa. Coitado. Deixemo-los brincar. O essencial está ganho.

Por outro lado, aborrece-me sempre esta mania das pessoas de esquerda de se acharem mais espertos que os outros. Andam sempre a dar lições ao mundo, à sociedade. Reparem que ele diz que o impressiona “a capacidade de as pessoas acreditarem e venderem os mitos que lhes convem”. Ele, Jorge Palhinhos, não faz nada disso (nem nunca fez). Está acima disso. Lê o Rifkin, reparem. Em Inglês, notem. Faz o link, demonstrando o mais completo dominio do HTML (estertor nas bancadas). E depois trata de nos mostrar a saida da Caverna, onde estamos encadeados pelas sombras. Para a Luz. Ele. Uma pessoa que se chama Jorge Palinhos.

A verdade, pá, é que o ‘Sonho Americano’ é uma expressão para a esperança de ter dinheiro, muito dinheiro; muito, muito, montanhas dinheiro. E os sub-sareanos não vêm de jangada para a Espanha por causa de outra coisa, pá.

O resto são detalhes. Detalhes! Detalhes muito discutiveis, como todos os detalhes. E aviso-te já que as certezas que colocas nesses detalhes também estão cheios daquela “capacidades de as pessoas acreditarem e venderem os mitos [neste caso: contra-mitos] que lhes covem”. Não reparaste? O Rifkin não te disse? Ai, ai, ai, ai, ai.

NOTA: o Paíto só precisa de começar a correr menos.

Publicado por: maradona em setembro 1, 2004 12:19 PM

Obrigado por me dar a conhecer 1 sítio com tanta informação útil :-)
No entanto, existem erros grosseiros nas suas afirmações:
1- os EUA estão em 2º lugar mundial em produtividade apenas atrás do Luxemburgo (e a produtividade não tem a ver com o número de horas que se trabalha por semana, mas sim com a riqueza que se produz por unidade de tempo...);
2- o 14º lugar em "educação" que refere, é, no original, a "School life expectancy" = "Expected years of schooling for a 5-year-old under current conditions" e é apenas um indicador futurista, uma vez que é igual à de Portugal... um valor mais realista seria o número de anos de escolaridade "real" dos adultos: os EUA estão em nº1 (ano 2000);

Poderia continuar a lista, mas já chega. Se quer evidenciar a superioridade da UE face aos EUA, escolha outros assuntos... e, pelo menos, reproduza a informação de forma correcta!
Por último, o mesmo sítio refere que a pena de morte em Portugal foi abolida em 1976... pode confirmar-me esta data?
;-)

Publicado por: JotaVê em setembro 1, 2004 12:33 PM

Comentarios aos comentarios:

"é por isso que os EU são a maior potência económica e que tu para escreveres esses disparates tens de usar a tecnologia feita por eles!"

Sem duvida: esmagadoramente paga pelo ESTADO americano e desenvolvida em UNIVERSIDADES. Querem o modelo de redes desenvolvidas pelo capital (curiosamente mais europeu que americano), olhem para o X.25 e vejam o que ele valia (ah... nem sabem o que e o X.25... bom para voces). A Internet e americana, mas foi desenvolvida com fundos estatais.


"Dessa prosperidade europeia ainda não me calhou nenhuma e dessa falência dos EUA ainda não calhou nenhuma aos meus familiares nos EUA"

Tenta ir aqueles estados que nao veem nos filmes de Hollywood, tipo o Arkansas do Bill Clinton. Onde em muitas partes pao e uma boa prenda de Natal.

Publicado por: Jean-Luc em setembro 1, 2004 01:24 PM

Eu concordo inteiramente com o teor do post, mas nem é isso que me leva a comentar.
O que me leva a comentar é o facto de o maradona, por exemplo, ser um tipo que apoia toda a espécie de selvajeria empresarial e a ausência de qualquer espécie de direito laboral, mas depois produz posts e comenta a todas as horas do dia. Quando estava no "pastilhas", era daqueles que tipos que nunca saía de lá... Bolas, como é que um gajo que apoia o trabalho sem pausas, e o descanso como um detalhe pequeno e insignificante tem tempo e espaço para poder andar pela blogosfera o dia inteiro, sem fazer o seu trabalho??
Coisas estranhas, realmente....
Mas já sei que ele não vai responder porque como uma vez me disse, não tem paciência para discutir ao meu nível, talvez porque eu não veja filmes do Abbas Kiarostami ou tenha tempo para ler cinco a seis horas por dia, como ele afirmou outra vez que fazia. Entre seis horas de leitura e mais não sei quantas nos blogs, como é que este amigo consegue trabalhar e cumprir o modelo liberal???

Publicado por: Stephen King em setembro 1, 2004 02:07 PM

Fabuloso. Anda por aí gente que nenhuma diferença de importante descortina entre os EUA e o Luxemburgo ou a Noruega. Querer reparar em tais minudências só pode mesmo ser mais uma "mania da esquerda"... ou de gente que, por acaso, até tem amigos americanos e sabe do espanto deles ao darem com coisas como um sistema nacional de saúde gratuito ou essa extravagância que é o subsídio de férias.
Mas, claro está que falar disto é por certeza merecedor de um atestado de anti-americanismo primário. Ou, se alguém por aí acordar mal-disposto, de anti-semitismo.

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 02:50 PM

Pelos os vistos o maradona consegue deduzir que sou simpatizante do sistema soviético, anti-americano e atrasado mental só pelo meu nome.
Isto não associando o meu nome a nada, mas apenas pela sua fonética e aspecto morfológico.
Já sabia que era possível descobrir o Q.I. de uma pessoa só através da sua expressão facial e a tendência política pelo corte de cabelo.
Fico agora a saber que é mais fácil descobrir ambas as coisas só com o nome do sujeito. Especialmente se essa pessoa se chamar Jorge Palinhos.
Entro portanto em meditação para descobrir um herói da infância de quem possa passar a usar exclusivamente o nome (com minúscula) a fim de que o meu comunismo, o meu anti-americanismo e a minha burrice passem mais despercebidos.

Publicado por: Jorge Palinhos em setembro 1, 2004 03:01 PM

LR:
não percebo o seu comentário uma vez que nenhum dos outros comentários diz que EUA, Noruega e Luxemburgo são a mesma coisa. Gostaria, isso sim, que alguém me explicasse porque é que foi afirmado que o 2º país do mundo com maior produtividade (74,624.70)tem metade (?!) da produtividade francesa (59,438.90) e ninguém acha isso anormal! (pode ver os restantes pontos no meu comentário anterior)

Publicado por: JotaVê em setembro 1, 2004 03:05 PM

Não sendo de esquerda, até gostaria que o post e o livro fossem realistas. Identifico-me muito mais com o "trabalhar para viver" europeu do que com o "viver para trabalhar" americano, abomino o modelo social americano e até acredito que haja mais qualidade de vida na Europa. Embora as coisas possam vir a evoluir no sentido descrito, a situação presente faz-me pensar que o livro "vende um mito" e não tem nada de "lúcido". A conclusão não tem nada de "óbvia". Cada um vê os números como lhe é mais conveniente. Ao compararmos índices é importante decidir se pensamos na Europa como um todo ou se tomamos cada um dos seus membros individualmente. Os Estados Unidos também têm estados ricos e estados pobres...

Publicado por: Nuno Morais em setembro 1, 2004 03:17 PM

JotaVê,
Está aqui: "A Europa e os EUA divergem pelo detalhe."

E, já agora, eu também não disse que alguém teria escrito que esses países "são a mesma coisa". Escrevi sim: "Anda por aí gente que nenhuma diferença de importante descortina entre os EUA e o Luxemburgo ou a Noruega." Não é bem a mesma coisa, pois não?

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 03:19 PM

parece que estou a "falar" para as paredes...
OS NÚMEROS ESTÃO COMPLETAMENTE ERRADOS!
e o "post" faz afirmações e tira conclusões "óbvias" desses erros disparatados!
(já agora podia ser o autor do "post" a responder?...)~

Publicado por: JotaVê em setembro 1, 2004 03:24 PM

Está bem, JoTaVê, visto que são questões sérias e não baboseiras insultuosas ad hominem eu respondo:

1 - Onde é que viste isso de a produtividade ser contabilizada por unidade de tempo? Segundo o site o cálculo é pelo PIB dividido pela população empregada. Além disso, se quiseres mais indicadores, a página sobre o crescimento do PIB entre 1998 e 2002 coloca os EUA em 14.º lugar, atrás do Canadá, da Espanha, da Finlândia, da Islândia, da Irlanda, do Luxemburgo, etc.

2 - Aqui não estou a ver onde é que os números estão errados. Tu gostas mais de um indicador, eu gosto mais de outro. Tendo em conta que estamos a falar em futuro e não em passado (que é o que o teu indicador refere) o meu parece-me mais adequado.

É claro que os EUA são ainda a maior potência económica do mundo. Mas como apontam os indicadores e o livro que citei, não é lícito que isso se mantenha ou que as suas políticas neoliberais sejam assim tão eficientes quanto isso.

Publicado por: Jorge Palinhos em setembro 1, 2004 03:47 PM

Que eu saiba, a produtividade calcula-se por unidade de tempo. Em qualquer caso, se os Americanos são 2os nesse índice e 14os na produção individual anual, é porque trabalham menos horas... Começo a não confiar muito nos números...

Publicado por: Nuno Morais em setembro 1, 2004 04:12 PM

Jorge, umas poucas perguntas: Acha que há liberdade, verdadeira liberdade na Suécia? E no resto da Europa? Será na Europa possível 'fintar' a inevitabilidade de se ter nascido pobre e com poucos meios como o é possível nos EUA? Existirá na Europa a tal ondulação de meio social (em que contínuas gerações se vão alternando nas diversas camadas socias) como o existe nos EUA? Eu acho que não, precisamente pela razão que o Jorge referiu: Nos EUA vive-se para trabalhar e na Europa trabalha-se para se viver.

Nos EUA se se trabalhar serei compensado. O sonho americano é precisamente esse. Na Europa acontece precisamente o contrário: Por muito que trabalhe poucas serão as minhas compensações. Por esta razão é que a liberdade na Europa é menor. Não temos a liberdade de escolher melhorar a nossa vida pelo trabalho. Seremos sempre nivelados por baixo. Por esta razão entendo o que o maradona disse quando sugeriu que era ex- comunista ou socialista. Do seu 'post' depreende-se que o colectivo deverá tomar conta de nós dar-nos bem estar. Isso serve. O resto, será conversa fiada.

Publicado por: André em setembro 1, 2004 04:20 PM

J.Palinhos:
1- a produtividade de 1 pessoa pode medir-se de muitas maneiras, mas é independente do número de horas que ela trabalha. Se a pessoa A produzir 2 objectos num dia e a pessoa B produzir 1, a produtividade da pessoa A é o dobro da da pessoa B. Basta consultar qualquer enciclopédia para perceber que NÃO tem a ver com o número de horas.
O crescimento do PIB não indica coisa nenhuma acerca do estado real de 1 país: é claro que quanto mais pobre e mais atrasado for 1 país maior é a probabilidade de o seu PIB crescer muito percentualmente em cada ano! Aliás, o número 1 da tabela deveria ser a China que, por razões que desconheço, não aparece em lado nenhum... a China tem crescido nos últimos anos acima dos 10% ao ano: "OBVIAMENTE" que a China deve ser o melhor país do mundo para se viver...
2- não pondo em causa os número do "site" que têm origem em diversos sítios insuspeitos, lembro-te que muitos dos dados são fornecidos pelos próprios países.O indicador que eu referi aponta para o seguinte, relativamente ao número médio de anos de escolaridade dos adultos (anos de escolaridade que as pessoas têm de facto):
1. United States 12.0 (2000)
2. Norway 11.8 (2000)
3. New Zealand 11.7 (2000)
4. Canada 11.6 (2000)
5. Sweden 11.4 (2000)
6. Australia 10.9 (2000)
7. Switzerland 10.5 (2000)
8. Germany 10.2 (2000)
9. Finland 10.0 (2000)
...
29. France 7.9 (2000)
...
55. Portugal 5.9 (2000)

Como é que podes achar credível que uma criança portuguesa de 5 anos tenha hoje uma "esperança de anos escolares" de 17 anos?!

...
11. Netherlands 17.2 years
12. Germany 17.2 years
13. Portugal 17.0 years
14. United States 16.7 years
15. Canada 16.5 years
16. France 16.5 years
...

conclusão: este indicador *futurista* não indica nada a não ser aquilo que os países gostariam que fosse o futuro!
resumindo, fizeste afirmações e retiraste conclusões "obvias" baseado em disparates completos... e isso tudo para poderes dizer que a Europa é superior aos EUA?!

Se queres desancar os EUA posso dar-te 1 lista apropriada... assim, é só dizer mal por dizer... o Michael Moore, ao menos, tem piada em muito do que escreve...

Publicado por: JotaVê em setembro 1, 2004 04:26 PM

Gostaria de perguntar ao Jorge Palhinhos se quando dá o exemplo da Irlanda para demonstrar o superior progresso economico da Europa relativamente aos EUA não se lhe põe nenhuma contradição quando condena as politicas liberais ou neo-liberais americanas?

Gostaria, para além do mais, de recuar até ao fim dos anos oitenta; nessa altura, o Bush pai desmaiou num jantar com o primeiro ministro japonês, onde tinha ido implorar umas esmolas para industria automovel ameicana (era a época do honda accord). Livros e livros e capas e capas de revistas se fizeram nesses anos a anunciar a fim da américa. depois vieram os motins simultaneaos em dez cidades americanas e o exercito pela primeira vez nas ruas para manter a ordem. Era o fim, dizia-se.

E que aconteceu durante os anos noventa?

Peço um pouco de modéstia nas previsões; apenas isso.

O grave que vejo nestas conversas é os poucos sinais que suas excelencias demonstram de perceberam o grau de complexidade que estas questões comportam. Reparem: não em que percebam a complexidade, mas apenas que percebam que essa imensa complexidade existe.

Futurologia desse tipo, mesmo que certa no longo prazo, justificada desta maneira, nada vale. Vejam-se os milhares de livros que se fizeram no passado... aposto que assim se envergonhavam das futurolgias presentes.

Publicado por: maradona em setembro 1, 2004 04:28 PM

André:

A questão que pões é falaciosa. A liberdade não é um conceito absoluto mas relativo. Falas em liberdade como a a capacidade de subir de escalão social, mas posso pensar em muitos outros conceitos diferentes de liberdade.
Além disso que provas é que tens que nos EUA é mais fácil subir de nível social que na Europa. A ti pode parecer-te tão óbvio como o sol girar à volta da Terra e por isso mesmo gostava que me desses um indicador preciso.

Publicado por: Jorge em setembro 1, 2004 04:46 PM

André, é aí mesmo que está a questão. Não se trata de dizer que um modelo é melhor que o outro, trata-se de escolher o modelo que preferimos.

Nos EUA, se se trabalhar muito e bem, se se for inteligente e audaz, bem como se se tiver um pouco de sorte, um desgraçado que tenha nascido pobre pode tornar-se imensamente rico. É realmente esse o sonho americano. Isso, na Europa, não é assim tão fácil de conseguir. Há apenas o facto de o sonho americano estar a desaparecer. As crianças de famílias pobres têm cada vez menos condições para estudar, uma vez que têm de ir para as escolas públicas, que têm cada vez menos dinheiro para contratar os bons professores, além de as próprias famílias não lhes poderem dar as mesmas condições de estudos. Mais tarde, como não atingiram os mesmos níveis em termos de educação, não podem ir para as mesmas universidades que os que têm um pouco mais de dinheiro e, consequentemente, arriscam-se a não serem recrutados pelas grandes empresas que preferem ir às Yale's, Harvard's, etc. Isto tudo pode, evidentemente, ser ultrapassado com muito trabalho e bastantes sacrifícios, além de uma dose superior de inteligência, mas convenhamos que um pobre não deveria ser melhor que os outros só para poder ter as mesmas oportunidades.

O modelo europeu não recompensa da mesma forma. Isso só é relativamente verdade. Quando foi a fusão da Chrysler com a Daimler, os gestores americanos estavam preocupados com o salário base dos trabalhadores europeus, o qual era superior ao dos americanos, mas não contemplava os bónus de desempenho individual e da companhia. Seja como for, aceitemos que na Europa não se ganha tanto dinheiro, de uma forma geral é verdade.

Pessoalmente não me importo. Como eu disse, não vou entrar na questão de um modelo ser melhor que o outro. Apenas digo que prefiro o sistema europeu, onde posso cumprir o meu dia de trabalho, de cerca de 8 ou 9 horas, ir para casa e poder descansar ou estar com a família, dormir as minhas 7 ou 8 horas, acordar bem disposto e ter tempo para seguir novamente para o trablhao. Ao fim de semana não preciso de trabalhar, posso ir passear. Depois tenho os meus 22 dias (no mínimo) úteis de férias por ano, os quais são pagos e ainda tenho direito a um subsídio porque a minha empresa e o meu modelo social reconhece a importância do descanso. Quando chego ao Natal recebo mais um pequeno extra da empresa como prenda. Desta forma lá vou trabalhando uns 35 anos, reformo-me, tenho o meu dinheiro que acumulei através do estado ao longo da minha vida e posso gozar os meus últimos anos descansado.

Os americanos podem ser ricos? Podem, são-no mais facilmente que nós. Mas e os que não o são? Vivem uma vida miserável, trabalham desde os 15 anos aos fins de semana e nas férias para acumular dinheiro para a faculdade, trabalham durante o tempo que estão na faculdade, trabalham 60 horas semanais (muitas vezes incluindo fins de semana), 50 semanas por ano e têm de ser eles a acumular o dinheiro para quando se reformam, única altura, desde os 15 anos, em que têm momentos de lazer.

Sinceramente, prefiro o nosso sistema. Posso não ter grandes hipóteses de ser rico, mas também sei que, se as coisas me correrem mal, seja por minha culpa ou não, poderei mais facilmente ter uma segunda hipótese. E além disso prefiro o conforto desafogado à riqueza absoluta.

Publicado por: João André em setembro 1, 2004 04:50 PM

JotaVê

1- Se a produtividade é independente das horas de trabalho porque é que não baixamos o horário laboral para as 35 h? Ou 30 h? Ou 20 h? E devemos deduzir que os americanos são um bando de preguiçosos?
Já em relação ao crescimento do PIB deduzo que estás a querer dizer que a Espanha e o Canadá são países "pobres e atrasados", cuja economia nacional está ao nível da chinesa.

2 - Tenho impressão que os governos encomendam estudos para tomarem decisões informadas. Por isso, a não ser que a maioria dos governos tenha andado a encomendar estudos falsos para se auto-iludirem, não vejo porque é que esta lista não deve ser tida em consideração como um indício do futuro.

Visto que te sentes autorizado para classificar à partida estes indicadores internacionais e a opinião do presidente da Fundação de Tendências Económicas como "perfeitos disparates", bom, parece-me ser melhor para a minha integridade física concordar inteiramente contigo e ainda acrescentar que os teus comentários são ainda mais divertidos que o "Bowling for Columbine".


Publicado por: jorge em setembro 1, 2004 05:02 PM

maradona:

O meu ridículo nome não me permite continuar a conversa consigo.

Publicado por: jorge em setembro 1, 2004 05:04 PM

JotaVê,

Por muito jeito que isso te pudesse dar, lamento mas a "School life expectancy" é uma medida há muito usada pela Unesco. Nada tem de "futurista" e não depende do "que os países gostariam que fosse o futuro".
Se tiveres curiosidade, podes encontrar a fórmula usada para calcular este índice aqui.

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 05:06 PM

Jorge:
1- Não percebeste nada do que escrevi... há muitos anos inventaram uma figura de estilo chamada ironia! lê com atenção o post original e os meus comentários!
quem parece querer afirmar essas coisas é o autor do post!
2- se tivesses, de facto, lido o que escrevi, terias percebido que os disparates a que me refiro são as afirmações do autor original...

L.Rainha:
1- a mim não me "dá jeito" coisa nenhuma porque não pretendo distorcer os factos até eles se ajustarem à minha opinião.
2- se achas credível que 1 miúdo(a) português com 5 anos possa esperar hoje vir a ter os mesmos 17 anos (em média!) de escolaridade que 1 americano, é porque não sabes nada sobre as taxas de abandono escolar no nosso país e que no último ano metade dos alunos do 12º ano "chumbou".

Publicado por: JotaVê em setembro 1, 2004 05:19 PM

Se quiserem dados bem concretos e fáceis de ler, podem consultar estes (documento de Excel). Trata-se de umranking da OCDE versando a "Performance of 15-year-olds on the PISA reading literacy scale, by percentile".
Dá facilmente para ver que os EUA não estão na vanguarda da coisa... e que Portugal é a tristeza que seria de esperar.

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 05:24 PM

JotaVê,

Trata-se de um indicador com uma utilidade relativa para avaliar países desenvolvidos, com escolaridade obrigatória.
Mas é um índice reconhecido, não um repositório das boas vontades dos diferentes governos, como deste a entender.
E isso dos chumbos é algo irrelevante, pois - como poderias ter lido no link- o índice revela anos de matrícula, com ou sem aproveitamento.

Quanto ao resto, eles podem causar-te confusão, mas números são números; a não ser que partamos do princípio que os nossos governos têm andado a dar informações falsas à Unesco...

Publicado por: Luis Rainha em setembro 1, 2004 05:32 PM

Concordo que é melhor "trabalhar para viver" do que "viver para trabalhar". E a razão é simples, como é dito indirectamente no parágrafo retirado do livro de Rifkin, numa sociedade em que essencialmente se trabalha para viver as pessoas são em média mais felizes do que aquelas que vivem numa sociedade em que se vive para trabalhar. E por mim o argumento acaba aqui. Não é necessário andar a comparar estatísticas económicas. Afinal o objectivo de qualquer ser humano é ser feliz, ou seja sentir-se bem consigo próprio, ou ganhar dinheiro? Vão-me dizer que os indígenas na Nova Guiné estão permanentemente deprimidos porque não ganham "dinheiro"???...

Esse é um dos maiores problemas de base dos princípios do neoliberalismo: assume que mais dinheiro (e em termos genéricos mais poder) quer dizer mais felicidade. É o maior embuste actual. Por isso, desde que as pessoas sejam felizes, e isso geralmente implica terem saúde, alimentação e abrigo adequados, relações sociais enriquecedoras e trabalho e actividades que as realizem e possibilitem a expressão do seu potencial, tanto me faz que o PIB seja maior ou menor. E até agora nunca foi demonstrada qualquer relação entre o PIB e o grau de felicidade e satisfação das pessoas. Acham que as pessoas nos EUA ou na Europa estão mais felizes do que há 20 anos, por exemplo, tendo entretanto o PIB provavelmente duplicado? Pensem pelas vossas cabeças, saibam analisar o sistema em vez de serem manipulados por ele...

E já agora deixo dois sites que vale a pena consultar:

Growth Fetish

Redefining Progress

Publicado por: viana em setembro 1, 2004 06:04 PM

Nunca um post teve um começo tão adequado.

"É uma das características sociais que mais me impressionam, a capacidade de as pessoas acreditarem e venderem mitos porque lhes convém."

Publicado por: jcd em setembro 1, 2004 08:27 PM

Parabéns, jcd, foste o primeiro a reparar.

Publicado por: Jorge em setembro 1, 2004 10:35 PM

«(...)trata-se de escolher o modelo que preferimos.» Jorge.
Concordo inteiramente, e creio que esta capacidade é decisiva, contra os argumentos que nos impõem, cientificamente, uma falsa inevitabilidade da falência do modelo social europeu.
Também não vejo que haja um grande atraso tecnológico na Europa, desloco-me num carro francês, uso 2 telefones, um alemão e outro finlandês, tenho uma televisão e um video holandeses, e a maioria das vezes que viajo de avião, a tecnologia é europeia. São igualmente os satélites europeus que me indicam a metereologia. E quando preciso de medicamentos, mesmo sendo estes norte-americanos, compro-os a um preço significativamente mais baixo, porque confiei ao meu Estado a capacidade de os negociar e comprar.
De resto, parece-me evidente que se por menos horas de trabalho se recebe mais, o esforço é mais valorizado. Ou seja, na Europa dá-se mais valor ao trabalho, com o que se enriquecem as sociedades, e logo os individuos.
Por fim, só creio numa globalização em que os indivíduos possam circular livremente, aceitando as regras, incluindo as leis laborais, vigentes nos países onde escolhem viver e trabalhar.

Varrido

Publicado por: Varrido em setembro 2, 2004 12:47 PM

Curioso que o maradona critique as nossas “ideias feitas”. Não há comentador com ideias mais feitas que o maradona. Certa vez atribuiu-me palavras que não eram minhas, ideias que não eram minhas, e ainda garantiu que eu era um tipo baixo (!), que nunca poderia ter mais de 1,75m (!!!). É um tipo que tem opiniões completíssimas formadas sobre as pessoas, mesmo sem as conhecer de lado nenhum.

Publicado por: Filipe Moura em setembro 3, 2004 01:00 AM