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julho 23, 2004

O EXAME

«"Então, em que ficamos?", disse o cavalheiro, olhando-me com um sorriso e ajeitando a gravata. Consegui aguentar o olhar, mas depois voltei-me, de livre vontade, um pouco para o lado e olhei para o tampo da mesa com olhos cada vez mais fixos, como se aí se abrisse e afundasse uma caverna que me atraía o olhar. E fui dizendo: "O senhor que examinar-me, mas ainda não me apresentou provas que lhe confiram esse direito". Desta feita, ele riu alto. "O meu direito é a minha existência, o meu direito é o eu estar aqui sentado, o meu direito é a minha pergunta, o meu direito é o que me advém de o senhor me entender". "Está bem", respondi eu, "partamos então do princípio de que é assim". "Então vou examiná-lo", disse ele; "faça o favor de puxar a poltrona um pouco mais para trás, que me sinto apertado. E peço-lhe também que não olhe para o lado, mas bem nos meus olhos. Talvez seja mais importante para mim vê-lo do que ouvir as suas respostas". Correspondi ao seu pedido, e depois ele começou: "Quem sou eu?". "O meu examinador", respondi. "Claro", disse ele. "E que mais?". "O meu tio", disse eu. "Seu tio!", exclamou ele. "Mas que resposta mais absurda!". "Meu tio", respondi com ênfase. "Nem mais!"»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às julho 23, 2004 05:52 PM

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