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julho 28, 2004

A CASA DA NOSTALGIA (3)

Há uma casa, algures nas cercanias de Trancoso, que dá guarida ocasional à minha família desde o Século XVI. Um edifício antigo demais e bruto demais para passar por solar elegante. Cheio de retratos de antepassados que desconheço, papel de parede pintado à mão e comido pela humidade, salões que já devem ter servido para animados bailes e que agora estão literalmente entregues à bicharada. Em suma, uma carga de despesas que um dia irá recair sobre os meus ombros pouco capazes.
Em miúdo, abominava esta casa. Os seus corredores tortos e infindáveis, o cheiro a coisas mortas que cada armário aberto libertava, o ar espesso de recordações alheias, de memórias que nada me diziam. À noite, pressentia sustos em cada cada ruído da madeira velha. E o Verão - dias e dias sufocantes a centenas de quilómetros do oceano mais próximo . era sempre ocasião de suplícios mil.
Agora, fujo para cá a cada oportunidade. O que antes me era estranho colou-se-me como uma segunda pele, envolve-me agora como um acolhedor casulo de pedra, ferrugem e madeira carcomida. Cada vez mais sinto esta ruína adiada como a minha verdadeira casa.
Será apenas mais uma manifestação da nostalgia galopante que me tem cometido nos últimos meses? Ou será antes a causa dessas anomalias? Será que uma casa, com o poder de séculos de recordações acumuladas, pode ser um foco infeccioso capaz de transformar assim quem passe tempo demais dentro dela?

Publicado por Luis Rainha às julho 28, 2004 11:56 AM

Comentários

Cervilhares?

Publicado por: Rogério da Costa Pereira em julho 28, 2004 12:24 PM

Great expectations, Luís.
Se eu fosse a ti vendia a casa rapidamente e comprava um Porsche. Trust me.

Publicado por: dave em julho 28, 2004 01:59 PM

Por experiência semelhante, a alguns - poucos - quilómetros de distância das suas muralhas, lhe digo, meu caro: é a PDI!

Publicado por: Francisca em julho 28, 2004 02:08 PM

É o apelo da terra Luís... Abraço

Publicado por: francisco curate em julho 28, 2004 02:50 PM

Isto é que é nível de vida. A esquerda caviar.....

Publicado por: jose antónio em julho 28, 2004 03:37 PM

Depois de tantas críticas repetitivas que aqui temos tido enfim uma crítica original, esta do jose antónio.

Publicado por: Filipe Moura em julho 28, 2004 03:50 PM

Original? A história da "esquerda caviar" está mais gasta do que a credibilidade política de Santana Lopes.

Publicado por: José Mário Silva em julho 28, 2004 04:03 PM

Acho que não tem a ver com a casa em si. As pessoas vão criando raízes e inventando afinidades com alguns lugares. Sobretudo se esses lugares estiverem de alguma maneira ligados à infância. Não sei se já teve a experiência de regressar a um lugar onde tinha estado apenas muito novo. Eu já tive uma experiência dessas, quando voltei recentemente à casa de uns primos onde antes costumava passar o dia de Natal, quando tinha 4, 5, 6 anos. O meu primeiro choque teve que ver com a dimensão das coisas, agora extremamente pequenas, encolhidas. Depois seguiram-se os cheiros, que despertam não sei que recordações e sensações mais enterradas. É uma experiência extremamente curiosa e que nos faz pensar que é rídicula (desesperada) qualquer tentativa que se faça de possuir estes lugares. São eles que nos possuem e para sempre.

Publicado por: zeroAesquerda em julho 28, 2004 04:09 PM

a esquerda nostálgica a rever-se no espelho do fascismo familiar saudosista.

Publicado por: fernando esteves pinto em julho 28, 2004 04:28 PM

No meu comentário, o "original" era entre aspas.

Publicado por: Filipe Moura em julho 28, 2004 04:30 PM

F.Esteves Pinto: "Se não és frio, nem quente, mas morno: vomito-te" (Evangelho Segundo S. João)

Publicado por: ZeroAesquerda em julho 28, 2004 04:35 PM

temos sermão.

Publicado por: fernando esteves pinto em julho 28, 2004 04:58 PM

Fica com o que é teu.
Alguém durante estes séculos foi protestar?
Ou já estás morto?

Publicado por: João Eduardo em julho 28, 2004 05:28 PM

Um discurso de um bloquista (que não sou) ao comentar esta história, caso esta, fosse contada por uma pessoa de direita:

"è preciso um discurso de verdade, contra esses barões e senhores apossados de casas senhorais, ligadas aos interesses de outrora, fonte exploradora das classes desfavorecidas. é este nostalgismo que não temos saudades, mas que nos arrepia devido á nafetalina fascizante que abunda no país.
consegue-se deslindar os interesses ligados ao governo, pois o ministro ... trabalhou para uma imobiliária especialista em casas de brasão. é claro que foi para o governo para fazer negociatas e arrebatar prestigio nos meios hibridos de grandes proprietarios do norte, bem como empresarios gananciosos e exploradores.
O objectivo do bloco é denunciar, é dizer a verdade ao país. o pais precisa de saber a carga negativa que este gov. liberalista carrega..."
...

Publicado por: Santos Carreira em julho 28, 2004 05:46 PM

Não, não temos sermão. Temos a atitude. A maneira como vocês politizam aquilo que não é político mas humano, causa-me náuseas.

Publicado por: ZeroAesquerda em julho 28, 2004 07:01 PM

Impressionante o José Mário Siva! O tiro saiu-lhe pela culatra e ele, numa atitude cobarde, típica da esquerda caviar (os chamados queques de esquerda, todos ateus graças a Deus), culpa o Pedro Santana Lopes. É de bradar aos Céus!

Publicado por: Tulipa em julho 28, 2004 07:10 PM

Isto não passa de um retrato nostálgico, não se pode politizar tudo e mais alguma coisa, eu não sou de esquerda, mas mesmo que fosse, qual era o problema de ter dinheiro, casas ou outras posses, é uma questão de ideais, de filosofia, nada mais. Claro que os bloquistas levam as coisas ao extremo, na forma, na apresentação, na argumentação (que começa a ser pouco original), mas é a forma de estar do BE é a sua forma de actuar no palco da vida política.

Ó Luís Rainha, goza bem a casa, pois, por muito que falem, qualquer um de nós se estivesse no teu lugar era exactamente isso que faria, independentemente da cor política.

Ó Luís Rainha, goza bem a casa, pois, por muito que falem, qualquer um de nós se estivese no teu lugar era exatamente isso que faria, independentemente da côr política.

Publicado por: escarpado em julho 28, 2004 07:46 PM

Isto não passa de um retrato nostálgico, não se pode politizar tudo e mais alguma coisa, eu não sou de esquerda, mas mesmo que fosse, qual era o problema de ter dinheiro, casas ou outras posses, é uma questão de ideais, de filosofia, nada mais. Claro que os bloquistas levam as coisas ao extremo, na forma, na apresentação, na argumentação (que começa a ser pouco original), mas é a forma de estar do BE é a sua forma de actuar no palco da vida política.

Ó Luís Rainha, goza bem a casa, pois, por muito que falem, qualquer um de nós se estivesse no teu lugar era exactamente isso que faria, independentemente da cor política.

Ó Luís Rainha, goza bem a casa, pois, por muito que falem, qualquer um de nós se estivese no teu lugar era exatamente isso que faria, independentemente da côr política.

Publicado por: escarpado em julho 28, 2004 07:46 PM

Eu culpei o Santana Lopes de quê, ó Tulipa, podes explicar?
Apenas sugeri que não tem credibilidade política. E isso nem sequer é uma acusação. É uma evidência.

Publicado por: José Mário Silva em julho 28, 2004 07:47 PM

Relevem a ingenuidade, não tenho o hábito de ler assiduamente blogs e só recentemente comecei a abrir as caixas de comentários. Para além do mais, estou-me nas tintas para as orientações político-partidárias dos bloguistas: só me interessa que escrevam de forma escorreita, sobre temas pertinentes e . preferentemente - com algum sentido de humor, que o riso é a cereja no topo do bolo da vida, pelo menos para quem não sofre de diabetes.

Dito isto, o post aqui comentado não se refere à forma como o tempo nos faz alterar as percepções de infância? Ao facto de a casa das berças, que era a maior estucha das férias de Verão de qualquer adolescente, virar idílio de adulto estourado? Ao bucolismo que a PDI nos vai deixando nos ossinhos quando os trintas aparecem ao canto da vida?

Então, peregrinas alminhas, ou ilustres comentadores residentes, ou sei lá quem Vossas Excelências são, por que meter blocos por santanas, direitas por avessas e atirar-se ao autor que nem gato a Whiskas, como se o dito vos estivesse a encafuar um Manifesto pela goela abaixo?

Contem lá, um tipo de esquerda diz-vos bom dia e a primeira resposta que vos salta ao bestunto é "este vermelhusco devia estar mas é a pensar no trágico amanhecer sudanês"? Ou . que a estreiteza não deve ser exclusivo apenas duma direcção - um liberal diz-vos boa noite e a reacção imediata é "pois, pois, andas na borga com o Lopes da brilhantina"?

Olhem... boa viagem!

Publicado por: Francisca em julho 28, 2004 09:12 PM

Apoiado. Até que enfim que vejo alguém a participar nisto com os dois lados do cérebro a funcionar (e não só o direito ou o esquerdo). Não se admire se, de vez em quando, der uma voltinha pelo seu blog.

Publicado por: ZeroAesquerda em julho 28, 2004 10:13 PM

Olááááá agente smith então agora fazes censura ?estás a tirar os meus comentários ? não gostas ? !!!

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Atenção - Quem agora escreve é o administrador do blogue, José Mário Silva.

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Caro Afonso Henriques: vamos lá parar com as brincadeiras parvas, OK? Não há aqui agente Smith nenhum, nem isto é a Matrix (embora às vezes pareça). Censura? Deve estar a brincar comigo. O seu comentário, de resto bastante longo, já estava num post anterior. Apagamos, por princípio, tudo o que é copy-paste gratuito. Seja da RIAPA, seja de quem for. Os seus comentários "normais" não serão apagados; as repetições provocatórias, sim. Fui suficientemente claro?

Publicado por: Afonso Henriques em julho 29, 2004 03:13 PM

Li com alguma atenção os comentários aqui colocados, coloco duas questões apenas:
1) Para se ter ideais de esquerda, terá que se ser forçosamente pobre?
2) Todos os apologistas dos ideais de direita são ricos?

Publicado por: canzoada em agosto 1, 2004 10:46 PM

Dr. Jivago...Dr. Jivago...

Publicado por: antonietapaulo em agosto 2, 2004 10:11 AM