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julho 23, 2004

O TIMONEIRO

«"Não sou eu o timoneiro?", gritei eu. "Tu?", perguntou um homem de perfil sombrio e grande estatura, passando a mão pelos olhos como se afugentasse um sonho. Eu estava de serviço à roda do leme naquela noite escura, a lanterna de luz frouxa por cima da minha cabeça, quando apareceu aquele homem a querer empurrar-me. E como eu não cedi, ele pôs-me o pé sobre o peito e obrigou-me lentamente a ir ao chão, enquanto eu ainda continuava agarrado ao meão do leme, levando-o a dar uma volta completa ao cair. Mas o homem segurou-o, recolocando-o na posição certa, enquanto me empurrava a mim. Eu, porém, recompus-me depressa, corri até à escotilha que dava para a sala da tripulação e gritei: "Tripulação! Camaradas! Venham depressa! Um estranho obrigou-me a deixar o leme!" Eles foram vindo, devagar, subindo pela escada, figuras vacilantes, cansadas, pesadas. "Eu não sou o timoneiro?", perguntei. Eles acenaram que sim, mas só tinham olhos para o forasteiro, dispuseram-se em semicírculo à sua volta, e quando ele ordenou com voz imperativa: "Não me perturbem!", entreolharam-se, acenaram-me com a cabeça e voltaram a descer a escada. Que gente esta! Será que têm cabeça e pensam, ou passam só de raspão, e sem saber como, por esta terra?»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às julho 23, 2004 08:19 PM

Comentários

Afinal as parábolas do Kafka não são tão difíceis de interpretar como isso. Esta é clarinha como a água. O timoneiro medricas que se deixa apear do leme é o Durão Barroso. O forasteiro que se apropria da liderança do navio sem legitimidade, mas também sem oposição da tripulação (Sampaio), é o Santana Lopes. Fácil.
;)

Publicado por: brutus em julho 24, 2004 09:17 AM