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julho 29, 2004

A CASA DA NOSTALGIA (4)

Há pouco mais de um ano, encerrei-me no meu eremitério serrano, com planos de começar a entretecer os primeiros fios de uma espécie de romance. Quando dei por mim, a casa que me acolhera tinha conseguido infiltrar-se no que eu escrevera, convertendo-se numa das principais personagens dos meus modestos enredos. Vou aqui deixar, à laia de vestígios das perturbações nostálgicas que me afligem, dois fragmentos reveladores...

"Ela permaneceu sentada no pequeno muro junto ao poço. Este já conhecera melhores dias: coberto de musgo, só de perto era reconhecível. Sobre alguns restos de traves de madeira, a sua nora enferrujada equilibrada a custo, engrenagens de um velho relógio deitado fora para apodrecer. Em breve cairia sobre as águas esverdeadas para não mais ser vista.
Todo o jardim exalava decadência. As mesas em pedra à espera de picnics elegantes que jamais voltariam, algumas paredes em tijolo sem propósito aparente regressando devagar ao barro informe. Ela lembrou-se de que as ruínas tinham sido um tema arquitectónico muito em voga na construção de jardins, havia alguns séculos. Só que ali as ruínas eram autênticas, empapadas em memórias alheias e nostalgia.
Apesar de tudo, sentia-se bem, de novo em território amigo: o Sol iluminava a paisagem com uma clareza definitiva e os únicos movimentos a perturbar aquela calma vinham de alguns sacos de plástico à sua frente, pendurados para assustar os pássaros, em protecção das sementes do terreno lavrado. O murmurejo da água do tanque quase em harmonia com o som do plástico e das folhas da palmeira ao vento. O céu em azul-cobalto brilhava livre de máculas; sem nuvens ou chemtrails a perturbar a sua energia serena. O mundo podia estar a preparar-se para mais uma guerra, mas nem um eco das explosões se iria fazer ouvir ali.
Ela invejou a vasta tília que lhe dava abrigo e perfumava o ar: impassível e perene, tinha visto nascer e morrer gerações de ocupantes do solar sem outro estremecimento para lá de uma ou outra tempestade ocasional, limitando-se a crescer, crescer, alimentada por raízes que por certo se estendiam até à casa. Na sombra daquela árvore imensa tinham repousado soldados de Napoleão, cansados de marchas infindas, ganhando forças para a alegria da pilhagem. E senhoras espartilhadas lendo revistas com os figurinos da última moda de Paris, a poucos metros de camponeses que ainda lutavam para sair da Idade Média."

Publicado por Luis Rainha às julho 29, 2004 12:17 PM

Comentários

Então estás a preparar-te para copiar um livro?
Quando não copias artigos de outros, escreves cada porcaria, ó Luis!

Publicado por: Alpedrinha em julho 29, 2004 04:16 PM

É muito interessante quando se encontra aqui comentários, opiniões, discussões, mas para que tal aconteça é preciso pensar e isso é coisa que este bando de anormais (riapa ou lá o que é) não sabe o que significa.

Publicado por: ic em julho 30, 2004 12:37 AM