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agosto 09, 2004

E ELE NÃO É UM KUBITSCHEK (FELIZMENTE...)

Portugal, como todos sabemos, é um país demograficamente pujante, carregado de hordas de jovens empreendedores sempre em busca de espaço vital, sempre à cata de novos horizontes onde a sua energia se possa espraiar. Por outro lado, sendo uma nação de dimensões quase continentais, há muito que sente a necessidade de um novo centro de decisão, equidistante dos pólos de influência actuais; só assim a nossa geografia política poderá adquirir um novo e decisivo "centro de gravidade". Se juntarmos a isto o período particularmente brilhante que a economia nacional atravessa, julgo que a proposta do Arquitecto José António Saraiva ganha mesmo asas para voar.
No último número do "Expresso", o seu eminente director lançou o ousado desafio, fracturante e revolucionário: Portugal está mesmo a precisar de uma nova capital. Vai daí, mude-se a coisa para Castelo Branco ou, melhor ainda, construa-se uma cidade de raiz, uma urbe novinha em folha, mesmo à medida do papel de capital do Reino para o século XXI.
Antes de começarem a rir, pensem um pouco. Imaginam os tormentos que o pobre do Arquitecto tem sofrido ao ver ideias como a Expo, a ponte Vasco da Gama, o Centro Cultural de Belém, etc.... tudo passado a betão sem que ele pudesse reclamar a paternidade de um só desses grandiosos projectos? Então um homem deste calibre, um profeta de tal visão, tem de se contentar com a rasteira glória de ser a personalidade nacional que mais decisões importantes influenciou nas últimas décadas (a fazer fé, pelo menos, no que o próprio escreve...)? Imaginem, ó cruel ignomínia, que até o Santana o conseguiu ultrapassar, anunciando a "deslocalização" de diversas secretarias de Estado antes que as suadas meninges do Arquitecto disso se lembrassem!
Não. Isto não podia ficar assim. JAS não merece ficar acorrentado à condição de Maquiavel periférico; o seu talento, a sua estatura, exigem mais, muito mais. Ele quer passar à História como um segundo Marquês de Pombal, um novo Barão Haussmann; ou, porque não, o nosso Presidente Kubitschek, o único capaz de inventar uma reluzente capital para este Portugal tão carenciado!
Agora, resta-nos a nós, pobres mortais encolhidos ante o rasgo de génio do visionário, complementar a proposta com pequenos pormenores: por exemplo, que nome terá esta orgulhosa cidade de aviário? JASília? Saraivopólis?

Publicado por Luis Rainha às agosto 9, 2004 05:31 PM

Comentários

Luís, onde anda esse artigo, fui à página do expresso e não o encontrei. Eles costumam ter artigos dele disponíveis (grátis) mas não os encontro desta vez.

Publicado por: João André em agosto 9, 2004 06:50 PM

Julgo que ainda não está online. É o editorial principal do último número.

Publicado por: Luis Rainha em agosto 9, 2004 07:02 PM

Post muito bom!

Uma vez na vida estou de acordo com o pessoal aqui do Blog de esquerda.

Publicado por: Rui Silva em agosto 9, 2004 08:07 PM

Por estas e por outras deixei de ler o Expresso ha varios anos, desde que o abominavel saraiva escreveu um artigo a dizer que o salazar nao tinha sido assim tao mau, que tinha equilibrado o orcamento...

Publicado por: Filipe Castro em agosto 9, 2004 08:42 PM

Saraivopólis, Saraivoburgo, Saraivolândia...
Quem não leu o artigo não sabe o que perdeu: uma saraivada de disparates!

Publicado por: zás!pás! em agosto 9, 2004 10:49 PM

Eu não comento. Acho que assim sou mais eloquente ;)

Publicado por: Paulo em agosto 10, 2004 12:50 AM

Vocês, os que acham a ideia um disparate, digam se têm alguma outra capaz de pôr fim ao caos em que Lisboa se vai irremediavelmente tornando.

Publicado por: antónio em agosto 10, 2004 01:08 AM

Caro António: que tal começar por pôr a cabeça no congelador um bocadito, hein? Tem ideia dos custos (de todos os tipos) envolvidos na brincadeira? Quantas expo98 e euro2004 dá isso em miúdos? Quanto tempo é necessário? E com que objectivos? Descentralizar o "governo"? O "governo" que está crescentemente descentralizado para Bruxelas? (Arriscávamos a ter, quando estivesse pronta, uma segunda Sines, calculada para uma função entretanto desaparecida.)

Ideias para tornar Lisboa mais habitável e funcional não faltam. Leia a obra de arquitectos-pensadores como Ribeiro Teles. Ouça os planificadores de tráfego e urbanistas que existem no aparelho do Estado mas ouça-os em privado, sem os condicionalismos partidários e hierárquicos. Comece pelas leis. O arrendamento. Sem preconceitos nem submissões. Evite votar em políticos comprometidos exclusivamente com o betão e com o umbigo. A lista não tem fim. E o caos está sobretudo na sua cabeça.

Conheço JAS há mais de 20 anos, mais de metade deles como meu director. Nutro por ele um respeito desajustado nos tempos que correm... E sim, conheço-lhe arroubos puramente intelectuais como este flagrante exemplo. Sei que ele não desistirá da ideia (ele não é homem de desistir das suas convicções, o que tem sido mais uma virtude que um defeito falando em termos de Expresso). Mas é uma ideia peregrina. Sem pés nem cabeça.

Publicado por: Paulo em agosto 10, 2004 04:41 AM

Finalmente o arquitecto virou arquitecto e teve uma ideia brilhante. O homem endoidou.
Mas mais grave é que alguém no governo, ou autarcas, sem mais que fazer pegue na genial ideia.

Publicado por: António Simão em agosto 11, 2004 03:07 PM