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julho 22, 2004

PISTE

«Quando era pequeno, ao atravessar a ponte do povoado, o pastor encontrara sobre o seu parapeito uma cobra de pescoço erguido fitando nos olhos um passarinho imóvel, enfeitiçando-o de terror ou de confusão perante a morte. De um gesto salvara o passarinho, atirando uma pedra certeira que bateu na cantaria da ponte entre os dois animais despertando as asas da ave que logo, cantando, se elevara nos céus, enquanto a cobra desaparecia através das fendas e dos silvedos da velha construção.
Mas agora ela ele quem ali estava, olhando o lobo que o olhava. Confuso, sentiu o medo que o tomava desvanecer-se a ponto de poder observar o animal nos seus pormenores. Era um ancião, um lobo muito velho que ali estava solitário. Tinha as orelhas descaídas e o pêlo, sem brilho, muito ralo e emaranhado. Estava magro e, enquanto o fitava, abria a boca deixando descari pesadamente a língua como se estivesse esfaimado de carne e sequioso de água. E estava-o com certeza, pensou o pastor, senão não se teria aventurado até ali nem se aproximaria desta forma de um humano. Talvez não tivesse mesmo forças para caçar. E o Piste, que forças tinha então para o enfrentar se ainda há instantes cambaleava confuso junto à nascente? De súbito, num gesto absurdo para o seu pensar, começou a desancar a pita com o cajado, a enxotá-la a pontapé na direcção do lobo.»

Este é um excerto da novela «Piste», de J. P. Galhano Alves (edição recente da Quasi), uma agradável surpresa literária de que falo com mais detalhe aqui.

Publicado por José Mário Silva às julho 22, 2004 09:01 PM

Comentários

Ò Zé Mário: se pudesses arranjar uns exemplares à borla para os leitores do blog, isso sim, é que seria muito bom!

Publicado por: Acácio Montanelas em julho 22, 2004 10:01 PM