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julho 27, 2004

A CASA DA NOSTALGIA (1)

Nostalgia s. f., melancolia, abatimento profundo de tristeza, causado pelas saudades do lar ou da pátria.

Se algum estado de espírito existe que seja decididamente político, será por certo a nostalgia. "Nóstos", ao que parece sinónimo de "regresso", foi palavra usada por Homero. Nesses dias, "Algía", plural de "álgos", significava "desgosto". Há quem assegure que a expressão "nostalgia" foi primeiro usada, ainda entre os gregos, como diagnóstico médico para a intensa e quase debilitante saudade de casa sentida pelos mercenários suíços...
Assim se vê que o conceito de Nostalgia teve, logo desde a sua origem, uma forte ligação à ideia de nacionalidade. Mas aquele não tardou muito até se autonomizar das ideias de "lar ou da pátria"; da antiguidade clássica aos impérios novecentistas, tudo serviu para modelar um ou outro passado idealizado ao qual se lançaram as âncoras de afectos imaginários. Já que estamos no BdE, tenho de dizer que até Marx nos deixou o seu veredicto sobre este problema, a propósito de Louis Bonaparte. Não resisto a deixar aqui três pequenas citações: "A tradição de todas as gerações mortas pesa tremendamente nos cérebros dos vivos"; "a revolução social do século XIX não pode retirar a sua poesia do passado mas apenas do futuro"; "Hegel escreveu algures que todos os grandes factos da história mundial aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu-se de acrescentar: da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa." (Uma excelente caracterização do que acontece quando a nostalgia consegue agarrar as rédeas de um país...)
Apesar desta história distinta, a cultura popular reduz muitas vezes a nostalgia à condição de sentimento apolítico; sinónimo de "saudade" e nada mais. Isto não impede que ela continue a ter um lugar central no imaginário de várias causas políticas, sendo motor de rupturas e justificação de apego a legitimidades díspares, algumas já tão difusas que pouco mais são que folclore utilitário. Das "cruzadas" dos supremacistas brancos, apostados em reconstruir um mítico passado de pureza étnica, aos sonhos de um mundo islâmico imperfeitamente decalcado de antigos impérios, passando pelas saudades que hoje o comunismo já desperta em muitos jovens da Europa de Leste; sem esquecer os sonhos imperiais de Tony Blair . com as suas subtis evocações do mundo vitoriano - e dos sionistas de Jerusalém, sempre a tentar propiciar a chegada do dia do reencontro com Javé.
Na minha santa ingenuidade, cresci convencido que a nostalgia era um sentimento de direita; uma mania exclusiva dos conservadores. A coisa até fazia sentido: se a esquerda desejava transformar o mundo, deixava a quem apenas o queria gerir, em suaves incrementos qualitativos, as saudades de passados mais ou menos idealizados, de tempos em que cidadãos puros e cumpridores seguiam regras fáceis de entender.
Hoje, já pouco disto me parece assim tão claro. Autores como Warren Magnusson dizem-nos que a política da nostalgia é um anseio pelo estado soberano enquanto veículo da social-democracia, do comunismo revolucionário e do nacionalismo; que já lá vão os dias em que o conservadorismo subjacente à nostalgia era propriedade exclusiva da direita. Mas nem é preciso ler coisa alguma para chegar às mesmas conclusões: entre os ímpetos revolucionários dos neocons americanos e os impasses ideológicos em que quase toda a esquerda europeia caiu hoje, incapaz de esquecer os dias em que o capitalismo não se tinha imposto como paradigma quase inquestionável, onde terá o primado da Nostalgia direitos soberanos? Pois.
Estas elucubrações mais ou menos políticas vieram-me à cabeça por motivos pessoais. Pode ser que nas próximas horas arranje tempo para me tentar lembrar porquê...

Publicado por Luis Rainha às julho 27, 2004 08:12 PM

Comentários

A esquerda para além de nostálgica anda a dormir. Só há uma saída, a unidade.

Publicado por: José Manuel Faria em julho 27, 2004 08:26 PM

Desculpe... Podia resumir numa frase, por favor ?

Publicado por: dave em julho 28, 2004 09:26 AM

Olha o Tubarão a falar, com ar sério e arreliado, do Regime Democrático (com maiúsculas e tudo). Finalmente, depois de tanto tiro ao lado, lá conseguiu fazer-me rir. Porque era uma piada, não era?

Publicado por: José Mário Silva em julho 28, 2004 02:49 PM

Ai verão quente de 75 que não voltas mais...

Lá ía eu para a manif. das 10 h, das 15 h ,das 17 h ,depois ver o copcon a ocupar o 3º dr. que há 50 anos estavas ocupado pelas ratazanas.

Mais um comunicado pelo Duran Clemente...

Mais um dia que não volta mais, porque em novembro acabaram-nos com a festa , houve ali alguém que se enganou...

Publicado por: antonietapaulo em agosto 2, 2004 10:21 AM