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julho 22, 2004

UM QUASE-ÓBITO

Há quase 30 anos, um adolescente desengonçado colocava no gira-discos dos pais a terceira rodela de vinil em que investira a sua magra mesada. Em dias de Abba, Disco Sound, ecos tardios dos Beatles e pouco mais, nada poderia ter servido de amortecedor para o que se fez então ouvir:

Here, at the glass -
All the usual problems,
All the habitual farce
You ask, in uncertain voice,
What you should do,
As if there were a choice,
But to carry on
Miming the song
And hope that it all
Works out right

Sei que há quem evoque professores, acontecimentos históricos ou cataclismos familiares como circunstâncias fundadoras das suas identidades. Eu, pobre e modesto, limito-me a recordar esta canção como o primeiro cruzamento decisivo que a minha vida atravessou. Não sei se seria hoje uma pessoa "melhor" ou "pior" sem esse encontro fortuito. Sei que seria alguém muito diferente. Sei que eu não seria eu. (Anos depois, deparei-me com uma outra encruzilhada crucial. Mas teria passado por ela sem sequer pestanejar se não contasse já com aquela herança primeira no alforge.)
A forma como vejo o mundo. Isto é, nem mais nem menos, o que devo a quem escreveu aquela canção (e muitas outras que vim depois a descobrir). Cada sílaba dos meus gostos, cada centímetro do meu crescimento começou ali.
Vem esta reminiscência a propósito de uma notícia ainda fresca: o autor/cantor dos versos acima anotados de memória acabou de sofrer um ataque cardíaco que quase o matou. Sempre soube que a ausência deste homem irá deixar-me um pouco mais só, um pouco mais pobre. Mas nunca consegui imaginar como coisa real um universo onde não está para sair mais um disco dele.
Agora, sinto-me desleixado, negligente; quase como se deparasse com um pai às portas da morte sem que de tal me tivesse inteirado a tempo. Dádivas há que, de tão gigantescas e ocultas, nunca encontrarão agradecimento ajustado.
Mas posso tentar. E faço-o assim.

Publicado por Luis Rainha às julho 22, 2004 01:52 AM

Comentários

Não sabia que o Peter Hammill estava mal... Também na minha vida os Van Der Graaf Generator apareceram numa altura fundamental (o final da adolescência). E Hammill é, para mim, o exemplo daquilo que um músico e um poeta deve ser, acima de tudo -- músico e poeta.
Com o passar dos anos, e da vida, deixei de seguir o seu percurso e arrumei-o num canto das minhas recordações. E não esperava encontrar agora, aqui, uma notícias destas...
'Aquilo' não é "The undercover man"?

Publicado por: zt em julho 22, 2004 11:26 AM

zt,
É, pois. O homem teve o ataque dois dias depois de terminar mais um disco (que até é beem bom, por sinal). A entrevista onde dei por este episódio está aqui.

Publicado por: Luis Rainha em julho 22, 2004 12:09 PM

Até que enfim que alguém fala de Peter Hammill na blogosfera. Pena que seja por este motivo.
Também eu (uns anos mais novo) devo muitas horas de grande música aos Van der Graaf e a Hammill.
o mais esquecido dos esquecidos, não fosse a imensa minoria silenciosa que o idolatra

Publicado por: eduardo em julho 22, 2004 06:04 PM

Obrigado pelo link e, já agora, pelas memórias que me despertou.
A história do Peter Hammill recorda-me a de A. E. Van Vogt, um dos maiores escritores de ficção científica de sempre que morreu praticamente ignorado por todos.

Publicado por: zt em julho 23, 2004 12:30 AM